A
eternidade da nossa infância está nos momentos que são vividos sem
idade, com a leveza, a beleza! de uma bola de sabão, que viaja às
costas do vento, sem medo do fim da viagem...
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
Alienação
Por
vezes sentimo-nos alienados do mundo. Mas o mundo está sempre igual,
o nosso, aquele dentro de nós, é que vai mudando a perspectiva. Só
temos que ir reconhecendo quem e o quê é feito, ou não, à nossa
medida, a fim de encontrarmos o equilíbrio e sentirmos que também
temos um lugar neste sitio fora de nós mesmos.
Puzzle Existencial
De
dentro para fora
e
de fora para dentro
vivo
muitas vidas numa só...
Faço
e refaço o puzzle da minha existência
desintegrando-me
em momentos de pó
e reconstruindo os pedaços
que ficaram
esquecidos na poeira do caminho,
largados sozinhos para de novo
fazerem sentido,
peças agora essenciais no livro
desfolhado
daquilo que sou e
por vezes não sei ler,
por
nascer em mim um novo alfabeto,
desconexo e ansioso
que me
confunde a vista e cansa a alma.
Regresso então à escola da
vida
e com certo deslumbre
conheço uma nova história da qual
sou protagonista involuntária
e espectadora curiosa.
Tudo em
um,
e tudo em nada,
vazio e plenitude,
construção e
implosão,
num sabor chocolate-limão
que é o agridoce
nascer,
no horizonte da minha mente,
de uma nova
alvorada,
que tudo me pode trazer
e da qual (ainda) não
espero nada.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Feeling(s)
Imagem in hotrat.blogspot.com
Instinto. Fala-se muito no instinto, em segui-lo como uma candeia que nos leva até ao sítio certo e, quem sabe, predestinado. Eu mesma sempre fui muito apologista desta ideia, até porque dá menos trabalho: É isso que sentes? 'Bora lá!
Não sendo nenhuma anciã, já vivi um bocado para perceber que este conceito é sobrevalorizado. Não porque esse feeling não exista. Mas, muitas vezes, a voz que ouvimos não é a do instinto, mas a do nosso desejo, de querermos algo que, necessariamente, não é aquilo que, de facto, precisamos, fazendo-nos avançar quando há que recuar. Ou é a voz de feridas mal fechadas, que nos mandam recuar quando devemos avançar. Distinguir estas acções impulsivas, do instinto em si como conceito de uma sabedoria inconsciente que todos trazemos desde que nascemos...bolas, não é fácil! Eu mesma já me vi em sarilhos, em nome do instinto!
Acreditamos em determinadas palavras alheias e agimos de acordo com elas, porque não se parte do princípio que as palavras não carregam honestidade; ajudamos quem precisa, numa entrega que "é o coração que manda", porque é inconcebível que alguém vá cuspir no prato onde come. E assim se entrega muitas vezes o ouro ao bandido, não pela força de uma vontade maior que nós, mas sim porque simplesmente acreditamos que a vida pode ser exactamente como nós achamos que deve ser: o resultado perfeito do Grande Plano. Chama-se ingenuidade. Ou fé cega. Mas não instinto. Então, talvez o melhor seja fazer orelhas moucas ao primeiro impulso, parar para pensar, reflectir. E depois de o termos feito, pensar de novo. E, talvez assim, consigamos ouvir dentro de nós uma voz mais conselheira, mais sábia. Se calhar, e afinal, talvez o instinto seja simplesmente a voz da experiência que já não se deixa domar pelo impulso original. Tenho a certeza que Eva se arrependeu de ter feito o snack de maçã e, se pudesse voltar atrás, pensaria duas vezes antes de dar a dentada proibida..Eu, se pudesse, faria muita coisa diferente. Claro que algumas pessoas diriam agora "não serias quem és, não estarias aqui da mesma maneira". Pois não! É esse o objectivo. Talvez estivesse num sítio melhor. E seria eu na mesma, mas com menos bagagem emocional, daquela que não faz falta nenhuma!
Resta-me a esperança na lei do carma, embora tenha falhas esse plano cósmico, do meu ponto de vista. Mas isso fica para uma próxima...Entretanto o meu instinto(?) diz-me que a lei do retorno só vai devolver alguma coisa lá para a idade da reforma. Bem, talvez seja optimismo apenas...porque tenho a expectativa de uma reforma, o que neste cenário de crise... é questionável!
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
A Caixa Mágico-viciante
Imagem in derepente.com.br
O meu fim de tarde foi em modo dolce fare niente, num namoro delicioso entre mim, o meu sofá e o comando da box da tv por cabo. Oh, a maravilhosa magia de recuar sete dias! Sinto-me um David Copperfield em versão feminina, hoje estou na segunda-feira e puf!, em dois segundos volto ao fim-de-semana. Como é bom termos a nossa própria máquina do tempo. Limitado a uma semana, é certo, e só recua, não avança...mas quem quer saltar direto para o fim da história?!
Com tanta modernice, não consigo parar de pensar que "ainda sou do tempo" (agora mesmo visualizei um anúncio feito com uma idosa fofinha, mas vou já, já apagar isso da minha mente) em que, quem tinha televisão, eram os mais privilegiados, não necessariamente ricos, claro. Eu e a minha mãe não fazíamos parte desse rol de sortudos, na minha primeira meia dúzia de anos de vida. Mas havia uma vantagem: íamos, nós e os vizinhos, beber a "bica" ao estabelecimento lá do sítio, que tinha televisão! Ajeitavam-se as cadeiras e, lado a lado, convivíamos enquanto víamos a novela com cheiro a cravo e canela. Maravilhados em frente à caixinha mágica, entrávamos literalmente numa outra dimensão. Era como uma ida ao cinema em preço low cost.
Recordo também o dia em que o meu pai apareceu, numa das suas visitas regulares, com uma dessas caixas mágicas, ainda a preto e branco. Aquela imagem, o som que invadia a rotina até ali apenas invadida pelo do rádio a pilhas...! E os programas, os desenhos animados que me marcaram: "Candy Candy", com os seus olhos imensos (lei da compensação do imaginário chinês), que me faziam fugir da catequese e entrar à socapa pela janela do quarto (não cheguei a fazer a primeira comunhão, óbvio); "Topo Gigio", paixão latina que me fez chorar no último episódio, se ele não ia voltar significava que ia morrer, tendo por destino certo o céu dos bonecos animados; Dartacão, o romântico de capa e espada na mão; Heidi e Pedro, felizes nos alpes sem redes móveis; o Marco, viajante aventureiro que até apanhava pielas de vinho tinto e não parecia mal...Quanto alimento para a minha imaginação! Passámos a ir menos ao café, e aos poucos todos os vizinhos também. Começava, assim, a era solitária da tecnologia no nosso país.
Hoje em dia a mesma já é usada para quase tudo, e não nos deslumbra da mesma forma, o que antigamente era um luxo agora é natural: praticamente existe uma televisão por pessoa debaixo do mesmo tecto. Não sou anti-tecnologia, eu mesma sou uma consumidora do comodismo, até ando para trás sete dias no tempo televisivo! Mas, sem dúvida, que caímos em alguns excessos e dependências. A minha começou no dia em que a caixa mágica entrou na minha casa, e passei a ser dependente da dose diária de televisão para alimentar o vício da minha imaginação; hoje em dia, se cai o sinal do cabo por mais de uma hora, começo a sentir a ressaca. Olá, o meu nome é Inês, e sou tv cabodependente...
Pensando bem, menos tecnologia = mais convívio e tempo para outras actividades. O tempo é gerido e consumido por horários da tv, redes sociais, sms's, jogos de playstation, e por aí fora. Como exemplo posso dizer que cheguei a beber um café à pressa com uma amiga minha porque ela, pasmem-se!, tinha que estar em casa, a determinada hora, para ver um filme...!
Por tudo isto, e apesar do conforto, continuo a escrever os rascunhos do meu pensamento em papel. Menos cómodo, mais prazeroso, mais eu. Assim, e tal como hoje fiz, gosto de ir com o meu filho e a minha cadela, apanhar sol e vento na pele, apenas a trela pela mão. Arejar corpo e mente (a cadela normalmente fica à beira de um enfarte, já está velha para tanta caminhada).
Largamos por umas horas as tecnologias, e vamos simplesmente usufruir a simplicidade de tudo: afinal de contas, não existe caixinha mais mágica que aquela que trazemos dentro da nossa cabeça.
sábado, 24 de agosto de 2013
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Cansaço
O sistema, o sistema...o Homem criou um sistema e agora é prisioneiro dele. A culpa morre solteira, porque a culpa...é do sistema.
Com uma rebeldia quieta, e com umas teclas que lembram vagamente os Doors, fica aqui dito o que vai na alma de muita gente, em qualquer circunstância da vida.
Eu...concordo...que estou cansada pá. Ao fim e ao cabo, esta vida é uma mentira. A gente só tenta embelezá-la...
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Welcome to Zombieland
Ontem, durante a hora de almoço, estava eu com colegas
minhas sentadas à mesa habitual do refeitório, quando me deparei com o seguinte
cenário: um utente, já idoso, especou-se junto a nós, com a boca aberta e uns
restos do almoço na cara, a olhar para os nossos pratos. A pele com um tom
acinzentado e os olhos como que vazios, interessados apenas naquilo que
estávamos a comer. De imediato ouvi uma voz na minha cabeça, a dizer em tom
teatral “Welcome to Zombieland”. E senti-me algo entre, o deprimida perante tal
visão, com vontade de rir pelo pensamento algo sádico, e um pouco menos vontade
de comer! Como este utente, existem outros. E é interessante o fascínio que um
prato de comida, em especial o do vizinho, pode exercer em certas pessoas com
mais idade. Será que, lentamente, nos vamos tornando zombies, mais mortos que
vivos? Não pela vista que se cansa, o joelho que emperra, a pele que enruga, a
mama que descai, e outras “flacilidades” que não me apetece descrever aqui…?
Mas sim pelo atrofiamento mental voluntário, o estreitamento de horizontes, de
anseios, de curiosidades que vão para lá da ementa semanal? Por aquilo que vou
vendo ao longo dos (poucos) anos em que trabalho na área do serviço social, penso que é exatamente
o que acontece a quem não se interessa por si mesmo, achando que se acabaram as capacidades, que nada mais há para aprender ou para questionar. Eu não me consigo imaginar assim, seja em
que tipo de futuro for. E tudo farei, enquanto for viva e com capacidades, para
manter a minha mente e criatividade em ebulição, e para não me contentar com um
dia-a-dia robotizado, alimentando apenas o corpo…Deus me salve e guarde de vir
a ser uma futura inquilina da Zombieland; posso até vir a andar de bengala. Mas,
caramba! vou ter sempre um livro na outra.
terça-feira, 20 de agosto de 2013
Falar Menos, Ouvir Mais
Muitas vezes não ouvimos uma canção até ao fim, porque o início parece ser monótono e a melodia não nos canta ao coração. Então, calamos-lhe a voz e passamos para a seguinte da faixa, sem lhe darmos a hipótese de contar a sua história até ao fim. Perdemos, assim, um excelente momento musical, como é este caso. Começa quase demasiado suavemente, numa melodia que parece contar um segredo que pode não despertar a curiosidade imediata. Mas, com o passar dos segundos ela ganha voz, vida, num crescendo cadenciado que leva a um clímax só destinado aos pacientes. Depois, ouve-se uma e outra vez, e o início que se adivinhava monótono é agora delicioso. A envolvencia é subtil e, quando se dá por isso, já está na lista de downloads. Assim é com a música, assim é com certas pessoas.
Uma vez um amigo meu disse-me, na sequência da conversa que estava a decorrer, que "as pessoas por vezes desiludem-nos, pensamos conhecê-las e afinal não é bem assim". Respondi que é um facto que as pessoas por vezes nos desiludem, mas também acontece nós vermos apenas aquilo que queremos ver, e elas apenas vão até onde nós as deixamos ir. E que, talvez, a gente não se dê a conhecer o suficiente aos outros; tal como acontece na música, por vezes não mostramos todos os acordes da nossa melodia (por insegurança, desconfiança, ou incertezas sobre o outro). E, por vezes também, não temos a paciência suficiente para ouvir a dos outros. Num mundo feito de hits instantâneos que duram apenas uma temporada, existem felizmente os sons intemporais, que perduram no tempo e na nossa memória, que se tornam naquela a que chamamos "a minha música". Ou, com sorte, a nossa.
Dia Não no Quartel
Terça-feira...É a minha segunda-feira, início de semana para quem tem folga nos dois dias anteriores. Não será bem folga porque, na pausa da secretária, PC, e dos muitos papéis e números digitados na calculadora e no teclado, faço um outro trabalho: o de limpezas em casa alheia, onde puxo também pela cabeça, mas a dos dedos. E puxo pelo corpo todo, ginásio matinal onde não pago inscrição e ainda recebo para queimar calorias! Enfim, pobreza a quanto obrigas, felizmente os meus pais fizeram-me polivalente e sem peneiras, e regresso sempre a casa com uma sensação de dever cumprido e mais uma nota no bolso.
Hoje foi o regresso ao escritório, ás 9h da praxe, com uma valente dor de costas e zero vontade de vestir a pele de secretária de postura bem sentada. E muito menos de aturar o general do quartel cá do sítio...
Mas pronto, vale-me a pausa da manhã, onde aproveito para desabafar mais as dores da alma que do corpo. Pausa essa que já está no fim! (?) Agora regresso obrigatório ao mundo feito de cartões de ponto, essencial para quem tem uma renda de casa para pagar...Chegou entretanto o fornecedor do talho, excelente qualidade de serviço na entrega da carne! E, durante dez minutos, a vista alegra-se e, num escritório onde ninguém tem vontade de fazer nada, as conversas animam-se e até se esquecem, momentaneamente, as dores de alma, e as de costas também.
domingo, 18 de agosto de 2013
To Bronze, or Not to Bronze
Imagem in renatarode.wordpress.com
Hoje é domingo. Saia eu na véspera, ou não, gosto de me levantar cedo, sou uma noctívaga que também gosta do dia; escusado será dizer que não durmo muito. Mesmo quando durmo a minha mente é povoada de sonhos, está sempre em actividade. Sendo assim, 8:30h fora da cama, a vida é curta, há que aproveitar cada minuto que passa por ela em segundos apressados. Tenho a sorte de viver perto da baía que nasce do Tejo, e ao longo podemos caminhar e tomar um pequeno-almoço de vitamina E. Convenci o meu filho, bem mais preguiçoso que eu, a ir dar uma volta, e visitar uma quinta que remonta à época dos Descobrimentos, aberta ao público, a quinze minutos de casa. Fui com ele e a minha mãe, com paragem no café habitual de todos os dias. Quando fui pagar a conta a funcionária perguntou "Então? Vai com o filho para a praia?". Faz-me sempre a mesma pergunta aos domingos. E eu respondi como sempre: "Ao domingo? Não, eu gosto de ter espaço para me esticar.E o fim de semana é bom para passear.". e ela parece sempre ficar admirada, tenho às vezes a sensação de viver um dejávu! Porque será que a maioria das pessoas pensa que aproveitar o sol, o bom tempo, é só na praia? E porque será que as pessoas que não são amantes da praia (como é o meu caso), não são consideradas normais? Evidentemente gosto muito da praia, adoro o mar, embora numa postura mais contemplativa, porque sou muito friorenta e tenho um respeito, a roçar a fobia, à imensidão salgada, a imaginação leva-me sempre a questionar os mistérios que se escondem na vastidão subaquática. Sou mais apaixonada por passeios nocturnos ou invernosos à beira-mar...Durante o Verão aprecio, no mesmo dia, duas ou três horas de praia, mais que isso faz-me inquietação e vontade de fazer outra coisa qualquer, para além do ciclo banho-comer qualquer coisa-secar ao sol-e voltar ao mesmo. Em vez de um dia inteiro neste ritual, acho mais apelativo preencher o dia com um passeio diferente, uma petiscada com amigos mas sem areia, uma ida ao cinema, a um museu, um passeio de barco,..mas, se nestas actividades não se trabalha tanto para o bronze (e eu uso Factor 50 de protector solar, sou mesmo esquisita) o regresso ao trabalho, depois das férias, normalmente coincide com o seguinte comentário, quase decepcionado "Estás tão branquinha...!". Como se não tivesse aproveitado os dias como era suposto ser. Pois de certeza que aproveitei esta manhã tão bem ou melhor que os outros, debaixo do mesmo sol. Viver e deixar viver, independentemente da tonalidade do bronze!
sábado, 17 de agosto de 2013
Menos é Mais
Imagem in vivopelavida.com.br
Ia eu, há uns tempos atrás, antes do início do verão, a caminho do trabalho, quando passaram por mim duas crianças, um menino e uma menina, ela com os seus seis anos e ele pouco mais velho, ou da mesma idade. De mochila às costas e de mãos dadas. Talvez fossem irmãos.
Ao passarem por mim ouço-o dizer: "Espera. Quero dar-te uma coisa". Dei por mim a olhar com curiosidade, tal como ela. Ele largou-lhe a mão, agachou-se, e arrancou uma flor que despontava no meio das ervas. Ela aceitou-a com um sorriso, deu-lhe a outra mão, e seguiram novamente caminho, lado a lado e em silêncio, rumo à escola. Eu estava parada, deliciada com um cenário tão simples.
Foi uma imagem que não esqueci até hoje. Talvez pelo gesto simples em dar, e também em receber...
Dou comigo a pensar se, daqui por uns anos, quando ele quiser oferecer algo a alguém por quem se apaixonar, será tudo assim tão simples. Certamente irá hesitar, pensar. A sua oferta será bem recebida? As suas intenções serão entendidas? E talvez a pessoa a quem dar também irá hesitar, pensar, imaginar todas as possíveis intenções por trás do gesto. Crescemos a aprender a fazer jogos emocionais, a manipular e a racionalizar sentimentos; a simplicidade é algo de que desconfiar! Mas tudo pode ser tão simples como "Quero dar-te uma coisa". E, também simples assim, o aceitar com naturalidade, vivendo apenas e só aquele momento, onde todos saem a ganhar.
Que se Faça Luz
Existem canções e melodias que nos cativam como um amor à primeira vista, ficamos rendidos e presos a cada palavra e som, e as notas musicais envolvem-nos como um abraço desejado. Esta é uma delas.
Se a memória não me falha foi no dia 3 de Agosto a primeira vez que a ouvi(data memorável em que descobri, à 16 anos atrás, que ia ser mãe. E é também a data de nascimento de alguém que já não habita no meio de nós). Cheguei a casa do trabalho, um dia quente, e ainda ia sair à noite. Preparei o banho e liguei a TV no canal de música. Eis que ela surgiu, com um clip de video intenso, que me emocionou: os pormenores, a sensibilidade, a interpretação...fiquei ali, nua e descalça, presa ao ecrã. Uma história sobre a luz, a luz que não vemos e que nos rodeia, porque o ser humano tem o estranho hábito de se sentir atraído por aquilo que é mais obscuro mas que é, no entanto, mais sedutor. Corremos a vida numa penumbra voluntária, vivemos cada vez mais de noite, onde as inseguranças ficam na sombra. Até os encontros entre duas pessoas são, normalmente, marcados depois do sol se pôr, porque a exposição é menor, a dos pequenos defeitos que não gostamos em nós. Só por alguém que vale a pena se arrisca o meio-dia! Mas, se tivermos a coragem de abrir os olhos em frente ao espelho, em frente aos outros e perante a vida, se dermos uma oportunidade à luz da qual costumamos fugir, conheceremos um outro mundo, de cores diferentes, em que a alegria é mais pura e honesta.
Amanhã é um Novo Dia
"Estar com a telha" - Eis uma expressão que define um dia mal-humorado, aparentemente sem razão, embora eu acredite que tudo tem um motivo. Acho mais provável que um dia assim seja despoletado por um assunto mal resolvido ou um problema ainda existente nos meandros do nosso inconsciente.
Normalmente "estar com a telha" é algo passageiro, como uma virose sem grandes consequências, excepto quando se despeja o mau humor em cima de alguém (que normalmente é alguém próximo, e de quem gostamos) e se acaba por fazer danos colaterais, os quais temos que remediar mais tarde com um pedido de desculpas. "Desculpa, estava com a telha...", "Então come uma isca que isso passa!". Engraçado como os momentos e humores da nossa vida são descritos certeiramente através de ditados e expressões sábias, embora neste caso não se aplicasse à minha pessoa, pois gosto tanto de iscas como gosto de açorda. E não, não gosto mesmo nada de açorda...!
E pronto, "estar com a telha" é um estado estúpido que normalmente leva a um embaraçoso pedido de desculpa. E, em vez de "estar", o que será "andar com a telha?" Andar lado a lado, deitar e acordar com ela, até ameaçar tornar-se um modo de vida? Onde nem os prazeres fúteis conseguem elevar-nos a um estado de felicidade instantânea? Será este o resultado de ignorar um ou outro dia de telha, e não se aprofundar o real motivo de um estado de espírito sem explicação? Será que fazer isto é como quem toma um analgésico para disfarçar uma dor que não se sabe de onde vem? E depois o monstro acorda e instala-se numa enxaqueca permanente? Haverá cabeça que aguente?!
Com o stress que nos rodeia e a quantidade (e variedade) de problemas que nos assolam em simultâneo, sem dó nem piedade, deveria ser obrigatório, e comparticipado pelo sistema nacional de saúde!, o internamento, pelo tempo que fosse necessário, num SPA...munido de todas as terapias zen a que um stressado tem direito, pagando apenas uma simbólica taxa moderadora, onde está incluída a admissão do(a) melhor amigo(a) do(a) paciente, como complemento terapêutico. Penso que sairia, a longo prazo, mais económico e mais ecológico; nada de psiquiatras, nem drogas que acabam por toldar a consciência de nós mesmos e nos dão uma falsa sensação de paz interior...
Talvez assim já não andaríamos, a maior parte de nós, a bater com a cabeça, mas com jeitinho!, porque já lá vai o tempo em que se podia mandar pintar as paredes de casa todos os anos...
Sendo que esta solução é utópica, sobra outra: a malta junta-se em terapia de grupo, de vez em quando, e bebe as amarguras da vida, os sonhos por realizar, as frustrações, os desamores, os problemas com os filhos, e tudo aquilo que está recalcado nos dias de boa disposição. E a medicação desta terapia tem o patrocínio de uma marca de cerveja. O que vai resultar, no dia seguinte, numa "telha" acompanhada de uma valente ressaca...Sem dúvida, e lá diz o ditado (desta feita em inglês, porque a sabedoria é uma coisa universal): "Misery loves company".
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
O Algodão Engana
Imagem in http://www.vidasustentavel.net
A minha gata tem uma tara inexplicável: algodão. A simples visão de algodão em bolinhas, em discos, ou seja de que forma for deixa-a completamente possuída! Aproveita qualquer oportunidade em que eu esteja distraída, enquanto me desmaquilho ou trato da manicure; finge um ar desinteressado e aproxima-se sorrateiramente, até deitar as unhas ao objecto cobiçado. Aquilo cola-se na língua e, sinceramente, o ar dela não é de prazer, mas de alguma estranha forma aquele ritual parece fasciná-la. Talvez tenha sempre uma expectativa que nunca chega a realizar!
À pouco tempo estava eu sentada em cima da minha cama, a ouvir música e rodeada de vernizes, limas, acetona e bolinhas coloridas de algodão: o playground perfeito para o fetiche felino! Ela estava com aquele ar frustrado de quem quer ter e não pode, porque eu policiava cada movimento que ela fazia. E, contemplando aquele pequeno focinho que só faltava babar-se, pensei que realmente todos temos assim um pequeno vício, o de querermos muito uma coisa que sabemos que nos faz mal e que, no fim, não nos há-de saber assim tão bem. Mas repetimos uma e outra vez a queda na tentação, nos mesmos erros. E, a cada bola de algodão, a cada comida proibida, a cada má escolha, juramos sempre nunca mais cair no mesmo. Até surgir novamente uma oportunidade, e todos os traumas e consequências já sofridas vão para uma gaveta algures no nosso inconsciente. Mas chega o dia em que o ciclo vicioso deu a volta e encontramo-nos no ponto de partida. Então abre-se a tal gaveta, assim como todos os armários que estavam convenientemente fechados na nossa memória... e assim se vai mobilando uma casa inteira dentro de nós, cheia de coisas que não prestam, no condomínio cada vez mais fechado onde mora a nossa alma.
Por agora o algodão está arrumado e a gata esticada ao sabor da ventoinha. Mas o verniz já vai lascando. E logo, ou amanhã, lá voltamos nós ao mesmo!
Ementa Emocional
Hoje estive de conversa telefónica com uma grande amiga minha, que está neste momento muito muito distante de mim, fisicamente falando. Mas as nossas conversas continuam muito próximas e íntimas, sobre os mais diversos assuntos. Começámos por falar da rotina do dia-a-dia, do trabalho dela, lá em dias de inverno, e dos meus aqui em dias de verão. Divagámos e coscuvilhámos...namorados e inexistência deles... e chegámos a algumas conclusões. Uma delas, e de acordo com esta minha amiga brilhante, é que eu devia entregar-me aos prazeres do lesbianismo! Quem sabe encontrava assim a felicidade amorosa? A minha reacção espontânea foi um redondo não, com ponto de exclamação. Felizmente essa hipótese não me passou pela cabeça, nem durante três hesitantes segundos! Não por uma questão de preconceito, mas era a mesma coisa que ter que comer açorda quando esta não me passa pelo estreito! Não vou repetir aqui os argumentos vários que utilizei, houve muita risota e visualização de cenários possíveis só na nossa imaginação, exacerbada pela distância que nos separa agora. Relembrámos alguns episódios em que alguém até achou que éramos namoradas: os gulosos de imaginação aguçada queriam à força que uma das suas fantasias se realizasse...Ficaram pela fantasia, nós pela fama, e cada um satisfeito à sua maneira!
Evidentemente que toda esta conversa foi uma das nossas habituais brincadeiras que utilizamos para desabafar, de forma leve e fresca, algumas frustrações e dúvidas existenciais.
O mais engraçado é que os problemas emocionais são provocados pelas pessoas e as suas atitudes, não pelo seu género ou opção sexual...como diz a minha mais sábia amiga "o importante é ser feliz"...embora aqui houvesse o risco acrescido de duas TPM em simultâneo! A única vantagem seria, a vestirmos e a calçarmos o mesmo número, ter mais opções de guarda-roupa. Sim, dando por mim a imaginar essa realidade alternativa, eu nunca teria queda para matrafonas...se fosse para variar, a testosterona teria que ser mínima!
Conclusão profunda de tudo isto: continuo uma crente (ingénua) no sexo oposto,e sou aquilo a que se pode chamar uma mulher de fé! Contudo, se eu variasse o meu gosto na ementa emocional, podes ter a certeza de uma coisa Amiga! TU serias a detentora do primeiro lugar no meu Top Five!
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
Prison Break
imagem in http://revista.cifras.com.br
Hoje assisti à clássica situação de mulher dependente de homem. Nos dias que correm isto surpreende-me, o sentimento de posse entre as pessoas, como se o outro de um objecto se tratasse. Quero saber onde estás, com quem falas, toma lá cinco euros para comprar pão e traz o troco. É levado ao extremo o termo "contrato" na assinatura de um papel que oficializa uma união. E uma das partes deixa de ser dona de si mesma, anula-se como se tivesse nascido naquele momento! Será que é o medo da solidão que alimenta uma situação destas? E será essa solidão assim tão terrível quando existe paz de espírito? Liberdade para fazer o que se gosta, com quem se gosta, liberdade para sermos fiéis a nós mesmos? Excepto determinadas circunstâncias, alheias à vontade do prisioneiro, o carcereiro só vai até onde lhe é permitido. Se os limites vão para lá do razoável, então a culpa é de ambos. Um alimenta-se da auto-piedade do outro. E, nestes casos, apenas se estraga uma casa, onde a solidão é vivida a dois.
domingo, 11 de agosto de 2013
Amar sem Pele
Quando se pensa que já se viveu todo o tipo de paixões, descobre-se assim de repente, como um furacão que invade o céu pacífico da nossa existência, que há um tipo de sentimento que aperta o coração, que o dilata de felicidade ou o faz contrair de tristeza, uma tristeza diferente que não sai do mesmo lugar. É possível, afinal, duas pessoas encontrarem-se num cruzamento do destino, sem direcção sinalizada, e sentirem uma ligação que não passa pelo contacto físico, ela atravessa de uma só vez a pele, rasga músculo, trespassa ossos, mergulha no sangue e vai directo ao coração. E fulmina-o sem haver uma razão, uma justificação. É só assim, sem rodeios nem meio termo.
Este é um sentimento bem mais perigoso. Enquanto nos perdemos num corpo, numa cama, num orgasmo, toldam-se os outros sentidos, aqueles que nada sentem na matéria. E o coração bate mais devagar no plano físico, aquele batimento profundo e mais dentro não se torna consciente. Mas quando ouvimos o ritmo cardíaco das nossas emoções, ele torna-se ensurdecedor. E vem depois a ansiedade, a urgência de transformar tudo que se sente em gestos, num abraço, num beijo profundo, num suor feito a dois.
Quando esta paixão morre na praia, quando a canção chega ao fim, ou "tudo foi para ti uma estúpida canção que só eu ouvi", a perda do que não se chegou a ter nas mãos ganha uma dimensão de tristeza que nunca se supôs que pudesse existir. Porque não houve a intimidade, a história vivida a dois. É um sentido que não faz sentido!
Talvez este seja, assim, o maior desgosto que se pode ter no plano emocional entre duas pessoas que partilharam aquilo que não havia, afinal: o quase-amar, o quase-beijar, a quase-felicidade...Porque a interrogação que mais perdura na inconsciência de uma pessoa é "e se...?". E dói mais ficar com tanto para dar, que dar ao outro tudo de nós.
Talvez este seja, assim, o maior desgosto que se pode ter no plano emocional entre duas pessoas que partilharam aquilo que não havia, afinal: o quase-amar, o quase-beijar, a quase-felicidade...Porque a interrogação que mais perdura na inconsciência de uma pessoa é "e se...?". E dói mais ficar com tanto para dar, que dar ao outro tudo de nós.
sábado, 10 de agosto de 2013
Happy Day in mummy's heart
Ontem foi um HAPPY DAY! Não porque me saiu uns quantos euros na raspadinha (o que era ótimo), nem porque o chefe decidiu ir de férias para o Algarve (melhor que raspadinha), ou qualquer outra coisa desse género. Não tem a ver com matéria, nem riqueza palpável. Mas sim com riqueza de espirito. O meu filho de 15 anos esteve um mês sem me ver, foi de férias e deu-me férias a mim. Refrescante para os dois, e para o gato lá de casa que teve pausa na tortura de amor. Juro que nos primeiros dias pensava que o bicho estava em coma mas, afinal, estava só a pôr em dia todo o sono atrasado!
O filho pródigo regressou, e eu idealizava o abraço de saudades, o beijo repenicado, a tagarelice habitual, e o caos do qual já tinha muitas saudades...Bem, nada disso! Chegou-me a casa um morenaço lindo e sisudo, de poucas falas e muitas saudades da playstation e do seu sofá, sobre o qual se esticou após o jantar, ficando hipnotizado a olhar para a televisão. Eu, sentada à secretária, a navegar na internet. Ou seja, pareciamos um daqueles casais juntos à 50 anos, que já não falam, mas em versão mãe-filho. Fiquei aborrecida, esforcei-me por não fazer drama (já lhe vão chegar os dramas femininos quando tiver namorada, convém poupá-lo por enquanto), e deitei-me desiludida, adormecendo nos braços da paciência, como qualquer mãe que se preze. Acordou um novo dia, e pés a caminho em direcção ao trabalho. Rotina normal. Ou não! Ao fim de uma hora recebo um telefonema: "Olá mãe". E o pedido de desculpas mais emocionante da minha vida. Não só pediu desculpa como fez questão de explicar a sua atitude: o regresso a casa provocou-lhe stress, vinha da calma e da tranquilidade do campo, onde assentou ideias e recuperou de um período muito difícil que ambos atravessamos recentemente. O regresso à realidade foi duro, avivou-lhe memórias e deixou-o triste. Mas nada tinha a ver com o facto de gostar muito de mim e de ter tido saudades. Porque gosta mesmo muito de mim. E teve mesmo muitas saudades... Contudo, tinha que se justificar e pedir desculpas para poder passar um dia tranquilo; a consciência pesava-lhe muito! E apertou-se mais este laço. O laço, não só de mãe e filho, mas o laço de quem atravessou um deserto lado a lado e onde, confesso, ele foi mais o meu pilar que eu o dele. Vimos sonhos desfazerem-se como nuvens em dia ventoso. Mas juntos criamos sonhos novos, e renascemos na esperança de um novo futuro e na cicatrização das feridas.
Tudo isto, e a consciência de que o meu filho é uma pessoa de carácter, que assume erros e responsabilidades, encheu-me o coração de amor e orgulho. Apesar de tentar transmitir valores com as minhas atitudes, mais que com as palavras, este não é um feito maternal. É ele que é assim, felizmente. A semente saiu pura! E um homem de quinze anos bate, assim e aos pontos, muitos meninos de trinta.
You go Eduardo! Mummy loves you!
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
O poder das palavras escritas continua sempre a fascinar-me. Podem falar do poder do olhar, do sorriso, e por aí fora. Mas o que é certo é que toda essa linguagem é subjectiva e perde-se na tradução: cada um interpreta como quer ou lhe convém. Mas o preto no branco, o abecedário transformado em sílabas, em palavras, em frases, tem um poder irreversível. Através das palavras confessamo-nos, exorcizamo-nos, lavamos a alma e esvaziamos o coração do que está a mais. É como se se tratasse de um acordo escrito, entre nós e o que vai cá dentro. Mesmo que o destinatário não sejamos nós mesmos, mas sim o alvo do nosso amor, da nossa mágoa, da nossa amizade, da nossa culpa. É a nossa essência, boa ou má, despejada em forma de letras. E no A E I O U das emoções, o que está escrito, escrito está.
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