sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Ciclo da Vida




imagem in veronicavidal-textoscronicaseensaios.blogspot.com




Finalmente anoitecia, e a vida na praia acontecia longe dos olhos do Homem. As ondas dançavam num vaivém descontraído, enquanto conversavam com a areia cansada, ainda magoada dos pés irrequietos que sobre ela haviam andado durante o dia. Contudo, ia esquecendo as dores à medida que ela e o mar relembravam os acontecimentos diurnos. Eram agora mais delicados os pequenos caranguejos que faziam corridas sobre o seu corpo granulado enquanto comentavam as outras, mais rápidas, feitas pelos pequenos humanos que se precipitavam para a beira-mar roubando água às ondas, a fim de construírem castelos sem autorização do areal submetido aos caprichos alheios. Sobre ele jaziam as memórias das brincadeiras, mas também dos despojos do dia que não pertenciam ali, e que inquietavam as gaivotas confusas, procurando comida e debicando plásticos com sabor a nada. As conversas fluíam entre todos os organismos vivos, ora num queixume, ora celebrando a liberdade nocturna. De vez em quando, e fora de horas, apareciam alguns humanos, diferentes daqueles que por ali andavam de dia, emanando uma energia mais serena. Deitavam-se na areia com delicadeza, e os seus risos soltavam-se pelo ar, confundindo-se com os das conchas e dos peixes, que nadavam ao colo das ondas, brincando como crianças à solta num jardim. Limpavam ocasionalmente o lixo que ali fora deixado por outros, devido a negligência ou esquecimento e, nesse momento, Homem e Natureza entravam em comunhão: podia sentir-se o bater do coração da terra, e a lua testemunhava como esta se unia assim ao céu, formando um ciclo infinito de renovação…
Finalmente anoitecia. E a Vida na praia acontecia, uma e outra vez.