sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A Day at the Office

Chove e chove lá fora.
No local de trabalho há uma monotonia latente combatida pelo som da rádio. Tema "Happy". Um som contrastante, a lembrar o sol e os pés livres! A conversa flui em temas variados, mais non-sense consoante o aborrecimento.
Fala-se das crónicas radiofónicas, do Ronaldo que levou com um isqueiro na cabeça mais invejada do mundo futebolístico, das intrigas de bastidores e autênticas novelas mexicanas que assistimos ao vivo no ambiente que nos rodeia, e tal como um bocejo, a boa disposição que uma de nós traz contagia a outra, num ciclo deliciosamente vicioso, que faz suportar as horas que passam devagar entre o som das teclas, das folhas que deslizam pelas mãos, o toque ocasional do telefone, e o som ritmado da fotocopiadora, que trabalha quase mais que nós, com poucas pausas e sem cafeína, numa exemplar falta de necessidade de estímulos.
A monotonia acaba por se tornar reconfortante, como um abraço que já se conhece de cor mas que se torna necessário. E eu, que vivo esta monotonia, que depende apenas e só da disposição que trazemos connosco, dou por mim a pensar que tenho tanta sorte por me poder aborrecer de morte de quando em vez. Vi uma reportagem na TV, em que faziam o retrato atual das mulheres desempregadas entre os 35 e o s 40 anos: são velhas e imprestáveis, vivem numa adrenalina constante, a de não saber como sobreviver. Por isso, a minha obrigação é sorrir todos os dias, mesmo nos chuvosos, naqueles em que a vida corre mais devagar, em gestos sem urgência...nos tempos que atravessamos, esta tranquilidade assemelha-se ao sonho americano em terras lusas!

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Pontos de Vista


 
 
Pontos de vista.
Ouvi falar de um ponto de vista muito interessante, em que a pessoa, traumatizada por factos do passado em que sente que se anulou como pessoa por uma outra, prometeu a si mesma nunca mais o voltar a fazer, não agradar a mais ninguém, por não ter nada que provar, e quem assim gostasse muito bem, quem não gostasse paciência.
De certa forma acho isto engraçado. Porque eu penso, do meu ponto de vista, que uma pessoa que se anula por outra, é porque tem pouco amor próprio, e toma essa decisão porque assim o entende. Quando bate bem com  a cabeça, começa a gostar mais de si mesma. Só que de uma forma narcisista, achando que não tem que devolver nada do que recebe. Ou seja, uma pessoa que se dava demasiado torna-se egoísta, até muitas vezes rude. Quer agradar, sem ter que ser merecedor disso. Do oito ao oitenta, os extremos da incompetência emocional.
Em suma, a única pessoa capaz de, eventualmente, estabelecer uma ligação emocional com alguém assim tão danificado, será uma outra com pouca auto-estima, que se anule facilmente por quem gosta.
Chego à conclusão, que as pessoas sem personalidade vincada, frágeis, fazem falta para fazerem esses outros, os incompetentes emocionais, um pouco mais felizes no seu mundo de solidão contribuindo, assim, para o frágil equilibrio no universo das emoções...

D-A-D - Sleeping My Day Away


 
 
After dark is a game i play...
 
Criar de noite,
produzir de dia,
dormir pouco,
viver muito.
 
D-A-D
Memories of a time
we didn´t need to sleep at all

Empty Game



Esta é a geração da malta traumatizada.
Antigamente cada um tinha o seu papel bem definido na sociedade e nas relações amorosas.
Felizmente muitas coisas mudaram e eu bato palmas efusivamente à igualdade de oportunidades entre géneros. Mas não vamos fazer confusão: nós, homens e mulheres não somos (felizmente) iguais. O problema é quando esta confusão, de facto, se instala. E aí é que nasce a semente do futuro trauma: pensa-se e repensa-se em vez de se sentir e se deixar ir. O que leva a relações mal resolvidas, diálogos inexistentes que levam à conclusão que a cada um faz jeito. Corações fechados, partilha deficiente de sentimentos, pessoas frustradas, e uma eterna busca não se sabe bem do quê. Homens eram de Marte, as mulheres de Vénus, mas o universo tornou-se mais vasto e confuso, descobrem-se novos planetas, e ninguém sabe o rumo que deve tomar, as coordenadas estão descordenadas; por vezes é o vale tudo, por outras não vales nada. E andam todos aos encontrões, à procura do mesmo, mas a maioria das vezes não querendo nada...
Os deuses lançam as mãos à cabeça, e já não têm mais trunfos na manga para continuar a jogar.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A Ronda dos Mortos

Na minha infância tive vários tipos de vizinhos: os prestáveis, os coscuvilheiros, os simpáticos e os nem tanto, e aqueles que a gente (eu e os outros miúdos) chamavam de "os malucos". Era um casal estranho, ele profundamente calado e sisudo, ela completamente alienada, sempre a falar sózinha, num discurso incoerente mas recheado de palavras ricas, que revelavam uma instrução acima da média. Dizia-se que tinham um filho, mas que fôra levado devido ao "parto lhe ter subido à cabeça", embora também se falasse de um esgotamento que ela tivera enquanto estudava na universidade. Na verdade, e ao certo, nunca nada se soube sobre aquele casal...eram os malucos, e pronto! Tinhamos medo dela, íamos escutar à porta de casa e fugiamos escada abaixo quando ela nos espreitava, e eu tinha um verdadeiro terror do olhar fixo que tinha de suportar na longa viagem de elevador com ela até ao terceiro andar. A certa altura, ela convenceu-se que eu era filha dela, tendo sido raptada e feita prisioneira três andares acima. Claro que a minha mãe sacudiu-lhe as dúvidas com uma vassoura, enquanto lavava a entrada do prédio!
Entretanto cresci, saí da casa materna, a vida seguiu o seu curso até que, por ironia do destino, vim trabalhar para uma instituição onde os meus ex-vizinhos são utentes. Claro que agora os encaro com olhos de adulta, a pobre senhora não me mete medo embora continue a mesma, a falar e a falar, no mundo dela...respondendo, quando calha, a um "bom dia" que insistimos em lhe dirigir. Ele, calado e cisudo, igualmente. Sobre o passado de ambos mantém-se as mesmas hipóteses. Fiquei apenas a saber que ele foi escriturário, depois de vir da guerra do ultramar. Desconhecia este último facto, mas fez-se alguma luz sobre o semblante que ele carrega. Mais ainda quando me foi dado a ler um poema escrito por ele. Imaginei-o em casa, na sua solidão acompanhada por uma mulher que falava e nada dizia, de cigarro aceso em frente a uma máquina de escrever. Passou uma guerra e vivia outra, diferente, todos os dias. Para os vizinhos eles são aqueles com quem não se quer entrar no elevador. Mas são seres humanos, com a sua história, com as suas dores e raivas, e um passado como qualquer outra pessoa que se cruza connosco. Transcrevi aqui as suas palavras batidas à máquina, porque me tocaram, e fizeram com que eu o olhasse de uma forma diferente.
As pessoas não são, mesmo, todas iguais:
 
 
 
A RONDA DOS MORTOS
 

Escuta-se no silêncio

o rumor de umas botas cardadas

- são os meus passos

a caminho do cemitério

a fazer a minha ronda:

a quebrar o silêncio peculiar

de três mortos

que aí foram enterrar.

Mas escuto sua voz

a pedirem um ramo de flores que cheire

a flores verdadeiras,

crocodilos sevos à sua altura

e uma fogueira astral que os aqueça

no seu frio polar

- uma reza em latim

que os recomende a Deus.

Também ouço o troar

d’um clarim

nos céus

e uma salva de tiros para o ar

a recordar

que alguém morreu

antes de chegar o seu outono,

na mais profunda solidão

no maior ostracismo e abandono.

E ninguém tuge

nem muge

ninguém tem a coragem de arrebitar o nariz

e diz

um redondo “NÃO”!!!

E assim seguimos todos engalanados

na nossa procissão

de braços cruzados

de ouvidos tapados

de lábios lacrados

de olhos vendados

cegos surdos e mudos

julgando caminhar direito por caminhos tortos

mas todos, todos

imbecilmente mortos!...

Ah! Mas não julguem que fico calado

que sou pau mandado

ou que acaba aqui a minha luta!?

Posso ser cabrão

filho da puta

charlatão

aldrabão

jogador

fumador

drogado

alcoolizado

inveterado

de vinhos, whisky e cerveja.

Serei tudo isto e muito mais

só não sou um morto que calais

porque sou tudo menos o que querem que eu seja!...

José L.