Na minha infância tive vários tipos de vizinhos: os prestáveis, os coscuvilheiros, os simpáticos e os nem tanto, e aqueles que a gente (eu e os outros miúdos) chamavam de "os malucos". Era um casal estranho, ele profundamente calado e sisudo, ela completamente alienada, sempre a falar sózinha, num discurso incoerente mas recheado de palavras ricas, que revelavam uma instrução acima da média. Dizia-se que tinham um filho, mas que fôra levado devido ao "parto lhe ter subido à cabeça", embora também se falasse de um esgotamento que ela tivera enquanto estudava na universidade. Na verdade, e ao certo, nunca nada se soube sobre aquele casal...eram os malucos, e pronto! Tinhamos medo dela, íamos escutar à porta de casa e fugiamos escada abaixo quando ela nos espreitava, e eu tinha um verdadeiro terror do olhar fixo que tinha de suportar na longa viagem de elevador com ela até ao terceiro andar. A certa altura, ela convenceu-se que eu era filha dela, tendo sido raptada e feita prisioneira três andares acima. Claro que a minha mãe sacudiu-lhe as dúvidas com uma vassoura, enquanto lavava a entrada do prédio!
Entretanto cresci, saí da casa materna, a vida seguiu o seu curso até que, por ironia do destino, vim trabalhar para uma instituição onde os meus ex-vizinhos são utentes. Claro que agora os encaro com olhos de adulta, a pobre senhora não me mete medo embora continue a mesma, a falar e a falar, no mundo dela...respondendo, quando calha, a um "bom dia" que insistimos em lhe dirigir. Ele, calado e cisudo, igualmente. Sobre o passado de ambos mantém-se as mesmas hipóteses. Fiquei apenas a saber que ele foi escriturário, depois de vir da guerra do ultramar. Desconhecia este último facto, mas fez-se alguma luz sobre o semblante que ele carrega. Mais ainda quando me foi dado a ler um poema escrito por ele. Imaginei-o em casa, na sua solidão acompanhada por uma mulher que falava e nada dizia, de cigarro aceso em frente a uma máquina de escrever. Passou uma guerra e vivia outra, diferente, todos os dias. Para os vizinhos eles são aqueles com quem não se quer entrar no elevador. Mas são seres humanos, com a sua história, com as suas dores e raivas, e um passado como qualquer outra pessoa que se cruza connosco. Transcrevi aqui as suas palavras batidas à máquina, porque me tocaram, e fizeram com que eu o olhasse de uma forma diferente.
As pessoas não são, mesmo, todas iguais:
A RONDA DOS MORTOS
Escuta-se no silêncio
o rumor de umas botas cardadas
- são os meus passos
a caminho do cemitério
a fazer a minha ronda:
a quebrar o silêncio peculiar
de três mortos
que aí foram enterrar.
Mas escuto sua voz
a pedirem um ramo de flores que cheire
a flores verdadeiras,
crocodilos sevos à sua altura
e uma fogueira astral que os aqueça
no seu frio polar
- uma reza em latim
que os recomende a Deus.
Também ouço o troar
d’um clarim
nos céus
e uma salva de tiros para o ar
a recordar
que alguém morreu
antes de chegar o seu outono,
na mais profunda solidão
no maior ostracismo e abandono.
E ninguém tuge
nem muge
ninguém tem a coragem de arrebitar o
nariz
e diz
um redondo “NÃO”!!!
E assim seguimos todos engalanados
na nossa procissão
de braços cruzados
de ouvidos tapados
de lábios lacrados
de olhos vendados
cegos surdos e mudos
julgando caminhar direito por
caminhos tortos
mas todos, todos
imbecilmente mortos!...
Ah! Mas não julguem que fico calado
que sou pau mandado
ou que acaba aqui a minha luta!?
Posso ser cabrão
filho da puta
charlatão
aldrabão
jogador
fumador
drogado
alcoolizado
inveterado
de vinhos, whisky e cerveja.
Serei tudo isto e muito mais
só não sou um morto que calais
porque sou tudo menos o que querem
que eu seja!...
José L.