domingo, 31 de julho de 2011

Fado

Imagem in http://madeinportugal560.blogspot.com
Sou como o fado que 
paira nas esquinas em
noites de Bairro Alto.
Dedilham em mim notas tristes
alegres na sua emoção cantada,
viva, transpirada.
Vibram nas entranhas,
em lamentos de guitarra, os
tormentos já levados na
ansiedade de um cigarro
a arder à janela.
Sou curvas e cordas tensas
que levam gaivotas e 
uma cidade inteira 
na sua melodia.
Sou como o fado que chora,
que ri e cala,
bruscamente, num instante
de silêncio suspenso.
E, tantas vezes,
fecho os olhos e
deixo-me levar na
poesia da Vida.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Just Words


Até a alma mais feia 
pode escrever as palavras
mais belas.
Até uma mente azeda
consegue dar à luz o
momento mais doce.
Uma mão cheia de maus sentimentos
pode transparecer pureza
naquilo que escreve.
Mas aos olhos de quem lê
tudo se converte
no seu universo,
no seu momento
e sentimento.
As palavras reciclam-se e,
no fim, 
bastam-se a elas próprias.

Awakening


Surge um amanhecer dentro de mim.
Nasce um sol na penumbra da minha alma
e ganham forma os contornos e sombras
do eu
que eu tenho sido.
Morre finalmente um inverno 
para dar lugar a uma luz que
ainda dá os primeiros passos.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Florence + The Machine - Cosmic Love


O Amor pode ser encontrado na escuridão,
 num momento negro de estrelas que brilham uma para a outra...
E dessa escuridão pode fazer-se luz nos olhos de quem ama.

Reflexo

A Natureza humana é em si tão feia.
É a sua condição natural.
Esta coisa de evoluirmos no nosso espírito é ainda uma modernice,
porque a besta em nós é persistente, veio para ficar,
paga hospedagem e não tenciona partir tão cedo.
Senão vejamos:
o que é mais fácil? apontar o dedo ou ou virá-lo para nós?
Esta última opção exige mais ginástica. 
Dá mais trabalho.
E faz entortar os  olhos:
o que nos obriga a olhar para dentro....

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Adele - Set Fire to the Rain Lyrics



A força dos sentimentos consegue criar fogo a partir da água.
Porque um coração que se permite amar vai muito além do esperado, do possível, desafiando os elementos.

Anouk - Lost

A raça, o sexo, a religião e os costumes podem ser obstáculos para manter uma paixão. Mas para o Amor estes são limites que não nos limitam.

Faith

Desperta para o meu futuro
o vago sonho de um passado.
Chegou a hora de acordar.
O meu coração bate em oração.
E eu sou asas de fé
a rasgar os céus.

Devaneio Campestre


Levanta os olhos do
papel que sentes como sendo
a minha pele.
Sou mais que folhas onde
me escrevo para ti.
Cheira-me.
Sou como o laranjal em flor
que escreve um pomar de histórias
prontas a ser colhidas e relidas.
Folheia-me, mas sente-me!
Sou mais que as palavras que
me voam dos dedos...
Não me percas no labirinto de
letras
onde te invado e
procuro.
Voa antes comigo quando
eu sou águia a planar 
sobre os montes.
Toca-me e sente que sou feita de
carne e osso e
sangue manchado de tinta.
Abandona-te na rede que balouça 
na preguiça da minha mente
e perde-te comigo no momento
que ainda está por escrever.
Vem comigo ser vento que 
brinca nas folhas e
agita as águas do meu regaço.
Come morangos na minha boca e
sê peregrino no 
trilho do meu corpo.
Folheia-me. Lê-me.
Mas olha-me, cheira-me, toca-me.
E descobre que sou 
mais que apenas um
livro aberto na palma
da tua mão.

terça-feira, 19 de julho de 2011

The Tree

Fotografia de Miguel Costa
Os meus braços tornam-se ramos e
as pontas dos meus dedos
são folhas maduras e serenas.
Pássaros que devoram o céu vêm
fazer ninho no meu
aconchego de árvore.
Tenho cabelos inquietos
oscilando no vaivém de
um vento caprichoso,
fazendo uma canção no seu rumorejar
que fala de madrugadas vermelhas e
leitos feitos de relva,
terra suada e 
frutas tombadas.
O meu corpo é sólido,
tronco resinoso que pode ser
trepado mas não
vergado.
Finalmente ganhei raízes;
podem vir ventos de sabor amargo
que não me deitarão
ao chão.
O mau tempo é agora rega,
e o céu é o meu limite.

Para Ler (me)


A ti, que me espreitas
com a fé de
quem tenta encontrar
a resposta ás orações
nos joelhos de um altar privado.
Os teus olhos dão sentido às
palavras que ainda hei-de escrever e
despertam na minha mão
 uma convulsão de tinta
 que escorre,
e brinca,
e dança,
e morre
em cada ponto final.
Eu faço-me e desfaço-me
em frases,
poesia,
e letras cantadas
no ponto de encontro dos
nossos dias contados.
A ti, que me lês,
me descobres e assim
me vês...
como a folha de papel
que se deixa escrever, abandonada,
ao sabor do que não se fala,
virgem a cada nova viagem no
mundo dos sentidos lidos.
A ti, que me espreitas,
deixo uma confissão:
come e bebe das minhas palavras
faz um banquete!
Porque nelas eu sou tua
mas também de
toda a gente.


Imagem in http://fishphotoonline.com​/
"Old Mill"

Já fiz o caminho,
                                                        construí pontes
e arruinei possibilidades.
Moí o pão 
que não cheguei a comer.
Sou como o moinho
que disse "já chega"
entregando-se ao abandono
da imagem que foi.
Mas estão a soprar novos ventos...
e podes começar a sentir
o meu abraço a chegar.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Ser ou não Ser


Imagem in http://quatrodejulho.tumblr.com

Somos feitos de matéria
carne, sangue, ossos.
Somos também feitos da outra matéria,
a do sonho, da fé.
Somos fome e sede,
desejo e força,
amor e ódios,
paixões e raivas.
Somos tudo  aquilo que somos
e tudo aquilo que queríamos ser,
somos transparência de alma
e máscara colada no rosto,
nos gestos, na fala,
no corpo.
Somos o "eu" que se movimenta
e representa
nesta arte que imita a vida.
Mas não nos reconhecemos,
a cada vez que paramos,
e olhamos nos olhos do
reflexo de nós próprios.




Há uma noite anunciada
                                              do lado de dentro da janela.
Traz com ela a promessa 
de um tempo
feito de calor e tempestade.

Metade do peso que trago é
                                             o do amor que já veio comigo.
A outra metade,anunciada pelo vento,é tudo aquilo que 
ainda vou viver contigo.

Naufrágio

Imagem in  http://www.slowdown.com.br

São agora grãos de areia
os teus dedos
misturando-se
no sal do meu corpo.
Já não cheiras a mar e 
as vagas da tua maré
já não desaguam em mim.
Sou agora praia sem sol poente.
Trago na boca os beijos 
com que já não nos invadimos
e onde já não
nos conhecemos.
Deixaste de ser um navegador;
agora sou praia deserta e
tu és apenas um náufrago
na nossa solidão a dois.

A Ironia do Amor

Imagem in http://portugalporreiro.blogspot.com

Tens uma cara de menino
e estilo no andar
elegância inesperada
que enfeitiça o meu olhar.

Passas devagar
com ar meio pedante
de quem tem um chicote na mão?
Tens um desprezo interessante!

Cheiras bem aos meus sentidos
quando te dás a cheirar
naqueles segundos perdidos
em que páro para te olhar.

Homem mistério
de sorriso menos fácil
sabes que não te quero?
gosto da minha delícia solitária
em que apenas
te observo.

Porque estou
tão apaixonada
pelo teu cérebro
sem precisar da tua beleza para nada...
Que o que em ti gosto
 não se vê
pois o teu corpo estiloso
não passa de mera fachada.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O tempo dentro do Tempo


Sinto-me prisioneira da minha pele
como se a ânsia deste cativeiro não 
tivesse fim.
Existem dias em que não importa
que o sol brilhe e
que a vida seja perfeita.
Sinto na mesma uma inquietação
como se a minha alma
já soubesse que
existe um sítio
onde as cores são 
mais brilhantes,
a água  mais límpida,
os campos mais verdes
e o mar é tão mais vasto
quanto a alegria que
habita em mim.
Este é um sonho que tenho
tantas vezes como as vezes
que respiro.
Mas também sei que tudo tem
o seu tempo dentro do Plano
e eu ainda estou a aprender  a
ser feliz
na terra de 
todas as limitações.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Verdade ou ilusão



Os dias são vagos,
                                         horas, minutos e segundos
de emoção cinzenta
onde cada passo
palavra ou gesto
são ilusão,
sonho,
projecção daquilo que pensamos ser
a Vida.
Soa um tic-tac.
Está perto
 a hora 
de nascermos
 para 
a verdade.

Imagem in http://paulamlima.blogspot.com​/

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O Caminho Para Lado Nenhum

Ouvi dizer que
se invocarmos um demónio
ele acaba por vir
porque vive dentro de nós.
Naquele recanto escuro e esquecido
que nem ao diabo lembra.
E se invocarmos Deus,
Ele também vem?
Certamente que sim.
Mas é-nos mais fácil acreditar
na face feia de tudo
que acreditar que a luz do divino
também habita em nós.
Talvez por ser mais difícil
seguir um trilho
que exige um equilíbrio constante
e largas doses de perseverança.
Num caminho obscuro, pelo menos,
temos sempre a desculpa
da falta de luz para
cada passo mal conseguido.
Esta é a filosofia de quem se resigna dizendo
"eu sou assim".
 Simplesmente.
Cruzando os braços.
Como se andássemos por cá
 não para nos desafiarmos a nós mesmos,
não para termos a coragem e a ousadia 
de melhorar a cada dia.

Fotografia de Miguel Costa

Feliz, mas pouco


Ela passa pelo outro lado da rua.
Vai altiva e segura das
suas pernas elegantes.
Viram-se cabeças 
e os olhos fazem um
banquete inesperado.
Ela tem um cabelo feito de seda
que dança na brisa como
serpentes ondulantes,
hipnotizantes,
e um perfil desenhado
no atelier de Olympus.
Leva a delicadeza da asa
de um pássaro
nos saltos dos sapatos.
O seu corpo é curvas
e dá vida e graça
a um vestido que,
sem ele, não tem cor.
Tem lábios que não sorriem
mas prometem um néctar
digno de uma garrafa empoeirada
numa adega de luxo. 
E as exclamações deliciadas
saltitam atrás dos seus passos de
sereia em terra.
Que maravilhosa a textura
de manteiga que se
adivinha na sua pele!
Toda ela é o som de um violino
que toca pela rua fora
inspirando os espectadores surdos.
Eles deslumbram-se com a perfeição, 
eles querem ser assim...
uma imagem sem defeitos,
deusa de visita aos mortais
e sem problemas existenciais,
mulher sem identidade com
maquilhagem perfeita.
Mas uma deusa também dorme...
sózinha, num pijama de griffe 
e chora de forma perfeita,
escondida atrás de um rímel
à prova de lágrimas.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Playground


Esta noite sonhei-te.
As emoções saíram para
brincar lá fora
nos meandros da minha mente.
Sonhei-te quando
pensava que já te esquecia.
Mesmo passados tantos Verões na
eternidade dos nossos dias.
Ganhou vida um momento
de pés descalços no embalo
de uma canção.
E lembrei as silhuetas 
feitas de penumbra ,
oscilando na troca de um olhar
que ainda respira
na minha saudade.

Imagem in ardemim.blogspot.com

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A Hora


Shiu...
Esta não é a hora das falas
nem dos papéis espalhados.
Esquece o desespero
que habita por vezes em ti.
Esta é a hora em que Deus
te vem falar ao ouvido
como uma brisa de fim de tarde.
Sossega e olha para dentro de ti
porque a magia de apenas um instante
tem que ser agarrada com a alma toda
e a fome da vida inteira.
Para. Escuta. Olha.
Então verás que cada
palmo de pele
que respira em ti
tem o toque do divino
e os teus olhos
conseguem ver para lá
do universo da tua pequenez.
Sentirás que a voz que te guia
é a da sabedoria que
te foi oferecida
no dia em que observaste
um novo mundo.
Já te ensinaram 
a abrir as tuas asas.
Leva com elas o medo.
E voa.