sábado, 28 de setembro de 2013

Ordena que Te Ame


 
 
Contaram-me que existe uma mulher que está, neste momento, a atravessar um período negro, mergulhada numa profunda depressão. É acompanhada por um psiquiatra, cujos preços são anti-terapêuticos, e toma estabilizadores de humor, uma vez que oscila entre euforias e momentos negros de tristeza e falta de perspectivas. "São situações muito complicadas e de muita fragilidade, não se superam de um dia para o outro" - fui solidária porque, de facto, compreendo como pode ser exaustivo, não só para a pessoa que vive a depressão, mas para quem a rodeia e tenta, inutilmente, ajudar.
"Pois é. E pensar que ela está assim por um homem, nem posso olhar para a cara dele".
Fiquei a olhar para ela, chocada com a conclusão fácil a que ela chegou. Pensei em nada dizer, mas foi mais forte que eu. Ninguém fica assim por outra pessoa, fica-se assim porque algo não está bem por dentro, a dependência emocional extrema não pode ser considerada normal.
"Mas ele não presta, não lhe dá valor". Ok, ela é que não se valoriza, o que será uma das consequências da instabilidade emocional dela. Mas isto já só pensei, não o disse em voz alta... a minha interlocutora encontrava-se demasiado preocupada com a amiga, que até já tinha tentado o suicídio, e não valia a pena entrarmos num debate. Só que fiquei a reflectir nisto; de facto, temos a mania de procurar sempre um culpado nos fracassos que nos acontecem, seja em que área da nossa vida for. Neste caso o namorado pode aproveitar-se da dependência dela, da sua fragilidade, o que pode não fazer dele a pessoa mais correcta. Mas a decisão dela deixar o trabalho para o seguir para outro lado do país, de se anular como pessoa, deixar de ter um "eu" para ser um "dele", é apenas da responsabilidade dela e de mais ninguém. Isto denota fragilidades que têm origem não naquela relação, mas provavelmente, numa idade tenra, e inicia-se a busca inglória do amor salvador, que vai preencher todas as lacunas, sustentando-se a si mesmo pelo simples facto de se materializar na existência de outra pessoa; só que esta pessoa nunca poderá corresponder às expectativas de perfeição.
Seja de que forma for, a felicidade começa por dentro, e não há estabilizadores de humor que substituam a paz interior.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Notícias de Almoço


Hora de almoço,e mais uma notícia indigesta! Uma jovem,com deficiência, a viver no norte, vê ser cortado o transporte que a levava à escola. Resultado: tem que abdicar dos estudos! Isto cria uma revolta em mim que até me tira o apetite! Tanto orgulho que devemos ter na nossa nobre nação! Temos,de facto,boas praias,excelente clima, bons comes e bebes,e gente simpática,assim como sítios maravilhosos para conhecer. Ponto turístico do melhor. Mas as necessidades básicas das pessoas, a dignidade, o direito à educação e à saúde não são prioridade de quem está ao leme deste barco a afundar; podíamos ser pobres mas ricos em valores!
O nosso encanto está no passado,mas o presente e o futuro não vão trazer as melhores memórias aos nossos filhos e netos. Por isso,não me espanto quando,cada vez mais,os nossos emigrantes dizem que,apesar das saudades,não tencionam voltar de vez ao país que os viu nascer. E,assim,os filhos da nação, que até são convidados a mudar-se, vivem com mais qualidade lá fora,e fazem de Portugal uma estância balnear. Com razão,eu diria...

Amor CTT



Hoje saí mais cedo de casa a fim de poder ir à estação dos correios levantar uma encomenda, antes de seguir para o trabalho. Lá chegada, deparo-me com uma fila madrugadora, constituída por idosos que, estando em idade de reforma e, talvez, com mais tempo livre que eu, naturalmente adoram levantar-se cedo e estar nos sítios à hora de abertura...Ainda me passou pela cabeça pedir para me cederem a vez, já que eu tinha que picar o cartão sem atrasos e, de tarde, talvez já não apanhasse os correios abertos. Mas o meu anjo da guarda dissuadiu-me: certamente ainda seria desancada pelo atrevimento, mesmo que o fizesse com educação e ar de súplica...Após cinco minutos de hesitação percebi que não me iria despachar a tempo e, frustrada, saí dali, com pensamentos pouco bonitos para aquela hora da manhã. Ia tão distraída que quase não via uma das coisas mais surpreendentes até hoje: estava um carro estacionado ali perto, cheio de post-it colados em todos os vidros, e todos diziam apenas uma coisa, uma palavra simples! "Amo-te". Claro que parei para documentar, ver em filmes é banal, mas na vida real é inédito, e todos os pensamentos irritados que habitavam a minha mente foram substituídos por coraçõezinhos e recadinhos de amor. Eu! que não sou nada disso...uma vizinha que por ali estava parada, a admirar como eu tal obra romântica, disse que o carro era de uma rapariga. Uau, aquele gesto era masculino! Mais interessante se tornava! Fui trabalhar, contei às colegas e mostrei as fotos, prova do crime de invasão amorosa de propriedade alheia. "Oooohhh!!!!!!!!!!!", todas agradadas e um pouco invejosas da rapariga que era amada umas 30 vezes por escrito: a derradeira declaração é em papel! Conforme o dia decorreu, lembrava-me disto de vez em quando, e imaginava a cara dela...até que me ocorreu que esta podia não ser uma história de amor, mas sim de terror, que incluía violação de ordem de restrição. Na melhor das hipóteses podia ser um acto desesperado de quem fez grande porcaria e precisa reconquistar aquilo que perdeu.
 Será que este era um presente amargo? Não sou de ver logo o lado negro das coisas, mas uma dose de realismo não faz mal a ninguém! Resta-me desejar que aquela paciência toda tenha sido gerada por uma mente sã! e vou deixar-me imbuir do espírito encantado de uma história de amor. Já temos demasiadas coisas a tirar-nos a magia da vida....e a minha manhã foi melhor que isso, foi inesperada, um gesto de terceiros pôs-me a sorrir! Assim, até valeu a pena a ida aos correios. Espero que, neste momento, alguém esteja a viver um final feliz!



Nota: fui levantar a encomenda ao fim do dia, a correr depois de um dia de trabalho...e nenhum idoso à vista! o que será natural, uma vez que já eram seis da tarde...e, provavelmente, a hora de jantar de quem se levanta mais cedo que eu!






quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Palavras Inquietas


A minha vida é feita de palavras:

escrevem alegria
ou mágoa,
fluem das minhas mãos
como um vinho escorrega pelo copo,
ou então calam-se
e ficamos de costas voltadas
nos raros silêncios mudos.
Quando não ganham vida
cor-de-tinta
exultam na minha cabeça,
numa inquietação ansiosa por nascer.
Elas choram-me, elas riem-me,
elas respiram-me.
E, quando se calar a minha voz,
as palavras falarão por mim
na eternidade do meu silêncio.


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Pimenta na Língua

O meu gato, Sr. Tobias Joaquim, de quem já falei por aqui, teve hoje uma experiência fora do normal!
Estive a fazer o recheio de uns pastéis de massa tenra, que baptizei de "indianos", e que é composto por cenoura, cebola, alho, meio pimento vermelho, e azeite. Após tudo triturado misturo um pouco de carne de porco picada, adicionando depois as minhas amadas especiarias: caril, açafrão das índias, e pimenta! Já cozinhado, salpica-se aquele tom alaranjado com coentros bem verdes. Reservei o recheio numa caixa, e sentei-me para jantar uma bela carne à bolonhesa, que cozinhara ao mesmo tempo. A janela da cozinha toda aberta deixava entrar uma brisa deliciosamente fresca, e o Tobias lá deu um salto ágil até ao parapeito. Chamei-o para dentro porque queria comer de coração descansado! Ele olhou para trás e só me obedeceu porque algo lhe chamou a atenção em cima da bancada. Saltou lá para cima, e aproximou-se pata ante pata de algo bastante apelativo. Segui a direcção do seu olhar curioso, e lá estava: um pouco de pimenta entornada por cima da bancada. Fiquei a assistir, convicta que, ao cheirar, ele se iria desinteressar. Mas não! Tobias Joaquim cheirou tudo muito bem cheiradinho, com algumas hesitações. Então, num rasgo de coragem, lambeu a pimenta! Numa fracção de segundo não se moveu...até dar um salto à la matrix, só lhe faltava o sobretudo! quase acertando no tecto, aterrando de imediato à porta da cozinha, a lamber-se desesperadamente, até que  largou a fugir pelo corredor, numa aflição inglória porque, afinal, fugia dele mesmo, coitado. Tentei socorrê-lo, mas nos segundos seguintes só consegui rir-me. Lambeu-se até à hora do café, e ainda durante o queimar do cigarro. Agora dorme pacificamente encostado ao portátil onde escrevo, enrolado em si mesmo.
O que lhe aconteceu também acontece a todos nós, em alguma altura da nossa vida, metaforicamente falando claro. Quantas vezes não "farejamos" uma situação, e sentimos que será inevitável ela tornar-se um belo sarilho? E, mesmo assim, seguimos em frente, levados por uma vontade irresistível de ver até onde nos leva o desconhecido? Acabando nós por ficar com uma sensação de arrependimento, de frustração, ou de tristeza e coração desfeito, dependendo do contexto? Mas, seja este qual for, o que acaba por se tornar mais difícil é o acto de fugirmos de nós mesmos, e dos sentimentos que ficaram cá dentro...
O Tobias Joaquim bem correu, com o fogo todo na cauda, mas de nada lhe valeu...deixou passar o tempo, e lambeu-se pacientemente até que todo o ardor em si arrefeceu. Se for inteligente, nunca mais volta a lamber pimenta! Mas, pelo sim pelo não, e como por vezes caímos na mesma asneira uma segunda vez, vou estar mais atenta à bancada, nos dias em que estiver virada para uma culinária mais  picante!

domingo, 22 de setembro de 2013

Coisas de Bichos






Todos os dias passo por um cão, que está à janela de um prédio, com um ar curioso e activo, de orelhas em pé e olhos atentos. Tem até uma almofadinha por baixo das patas, de modo a que a cusquice matinal seja o mais confortável possível. Põe-me sempre um sorriso no rosto, vá eu nas calmas ou cheia de pressa. Hoje foi um dos dias em que até parei para o observar, assobiando-lhe provocadoramente. Mas ele foi imune à minha sedução humana, contemplando-me com uma boa dose de indiferença; por trás de mim passava-se algo muito mais interessante, certamente! Segui caminho, ainda a sorrir. E dei por mim a pensar em todos os bichos com  que me cruzo, ficando sempre com cara de parva. Ora é este cão, ou um outro que está nos treinos matinais com a dona, que não parece cuidar muito de si mesma, mas que se manteve firme no objectivo de emagrecer o seu labrador. E conseguiu, com um frisbee e muita paciência, torná-lo num bonitão elegante de quatro patas! Passo também por cavalos, de manhã vejo-los a pastar, e de tarde no picadeiro, às voltas com os tratadores. E fico sempre abismada com a sua beleza.
Vejo ovelhas, cabras, e até burros. Uma vez, levava eu um saco com uma couve para casa, e a couve quem a comeu foi a burra, que estava grávida na altura, e cujo filho também já conheci. Já se tornou óbvio que passo perto de uma quinta?, onde também existem gatos de todas as cores, e um cão enorme, não imagino qual a raça ou a idade dele, mas é um pequeno monstro, com imenso pêlo, assustador no seu jeito sinistramente quieto. Já o imaginei em humano, e acho que seria um velho barbudo de poucas falas!
Fui andando e divagando, enquanto ouvia Metallica nos fones, para não perder a energia nos passos automáticos que  nunca andam à velocidade da minha mente...e pensei que, de facto, tenho um laço especial com os animais,  desde muito pequena. O primeiro contacto estreito que me lembro de ter com um, tinha eu seis anos. Era uma criança solitária e introvertida, até vir morar, com oito anos, para a zona onde ainda vivo. A minha mãe passava o dia inteiro fora a trabalhar, e eu passava o dia inteiro sozinha, os receios maternos não me permitiam falar com ninguém fora da escola, pelo que ia e vinha para casa, chave num cordão ao pescoço, e orientava o meu dia-a-dia com uma maturidade pouco apropriada à idade. Nesta rotina, apareceu um cão. Não me lembro como nem porquê. Tenho apenas uma vaga imagem dele, grande e preto, que ficava de guarda em frente à casa, tomando conta de mim. O ambiente era meio rural, havia um enorme campo de papoilas, e ele levava-me à escola, espreitava-me no intervalo, e levava-me de volta a casa. Não me lembro se alguma vez lhe dei comida, mas lembro-me de o acariciar sem medo. Pouco antes de me mudar, ele desapareceu, mas foi com este cão da minha infância que, não sendo meu, me ensinou o que era sentir amor por um animal. E, se aprendi com ele o que era amor, com  um outro aprendi que, se os amamos, também temos que os respeitar! Uma vizinha nossa tinha um pastor alemão e, de vez em quando, ela dava-lhe um ligeiro açoite quando ele não lhe obedecia. Então, um dia, estava eu ao lado dele, no cimo de uma rua, enquanto a dona foi ao café, ou mercearia, não me lembro bem, com a minha mãe. Virei-me para o cão e mandei-o para casa. Ignorou-me, atento aos movimentos da dona. Sem pensar, e num gesto de imitação, dei-lhe um açoite. Como seria de esperar, o meu braço foi parar à boca dele. Sem o largar, rosnava ameaçadoramente. "Não te mexas!" ouvi a vizinha gritar, enquanto vinha a correr com a minha mãe em meu socorro. Pois, eu não pretendia mexer-me, tinha seis anos mas não era parva. E, enquanto elas corriam aflitas, eu não estava a sentir medo porque ele não ferrou os dentes. Só rosnava e olhava-me. Os olhos deles falam como os nossos, e eu percebi ali que tinha pisado o risco, só a dona lhe podia dar um açoite, o que eu fiz fôra uma falta de respeito! "Ele não mordeu, estava só a dar um aviso" a voz da vizinha anunciou alto o que me ia na mente. Não ganhei medo algum aos cães, mas aprendi que eles merecem o nosso respeito.
Por fim, ainda a viver no mesmo sítio, aprendi também o que é o sentimento de culpa por tratar mal um animal. De tal forma, que hoje em dia não consigo matar uma mosca, perco imenso tempo a enxotá-la para a janela (sou alvo de gozo, é claro!). Continuando, sabem o que são bichinhos da conta? Pois eu não sabia! Apenas sabia que gostava de pisar aquelas bolinhas cinzentas porque davam pequenos estalos engraçados. Até que um dia, a sábia voz materna me perguntou porque estava eu a matar um bichinho daqueles. A matar?! Foi avassalador para o meu pequeno coração. De tal forma que fui enterrar os restos mortais e crocantes debaixo de um grande carvalho que lá existia perto de casa,
fiz uma cruz com dois pauzinhos, e rezei um Pai-Nosso, convencida que ia parar ao inferno por ter acabado com uma vida inocente. O mais engraçado é que estes episódios/lições marcaram a minha memória, e não sei se foram eles que me fizeram ser fã de animais, mas a verdade é que nunca me foi permitido ter nenhum, excepto um periquito que viveu solitário e se masturbava nas folhas de alface que lhe pendurava na gaiola. Era um bicho inteligente e engraçado, tinha sempre a gaiola aberta e dormia em cima da porta. Até ao fatídico dia em que fez um voo picado que correu mal e caiu num balde com detergente, que tinha deixado no canto antes de sair de casa....overdose de sonasol!
Conclusão: no dia em que tive a minha casa, a bicharada começou a entrar, e assim é até hoje, fazendo parte da família. O meu filho adora animais, tem um laço especial com o seu gato Tobias Joaquim, e acredito que tornou a infância dele mais feliz. Tenho amigos que já passaram pelo desgosto de perder um animal e não querem mais nenhum, com receio de voltar a sofrer. Bem, eu já perdi uns quantos amigos de quatro patas, o primeiro estava eu grávida, e a veterinária não sabia o que fazer com as minhas lágrimas exacerbadas pelas hormonas, enquanto assistia à morte do meu primeiro gato, de seu nome Mike...e de quem tenho imensas saudades, passados 16 anos já.  Mas não tenho medo de voltar a sofrer, e vou ter sempre um animal de estimação, porque é natural que morram antes de nós (a menos que algo corra muito, muito mal!), e importa a vida que lhes proporcionamos, e as alegrias que eles nos dão a nós. Sofro muito mais ao ver animais ao abandono, ou os que são maltratados e até torturados por quem devia cuidar deles.
Existe uma expressão que diz "Mundo Cão". Mas não. "Mundo Homem"! Enquanto houver maus tratos a crianças, idosos, animais, e a todo o ser indefeso, este será sempre um Mundo Homem. E por isso gosto de me evadir até à minha infância, aos  momentos em que defini o Amor, o Respeito, e a Piedade pelo próximo, seja ser humano ou animal.












O Trilho dos Afectos




E espanta-se a pele
no acordar de cada poro
num anseio renascido em tudo
o que ficou por escrever, 
retido no tempo.
Ficaram as mãos vazias de palavras,
sobrou o que fervilha no peito dos afectos. 

sábado, 21 de setembro de 2013

Regresso a Casa


Tive três dias de férias que, aliados aos dois dias de folga semanais, me proporcionaram uns belos cinco dias de descanso. Reservo, todos os anos, uns dias que coincidem com a entrada do meu filho na escola, sempre um período de grande ansiedade para ele, e que eu faço questão de apoiar, e tentar minimizar. Foram apenas cinco dias. Sem passeios para fora da zona de residência, sem idas a cinema ou a almoçar ou jantar fora, Foram dias de ninho, de amar o que é mais meu. Fui uma fada do lar, mudei a disposição dos móveis, fiz bricolage, criando pormenores que tornam mais nossa a nossa casa!, inventei receitas e deliciei-me na cozinha: pequenos almoços em bandeja, almoços apetitosos sem atenção ao colesterol (férias são férias), lanches à inglesa, onde não faltava o bule do chá fumegante e o bolo morno feito com farinha de milho e muito carinho, e jantares fora do vulgar, com uma sopa em plano B como alternativa às experiências exóticas, mas à qual não foi preciso recorrer, felizmente!
Na ausência do estudante não faltou a "bica" matinal, a conversa descontraída com os donos da mercearia, que ao invés de falarem de cusquices e das vidas alheias que passam na rua, falam também de receitas novas a experimentar, e das notícias que já nada trazem de novo.
A ida obrigatória à biblioteca, para entrega de livros sobre karate e afins requisitados pelo meu filho, deu no regresso boleia a um livro para mim. Tenho uma estante com muitos para ler cá em casa, digo sempre a mim mesma que não tenho necessidade de requisitar, mas é como que uma atracção fatal, sento-me no sofá silencioso a ler uma revista e começo a ouvir sussurros que vêm do piso de cima... são eles, alinhados de A a Z, a chamarem por mim... Subo então a escada, "só p'ra ver", e cedo à tentação em três segundos. Desta feita a prateleira dos H's lançou-me nas mãos um livro da Joanne Harris, "Valete de Copas e Dama de Espadas". Não tive culpa. E, se nunca se diz que não a uma boa receita, muito menos a um bom livro, certo? Então, entre a bricolage e as panelas, fui folheando o livro, rendendo-me a ele como já não me acontecia há algum tempo. Pelo meio pus em dia algumas séries de televisão de que gosto muito (obrigada Senhor pelas gravações automáticas), e fui mãe sem cansaço fazendo, nestes cinco dias, do meu filho um alvo de amor, uma vítima de ataques culinários, de pipocas e filmes de videoclube, de passeios em fins de tarde...em suma, uma violência de mimos satisfatória para ambos!
Normalmente férias são associadas a viagens e aventuras, que por vezes até acabam num inferno familiar, regressando todos a casa com mais stress do que quando foram. As minhas foram umas mini-férias rotineiras, onde tive o que precisava: terapia mental, dormindo pouco e tirando extremo prazer de cada pequeno momento. O meu micro-cosmos voltou a ser habitado, isento de stress e ansiedade: regressei a mim, e de mim mesma já estava com saudades.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Fernando, o meu Poeta


Quanto mais leio Fernando Pessoa mais sentido me faz. Comecei a lê-lo muito nova. Em cada fase da minha idade, da minha vida e das suas experiências, a leitura que fiz de cada palavra foi tendo um novo significado para mim. 
A poesia é isto: é senti-la por dentro de nós, e fazê-la um pouco nossa. Somos,assim, pelos nossos olhos, uma extensão do poeta. 


Grandes mistérios habitam 
O limiar do meu ser, 
O limiar onde hesitam 
Grandes pássaros que fitam 
Meu transpor tardo de os ver. 
São aves cheias de abismo, 
Como nos sonhos as há. 
Hesito se sondo e cismo, 
E à minha alma é cataclismo 
O limiar onde está. 
Então desperto do sonho 
E sou alegre da luz, 
Inda que em dia tristonho; 
Porque o limiar é medonho 
E todo passo é uma cruz. 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O Tudo ou o Nada

Uma pessoa, de sexo masculino, fez a seguinte pergunta a uma amiga minha: "O que é para ti o amor? Podes definir?".
Ela, apanhada de surpresa, não teve a resposta na ponta da língua. Então, para ser rápida e prática, respondeu da seguinte forma: "Imagina um saco, onde pomos tudo aquilo que para nós é importante, e fecha-se muito bem fechado. O conjunto de tudo o que está lá dentro é o amor".
Pensava que o tinha arrumado, os homens gostam de mulheres práticas e de respostas concisas, não é? Mas não este! Concordou que era uma boa resposta, só que cada um de nós tem um saco com coisas importantes, que podem não o ser para a outra pessoa. Quais eram as coisas que o saco dela tinha?
Surpresa, eis um homem que gostava de falar sobre as coisas não palpáveis...como os sentimentos! Então enumerou a amizade, a cumplicidade, a confiança, o sexo...não era o que toda a gente procurava?
Correcto. E se o saco se abre um pouco? Por pouco que seja? Se um dos elementos que faziam o todo chamado amor, se escapa...o que fica lá dentro? o quase-amor? é com isso que se vive? com uma quase-realização amorosa? será que o saco se torna um fardo? e se, com a perda de uma das coisas importantes para nós, vamos perdendo as outras aos poucos? e, ao perdê-las, vivemos meramente conformados?
Todas estas questões levantadas por um homem, que pegou no exemplo simples, dado por uma mulher, sobre um saco, um simples e banal saco! E, com a sua mente inquieta e curiosa, ele abriu-lhe os horizontes, fê-la lembrar-se que um saco também se pode abrir, que nada se encerra para sempre, e que a vida, a vida de tanta gente, pode muito bem ser como uma grande peça de teatro, da qual se é protagonista e espectador ao mesmo tempo, deixando as cenas correrem, sem se pensar nelas e no seu significado, como um guião decorado, que vai perdendo a magia a cada repetição.
E, assim, ela concluiu que sem magia ou verdade, mais vale um saco temporariamente vazio na mão, que um amor por realizar.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

The Big Nanny


Imagem in manolobig.com 
Esta é uma história verdadeira, ocorrida talvez nos anos 80. É uma história que não conheci, nem a sua protagonista, uma ama com excesso de peso. Mas foi contada por quem convivia com ela. Contada hoje. (Realmente os dias podem ser muito interessantes, mesmo num ambiente com nada de novo, basta os diálogos correrem e haver verdadeira vontade em ouvir e absorver tudo aquilo que é falado à nossa volta.)
Então foi assim: a conversa começou por...mamas! Grandes, pequenas, umas com tanto e outras com tão pouco, opa já me davas um quilo de cada uma das tuas e ficávamos as duas felizes, e por aí fora. Sim, ambiente 100% feminino, lá está! E como existe sempre alguém que se mete em conversa alheia, uma das presentes conhecia, então, uma mulher que tinha as maiores mamas jamais vistas, pelo menos por ela. Eram as mamas generosas da tal ama que, por sinal, o foi dos filhos dela em anos idos de vacas gordas, não no sentido literal claro...forma de expressão! Ouviram-se exclamações de incredulidade quando, para reforçar a ideia que eram as maiores mamas que ela já tinha visto, contou que lhe tinham sido retirados,numa operação, cinco quilos em cada uma. Exagerada, não pode ser! Não não, é mesmo verdade, os bombeiros viram-se aflitos para a socorrer, por causa do balanço que elas causavam ao tentar descer as escadas, desequilibrava a maca, e ela ainda morria da queda na vez do envenenamento. Envenenamento?!
A narrativa subiu de interesse à medida que se falava em descer de andar: voltou-se então atrás no tempo.
A dita senhora havia sido prostituta em Espanha, anos antes. O marido conheceu-a nessa altura, ficou louco por ela, e tirou-a da má vida para ser senhora de bem, de tal maneira que se tornou ama dos filhos alheios. Mas, ao fim de anos de um casamento idílico, o marido extremoso apaixonou-se pela vizinha do andar de cima, que por sinal era um palito de tão magra. Desgostosa, ela ingeriu veneno para pôr fim à vida e não ter de enfrentar a rejeição.
Mostrei-me admirada com os contornos novelescos de toda esta situação, e perguntei se ele se desinteressou dela por ter engordado tanto depois de levar uma vida séria? Não não, ela sempre foi assim! Imensa, mas muito bonita...
Pois, mas pelo jeito, ela não gostava de si mesma o suficiente para suportar a perda de um homem que nem teve a originalidade de mudar, pelo menos, de código postal na nova morada amorosa.
Enfim, está viva ainda hoje, talvez devido ao excesso de peso que tinha, o que impediu um envenenamento fatal. A magreza do andar de cima pode ter posto um fim ao seu relacionamento amoroso, mas o peso que ela tinha a mais salvou-lhe a vida. Por pouco!, porque a imensidão das mamas podia ter provocado um desfecho diferente e muito pouco digno. Provavelmente, e agora penso eu com os meus botões, achou depois de tudo isto, que não valia a pena correr mais riscos, uma vez que o universo lhe deu uma segunda oportunidade... e optou por tirar cinco quilos em cada uma! Homens, afinal, há muitos, bombeiros com força de braços talvez nem tanto, certo? O que prova que, para manter o equilíbrio na vida, temos que gostar primeiro de nós, gordos ou magros, feios ou bonitos...isso e, por vezes, mudar de morada também, de preferência em andar térreo e longe do ex.
Auto-estima foi, assim, o ponto fulcral de uma história de mamas, que acabam por ser o menos curioso de tudo aquilo que foi contado em hora de pausa laboral!

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Outonal

Lentamente os dias mais frescos vão chegando, envolvendo-nos com subtileza num abraço frio. Os pés vão estando mais frescos e, à noite, já se puxa a ponta de um cobertor como quem não quer a coisa...E, com estes dias, que já parecem trazer uma cor diferente, vem um aconchego do qual eu já tinha saudades. Apetece mais rondar o fogão, e experimentar comidas mais quentes, o que fiz no último fim de semana (apesar de ter feito um delicioso gelado de café, bem fresquinho!).Aventurei-me numa receita nova de batatas fritas (à Toscana). Mergulham-se, cruas, no óleo frio ao qual se adiciona, durante a fervura, dois dentes de alho com casca, e um raminho de alecrim e de salsa....cada passo desta receita é como uma emoção que vai aquecendo com o tempo, até se tornar estaladiça e quente à superfície, mas suave e cremosa por dentro. Em suma, ficaram crocantes e deliciosas! Mas claro que foram o acompanhamento de algo suculento: um bife! Desculpem vegetarianos, podem parar de  ler, mas um bife grelhado a repousar em cima de uma marinada, feita com azeite, vinagre de vinho tinto, oregãos e pimenta de caiena...é...onde é que eu ia? no Paraíso? Right!
A carne tenra, com todo aquele aroma entranhado, desfazendo-se em cada garfada, é um pedaço de céu na terra da gula. Perdoa-me Senhor que peco cada vez mais. Mas a culpa é da promessa de Outono que já se adivinha nas cores, nos aromas, nos dias mais curtos. Por vezes tenho a sensação que sou a única pessoa que adora esta estação, pois transmite-me uma serenidade única; não sinto que é uma altura de tristeza mas sim de renovação, de prescindir do que está a mais. Fico feliz quando vejo as folhas a voarem, ao colo daquele vento ainda suave que brinca no cabelo, o casaco de malha que acaricia a pele, e a comida....a comida que aquece a alma e nos aproxima, os temperos quentes, o bolo morno comido no sofá, enquanto se vê um filme...
Portanto, vou ver mais uns programas de culinária e escrever no meu caderno de cozinha as receitas (viáveis) que mais me seduzem, preparando com calma a chegada da minha estação preferida. Quem ainda anda a banhos há-de rotular-me de coisas pouco simpáticas, mas...Setembro, obrigada por me trazeres o Outono! E não, não tenho uma essência fria. Diria mais que é  calorosa, pincelada em quentes tons terra...uma "essência outonal"!

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Palavra de Filha



Em que pensas tu
nos momentos de silêncio
em que te ouço uma tristeza?
Será que lembras
tudo o que não tiveste
e não pudeste ser?
Será que receias os dias que já não vais ter?
Que espécie de solidão
te invade quando vês
o horizonte mais perto que todos nós?
Já não sonhas com o futuro;
em cada suspiro
gastas um fôlego de vida.
Peço-te...
Vive hoje como se tivesses nascido ontem.
Deixa o passado cansar-se
de ser recordado,
e liberta o futuro que
ainda não quer nascer.
Bebe a alegria do hoje
e alimenta-te do agora.
Como em outra vida te prometi:
eu estou aqui.




 









quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Ontem e Hoje


Hoje ouvi mais uma das (muitas) histórias curiosas contadas por um amigo meu, um jovem inquieto com mais de sessenta anos.Já muitos episódios curiosos foram contados por ele, do tempo em que era um jovem que calcorreava Alfama: as conversas picantes de varinas de língua afiada; as boleias apanhadas no elétrico; os dias de praia na companhia de estrangeiras louraças e jeitosas "com'ó camano", encantadas com os machos latinos; os travestis brasileiros que apanhavam tareias homofóbicas; as artistas italianas de sangue a ferver nas veias pelos belos "ragazzos"; a cave temida de um café onde se curavam, a sangue frio, os esquentamentos dos jovens garanhões; os saraus literários e as noites de fado à desgarrada; as fugas forçadas à polícia; o 25 de Abril, e os interesses que nasceram no pós...uma variedade de assuntos que são despoletados por uma qualquer conversa, como muitas que temos diariamente, e nos levam numa viagem ao passado, que ele recorda, e eu visualizo como se lá tivesse estado.
Então, hoje, o meu amigo contou que, no tempo em que trabalhava, quando um colega ficava de baixa médica, todos os outros se juntavam e faziam uma "vaquinha", a fim de lhe completar o ordenado. Assim, no final do mês a esposa ia buscar o dinheiro que tinha sido reunido, para não faltarem os bens necessários numa casa temporariamente mais pobre. Falamos aqui de um espírito de entreajuda que se foi esbatendo até aos nossos dias, num processo inverso da evolução de tudo o resto.
Agora, perante a miséria dos outros, tanta gente tem "tanta pena"...mas dificilmente há um gesto na prática. E, os que o têm, num impulso de humanidade, muitas vezes são rotulados de parvos ou ingénuos, porque hoje em dia "ninguém agradece nada". Ora, isto é uma grande mentira; existem pessoas que realmente precisam de ajuda e ficam, de facto, agradecidas. Mas estas são as que, normalmente, menos se queixam. Se existem as outras, as que tiram proveito da bondade alheia, não faz mal. O Bem que é feito, feito está. E o gesto da solidariedade nunca é em vão.
Ironicamente, hoje em dia existem muito mais instituições, sem fins lucrativos (?) com o objectivo de ajudar o próximo. Mas, em contrapartida, deixou de se conhecer o vizinho do lado, e vamo-nos tornando surdos aos pedidos de ajuda que moram tão perto de nós.
Felizmente, existem ainda muitas excepções à regra, e eu já tive a felicidade de conhecer pessoas especiais, que teimam em garantir que a tradição ainda seja, hoje, o que ontem era. 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Imitar a Arte




No livro "Chocolate" de Joanne Harris, a personagem principal, de seu nome Vianne, é uma mulher que chega a uma pequena aldeia, levando consigo a sua filha, e a mãe, em cinzas, num pote. Sem amarras, vai para onde o vento a leva, em busca da felicidade, do equilíbrio. Ali chegada, e contra a vontade de alguns, abre uma chocolataria, e entra no coração e alma dos habitantes, através dos sabores da sua loja, e da sua delicadeza. Num sítio onde todos vivem da aparência socialmente aceitável, sem excessos ou prazeres, ela leva a que cada um se aceite a si mesmo, com os seus defeitos e pequenos pecados, sem culpa. Assim, uma a uma, cada personagem descobre qual é o seu "sabor": chocolate picante? de menta? Negro? Branco? Cada personalidade, cada paladar...
Enfim, é uma história maravilhosa, com a descoberta inevitável do amor! E eu penso em quão bom seria termos este tipo de liberdade, seguir o vento em busca do equilíbrio, conhecer lugares e pessoas, sem a preocupação diária que nos rouba o tempo, tempo este que passa por nós e nos faz esquecer quem realmente somos. Ou pior, faz-nos esquecer da busca de nós mesmos. A nossa vida acaba, assim, por ser resumida num extracto bancário, e em facturas com data limite de pagamento. E para quê...?
Pudesse a vida imitar a arte, e eu iria sem hesitar atrás do vento, vento este que me podia levar até uma aldeia, e assim viver uma vida mais real, mais saboreada... Se abrisse uma loja não seria de chocolates, mas sim de salgados, que é para isso que tenho mais jeito: "você é pessoa de noz-moscada? Mais atrevida, como o piri-piri? Ou mais exótica, como o caril? Tenho tempero para todos os gostos!". O meu filho teria os seus animais de quinta, como tanto gosta, e eu seria, assim, a protagonista de uma história de encantar.
 Bem, talvez alterasse um pormenor ou outro...por exemplo, na minha humilde casa rústica (com uma cozinha cheia de flores e armários de madeira pintada de azul) haveria apenas um televisor, mas com Tv Cabo. Ah, e internet, já agora! E pronto, não mexeria em mais nada....embora, comparando agora com o livro adaptado ao cinema, eu não seria tão gira como a Juliette Binoche, que protagoniza o filme. E tenho sérias dúvidas que me aparecesse um Johnny Deep com ar misterioso, pronto para arranjar as avarias em casa...um Manel ou um António, com alguma sorte! Mas, no fim, nem era isso que teria a maior importância...porque o vento muda de direcção, e a história da vida nunca está acabada.



terça-feira, 3 de setembro de 2013

Biónica Forma de Vida



A alma é livre porque sonha
sem limites nem prisões.
E quando a alma já não quer sonhar?
É uma coisa morta num corpo vivo?
É a árvore que não floriu na primavera da vida?
Não nos tornamos, assim, um deserto sem paisagem ou expectativa?
Transformamo-nos em máquinas biológicas,
de emoções à pele e marasmo na essência,
espectadores do passar do tempo em nós
e naquilo que nos rodeia.
Voltamos a ser primários enquanto
fazemos, em vida, o funeral à alma…
E sobra um silêncio e um vazio na
organização metódica da mente.
Não existe caos, porque não existe procura…
Apenas e somente existimos.

Língua às Três Horas


Tem-se falado muito da actuação de Miley Cyrus nos VMA's. Uma e outra vez tenho ouvido críticas e comentários sobre a postura da jovenzinha. Bem, como não gosto de ouvir falar de um assunto sem poder formar uma opinião, lá fui eu até ao youtube. E pronto, ali estava a jovem rebelde...ou, melhor dizendo, a sua língua!! Falam tanto da coreografia, da ousadia, mas para mim o que me custou ver foi aquela língua toda, qual escalope inquieto que me dava calafrios a cada vez que lhe saltava da boca, serpenteando de forma que, suponho, se pretendia ser...sexy? Provocadora? Assim que a miúda apareceu e enquanto descia os degraus, a língua surgia como se tivesse vida própria, e eu senti-me de volta à ficção de "Aliens"; parecia ela que o seu corpo tinha sido apoderado por um extraterrestre, e que este tentava agora sair pela boca, o que justificava a falta de sincronização entre cada passo que ela dava e as entradas e saídas do dito escalope. Ainda por cima um escalope com inclinação para o lado esquerdo...!
Esta foi a minha primeira impressão horrorizada. E depois levantaram-se algumas questões, entre elas: QUEM lhe disse que uma língua pendurada em grande parte da sua extensão É uma coisa sexy?!
Compreendo que ela se queira distanciar dos papéis de menina bonita que representou, como Hannah  Montana ou protagonista do drama (demasiado)romântico de Nicholas Sparks. Renovou o visual, que lhe fica bem melhor...foi como rectificar os temperos de uma receita sem graça. O pior é que deixou que o frasco entornasse para dentro do tacho, e a receita ficou com graça a mais. E o excesso aqui foi a morte da artista, pois confundiu maturidade com vulgaridade. E uma vulgaridade patética. Parece-me que é uma jovem perdida, ainda à procura de si mesma, acho mesmo que não tem nada a ver com a imagem que passa de si própria e, não fosse aquela língua ondulante que me provocou calafrios, até tinha uma certa pena dela. Claro que as opiniões dividem-se, até o meu querido Justin Timberlake veio em defesa dela mas, para mim (e desculpa Justin) ele "espalhou-se" ao comprido. Primeiro argumento: "Por favor, são só os VMA's, não propriamente os Grammy!" Bem, é um bocado deselegante fazer esta comparação! E até acaba por ser um contra-senso, pois significa que aquela foi uma actuação não digna de um evento mais in, o que coloca dúvidas sobre a sua qualidade. Mas, pior, foi dizer que a Madonna também já havia feito actuações semelhantes...Ó Justin, tu ganha juízo amor! Primeiro que tudo, Madonna foi a pioneira das provocações...e estávamos nos oitenta, por favor! Naquela altura era necessário o choque, a diferença, para fazer uma carreira duradoura. Se a Madonna aparecesse hoje com a mesma postura de à trinta anos atrás seria pindérica e vulgar, porque nos dias que correm o caminho não é bem por aí, pelo menos para quem que ser memorável (no bom sentido). Por isso temos a Madonna dos anos oitenta. E dos noventa. And so on. Várias Madonnas numa só, ela é um camaleão inteligente, tudo foi calculado com precisão; não andava à procura de si mesma, foi sempre única e original, fiel a si própria, com um objectivo bem definido. Não há comparação possível, afinal de contas duas mulheres podem parecer iguais na roupa, na actuação...mas não serão necessariamente as duas sensuais e igualmente atractivas! Há uma linha que separa a vulgaridade da genuinidade... Seja no mundo do espectáculo como no dia-a-dia.
Conclusão:
Madonna, ser rainha não é para todas! 
Justin estás perdoado, ao fim e ao cabo és um gentleman em defesa de uma mulher! 
E Miley... recomendo um templo budista para encontrares o teu equilíbrio. És muito gira, com menos língua e mais juízo pode ser que ainda te safes!

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Há Dias Assim




Existem dias, momentos, em que 
não se soltam rabiscos
nem existem asas para divagar.
Nesses dias, momentos,
a alma é uma folha em branco
porque não há tinta que chegue
para escorrer cá fora
aquilo que vai por dentro.

No Poupar é que está o Ganho




Hoje em dia fala-se cada vez mais em PPR's, especialmente em pessoas jovens, ainda longe da idade da reforma. Devido à crise, precaução passou a ser o nome do meio de muito boa gente. Numa altura em que ainda se devia pensar em aventura e extravagância, pensa-se agora em amealhar tostões numa mensalidade fixa para "garantir a velhice". Sinais dos tempos! 
Assim como é com o dinheiro devia ser com os afectos, prevenindo-nos com um PPE: plano de poupança emocional! Embrenhados que estamos no stress do dia-a-dia, esquecemo-nos muitas vezes de investir na relação que temos com os amigos. Hoje não há tempo, amanhã há isto e aquilo...e não se criam rotinas, que deviam ser obrigatórias como a picagem do ponto no  trabalho. Contudo, quando chegar a idade da reforma, e mesmo que o PPR tenha cumprido o seu objectivo, de nada serve uma velhice descansada se não tivermos os amigos para partilhar as horas que serão mais vagas.
Assim sendo, o Plano Poupança Emocional devia ter uma regularidade de depósitos efectuados, não em numerário, mas sim em pequenos momentos partilhados com os amigos, daqueles amigos que são "p'ra sempre",  reiventando-se em conversas e cumplicidades, sem nunca perder a frescura que só é possível encontrar na magia única de uma amizade verdadeira.






















domingo, 1 de setembro de 2013

Let it Be


Se o sofrimento é aprendizagem

então que seja com o cabelo ao vento
em instantes de praia e mar,
os pés descalços,
doridos de dançar as noites,
e os braços abertos
para acolher os dias
e os seus invernos
que segredam um horizonte 
feito de sol
e risos dentro de cada tristeza.


Bolsa de Valores



Sabemos o nosso real valor perante uma pessoa quando nada podemos fazer por ela, restando apenas e só a nossa presença;
Assim é nas relações de amor, amizade, de trabalho, e em tudo o que seja de carácter humano.
E, salvo raras e felizes excepções, cada um de nós acaba por ser definido pelo seu valor de mercado no mundo dos sentimentos. 

Nudez





Fragmentos de pele,

células vivas que nos contém em nós,
renascem e reinventam-se
com a passagem do vento,
do tempo.
Sofremos um momento de nudez,
o despir de tudo o que já
nada nos traz;
depois, é o vestir de uma nova pele,
de um novo querer...
Primavera que nasce,
uma e outra vez,
dentro e fora
do nosso corpo. 

(des)Mascarar




Trago um afecto na palma da mão.
Não pesa, não fala.
Apenas existe.
E a sua simplicidade 
como que invade,
num caos sereno
que tolda a calma, a alma.
Sou mão fechada que resiste
a uma força que vem de fora
e me sonha por dentro.
Que me corre nas veias,
quebra-me os ossos, rasga-me a pele, 
tomba-me o corpo;
por fim cai a máscara num sopro que dói.
Silêncio, espanto...!
Ferve-me o sangue 
numa ebulição latente, quente.
A mão está agora vazia,
trémula,
mas não sozinha nem perdida...
Respira agora por dentro do peito
toda a magia outrora
nela contida.