segunda-feira, 4 de junho de 2012

Sermão aos Filhos da Sorte

Reverencia o prato em que comes.
Existe um mundo faminto
nos olhos de alguém,
em que a luz do dia não é
senão trevas entornadas numa mesa vazia.
Ama o teu lar.
Existem tectos feitos de estrelas
e noites de chuva,
e paredes sem historias quentes
ou risos à solta.
Rejubila com a paz.
Existem infernos na terra
onde o demónio corre à solta
atrás de pés pequenos e descalços,
roubando o colo de um filho
que não o chegou a ser.
Ama os teus.
Ama toda a gente.
Festeja a Vida.
Partilha.
Oferece a mão com os dedos todos.
E não chores a tua Sorte.
Pode o Universo revoltar-se e
voltares de novo a nascer,

no lado zangado do Mundo.
Não existem finais perfeitos de histórias de amor, ou princípes e princesas encantados:

existem pessoas compatíveis no tempo, no espaço, nos gostos, nos risos, na pele, nos objectivos comuns e na vontade igual de remarem juntos no mesmo sentido, para o mesmo lugar, com a determinação férrea de atravessar o mau tempo até chegar a bom porto. Esta compatibilidade pode ser temporária, satisfazendo apenas as necessidades do momento, criando momentos de perfeição mas com tempo limitado, tal como um arco-íris que nos deslumbra no pouco tempo que vive...

mas pode ser duradouro, crescer como uma semente persistente que desafia os obstáculos de uma terra escura até chegar à luz.. e também até que a morte os separe, seja ela a morte física ou simplesmente a do amor que é partilhado.

Porque o amor é eterno enquanto ele existe, nem que seja apenas nas asas inquietas da nossa memória.



Fotografia de Miguel Costa

A Janela dos Sentidos

Existia uma janela.
A janela tinha um parapeito com cheiro a flores e água fresca.
E, à janela, vivia um homem todos os minutos dos seus dias inteiros.
Nela ouvia o sol a nascer, sempre à hora em que os pássaros cantavam um novo dia e pés pequenos atravessavam a rua, no ritmo preguiçoso de quem vai para a escola: já soava agora o toque familiar da hora do abecedário. Depois, chorava uma criança, e lá ia a mãe empurrando o carrinho de bebé equilibrada no alto dos sapatos vaidosos, orgulhosa de sua cria, até chegar ao outro lado do passeio. Pouco depois, o som de um autocarro ao longe. Sabia que estava cheio de pessoas já cansadas ainda rumo ao trabalho, pois assim lho diziam os minutos que ele ficava, paciente, à espera na paragem.

O almoço também não variava na hora, mas sim nos aromas que lhe apresentavam sabores diferentes a cada dia da semana: o mundo podia ser doce, salgado, vagamente aromatizado...e a tarde cheirava a lençois lavados e cantava as molas que caíam pelo chão.
Na janela ele sentia o vento que lhe falava no rumorejar das árvores em fins de tarde, quando o sol se punha e o céu era cor das rosas a desabrochar ouvia ele dizer, quando as vizinhas falavam em conversa de rotina na berma da rua.
Nela também contava as gargalhadas de crianças soltas e já sem horas, e as vezes que a bola batia no muro à sombra, do lado em que o dia morria.

Chegava então a aragem fria do recolher, enquanto cheirava a sopa e pão quente do lado de dentro do seu mundo. Era a hora de fechar as portadas e deixar-se guiar pelas mãos até à mesa de cozinha, onde outras já haviam posto os pratos e talheres. Sorria. E, tal como ao mundo lá fora, olhava para a sua amada de sempre com os olhos da alma, saboreando com todos os sentidos que tinha aquilo que não conseguia ver com os seus olhos cegos.

O Pó Gasto de Uma Vida Caminhada

Ela deita-se e o colchão cede debaixo do seu peso cansado. Enrosca-se um cão num tapete, deitado algures no escuro. Há um silêncio gritante na casa. O silêncio de quem dorme e divaga sozinho.
"Quando é que eu fiquei tão velha?" pergunta-se ela, assustada perante o eco da sua cabeça.
Seria possível a vida ter tido pressa e ter desistido antes que a pudesse viver?
Levanta-se e olha-se no espelho. Não se reconhece naquela pele e naquele corpo de formas que não gosta, que não aceita!
Algures pelo caminho terá caído, da sua bagagem emocional, a auto-estima, tombando numa estrada de pó cansado e repisado.
E hoje apenas vê o reflexo da rejeição de si própria. As mãos agora manchadas pela idade estão também manchadas pela vergonha de não terem sabido lutar e esgravatar pelos seus sonhos. Os cabelos têm fios brancos, brancos de se preocuparem com as dores alheias; perderam a cor de tanto esperar a chegada do dia em que semearia a sua própria terra.
Olha-se nos olhos cansados, sem risos, baços. Vê passar por eles noites sem sono e dias sem vida, animados apenas por gestos programados, onde faltou a doçura que faz a vida ter, por vezes, momentos de algodão doce. Onde faltou o passo em frente.
E para quê? Para quê tantos pequenos passos que levaram a caminho nenhum, que lhe invadiram e mutilaram a pele?
Agora estava sozinha com o seu passado e sem forças para correr atrás do futuro.
Volta para a cama, consciente de que, nesta vida, aprendera a sobreviver mas não soubera viver.
Promete então a si própria que, amanhã quando acordar, terá a sede de quem se quer abandonar sem rede nos braços do seu destino mas, ao mesmo tempo, terá a fome de quem o quer conquistar.

Conversas com Deus

Era apenas uma criança que gostava de pensar nas coisas que a rodeavam, que eram vividas e debatidas no, ainda pequeno, círculo da sua vida. Então um dia teve uma ideia, e nela pensou com a sabedoria dos seus nove anos. E foi ter com a sua mãe, que também ela divagava sobre os assuntos do seu mundo.
“Mãe” começou por dizer o pequeno pensador “O que achas de eu escrever uma carta a Deus?”.
“A Deus?” a mãe admirou-se, fazendo uma pausa nas suas lides domésticas feitas de gestos automáticos, “Porquê a Deus e não ao pai natal?” - um leve sorriso fez-se ver, discreto.
“Porque Deus ninguém tem a certeza que existe, mas o pai natal toda a gente sabe que não existe mesmo! E, se ele existisse, acho que não me podia ajudar.”
“Então porquê?” - o sorriso já não se conseguiu manter na discrição.
“Porque eu não quero falar de prendas nem das coisas que se podem ter com dinheiro. E o pai natal só percebe de brinquedos.”
Um silêncio admirado. Então a mãe inclinou-se e perguntou serenamente: “Queres uma folha e uma caneta?”. E assim começou a carta a Deus, com a criança sentada na mesa da cozinha enquanto a mãe começava o doce ritual da sobremesa para o jantar...
“Deus: ninguém sabe se existes, porque as pessoas só acreditam nas coisas que vêem. Eu também não sei mas, para o caso de existires mesmo, queria falar-te de umas coisas!
Deves saber que eu gosto muito de animais, por isso queria pedir-te para que todas as pessoas os vissem como eu. Eles choram e riem, gostam como nós gostamos, têm saudades, têm medo e também se sentem contentes! Muita gente não acredita nisto, mas basta olhar para os olhos deles, porque são como os nossos. Os grandes dizem que os olhos são o espelho da alma...mas não são só os olhos dos humanos pois não? Então, se as pessoas os virem como eu, já não vão ter coragem de os abandonar, ou de os maltratar...A mãe diz que eu ainda vou ser veterinário, e acho que fica muito contente com a ideia. Embora ela ultimamente ande muito triste, porque tem uma amiga com uma doença chamada cancro. Costuma ir visitá-la ao hospital e quando vem para casa até vomita, ela diz que é da tristeza. E eu às vezes penso, será que os homens que inventam coisas como as armas não podiam antes tirar um curso para tentar curar doenças como esta tal de cancro? Eu gostava, porque as pessoas ficariam muito mais felizes!
E pronto, o meu pai já chegou a casa...Noutro dia escrevo mais um bocadinho. Assinado: Jorge.”

Anos mais tarde o pequeno, e agora adulto Jorge, veterinário de profissão, volta a ter esta carta nas mãos. Sorri e relembra aquele momento de inspiração. E quase consegue voltar a sentir o cheiro do bolo a cozer no forno. A mãe sobrevivera ao cancro que dizia ser da amiga, e confessara mais tarde que a fé infantil que vira numa folha de papel a inspirara e lhe dera mais força de viver...Não escrevera mais carta nenhuma, mas nunca deixara de pensar no que o rodeava, e sempre procurara as soluções possíveis para os problemas com que se deparava, e no que fazer para melhorar o que estava mal na sua vida e na dos outros. E percebia agora, ao ler aquela letra infantil, que aquela criança nunca morrera dentro de si, e os seus olhos mantinham a mesma fé e alegria de viver com que encarava o mundo.

Viagem no Tempo

Amélia caminha devagar entre os corredores de roupas penduradas em cabides, mudos e coloridos. Falam de sol, esplanadas, e caminhadas lentas, embaladas por um vento morno. Pára em frente a uma prateleira sozinha e contempla um chapéu de palha, tão simples, tão bonito, com uma fita fucsia enrolada à volta da cor pálida e ensolarada. Olha em volta e pega nele devagar, quase respeitosamente...deixa-o pendurado na mão, quieto, a respirar em silêncio nas memórias de um verão distante, cor de sépia e cheiro a sal; corria descalça pela areia molhada, o vestido rosa a rodopiar em volta das suas pernas ansiosas, e a espuma que se desmanchava a seus pés descalços, enquanto corria atrás de um chapéu livre...

Num ímpeto de saudade Amélia põe o chapéu na cabeça e olha-se ao espelho, encantada: emoldura-lhe o rosto suave e o cabelo, agora mais curto que nas suas lembranças. Olhando novamente em volta arruma-o delicadamente na prateleira.
 
Caminha de novo, vagarosamente, abstraída do som de fundo de uma música impessoal que se faz ouvir na loja quase vazia de gente. Pára. Foi atraída por um tecido azul-turquesa. E o seu coração palpita como o de um passarinho perante uma gaiola aberta e a liberdade no horizonte. Imediatamente volta a ver um vestido longo, escorregando pelo seu corpo jovem e curvilíneo como uma carícia indecente no despertar da noite; de longe mais bonito que aquela saia ridículamente curta que segura em frente a si. Mas a cor...a COR! Fá-la viajar até uma noite de Verão em que toda ela era vaidade azul-turquesa, exibindo braços brancos e uma cintura estreita que convidava ao abraço. A música torna-se pessoal nas suas lembranças e sente-se novamente a dançar, amparada por um corpo quente, latente. Não consegue parar de sorrir...e assim se depara consigo própria no espelho que lhe devolve uma imagem sonhadora e apaixonada. Vè um outro olhar, que não o seu, entre o espantado e o irónico. Atrapalhada, arruma a saia no seu lugar e escapa-se para a secção de calçado. Sente que olhos críticos a seguem. Inquieta, pensa que talvez seja melhor sair, para quê andar ali às voltas? A vida não sai do mesmo sítio...

E é então que os vê! Uns sapatos brancos, delicados, de salto alto, exibicionistas no altar da sua prateleira. Não lhes toca. Fica parada, deliciada...vê os seus pés calçados com uns outros semelhantes...durante um dia inteiro, em que tudo era branco: o seu sorriso, o seu vestido, o seu coração...sapatos brancos que guiaram os seus passos desde um altar até uma cama feita de lençóis virgens. Nela foi deitada pelo homem que a roubara de si mesma para lhe dar muito mais em troca, numa vida inteira. Naquela noite, na sua noite, lembraram o primeiro passeio na praia, onde lhe voara um chapéu dos cabelos compridos, fugindo ao sabor de um vento que sabia a promessas...lembraram a dança cor azul-turquesa, ao som de uma declaração de amor...e, após as lembranças, Álvaro ajoelhou-se uma vez mais, mas para lhe tirar os sapatos brancos, devagar, como uma criança que desembrulha uma prenda tão desejada, sustendo a respiração em expectativa, desfolhando-a depois como um livro raro que contém um segredo...segurando a sua dor, e o seu prazer, entre as mãos protectoras, embalando-a noite dentro em conversas de estrelas e momentos por vir...

“A velha não está boa” - Amélia desperta. para a realidade com a voz em surdina que se faz ouvir. E os risinhos mal disfarçados. Leva a mão magra á cara: está molhada de saudades. Mas sente-se feliz. Dirige sem vergonha um sorriso de desculpas á empregada da loja e, enquanto sai, vagarosamente, apoiada na sua bengala de madeira feita por Álvaro numa tarde de domingo (“Não te prometi que ia sempre cuidar de ti?”), Amélia sabe que a vêem como uma demente, que cobiça chapéus ridiculamente vistosos, saias ridiculamente curtas, sapatos ridiculamente altos. Mas agora, após as lembranças tão vivas de um tempo ridiculamente jovem, sente-se com força, rejuvenescida! A empregada segue-a com os olhos, e Amélia consegue sentir a sua pena, quase consegue ouvi-la pensar “Não quero ser velha”...mas ela ainda não sabe que existem coisas sem tempo, sem idade, resistentes à erosão do tempo na pele e na alma. Amélia tem agora vinte anos na vida das suas memórias, feitas de cores, cheiros, e momentos de eternidade.

O Dia do Fim

É fim do dia, e o sol escorrega para o horizonte, enquanto um vento quente repousa na areia. Sentam-se no chão, num movimento indolente.
ELE: Não te podes fechar no teu mundo. Dá-te aos outros.
ELA: Porquê? e para quê?
ELE: Para todos nós sermos melhores com a partilha de ti.
ELA: Mas o meu mundo é a minha casa, o meu refúgio, o meu segredo. O meu mundo não me magoa.
ELE: Mas não te espanta, não agita as tuas aguas.
ELA: As minhas aguas são tempestade. Mas é a minha tempestade, e ninguém tem o dever de a enfrentar: essa é a minha tarefa.
ELE: Não tens fé nos marinheiros corajosos. Não podes ser feliz a navegar sozinha.
ELA: Ninguém é feliz. Apenas usam a máscara da felicidade.
ELE: Afogaste a tua esperança a meio do percurso? Ainda estás a milhas do teu destino...
ELA: E o que é o destino? Será uma meta real ou imaginária? O meu destino hoje é ver o dia morrer, sentada ao teu lado...amanhã...não sei!
ELE: Mas sabes uma coisa: o dia morre e nasce no teu mundo da mesma forma que no mundo cá fora. Porquê não partilhar?! O sol nasce para todos, assim como também morre.
ELA: E porquê falar em partilha? Não se pode apenas vivê-la? Dá-me a tua mão e em silêncio dividiremos o momento...? - sorri. Ele retribui, segurando-lhe a mão. E diz:
- Se pensas que evitas uma dor ao não te dares a quem te rodeia...iludes-te. Nasce um vazio que será erva daninha a comer-te a alma. Sonha, e não tenhas medo...Eu carrego-te no colo até aprenderes a andar sozinha num caminho desconhecido...
Ela sente, então, transbordar o mar do seu mundo através dos olhos admirados... Ele queria que ela saísse cá fora. Mas, sem darem por isso, era ele quem tinha acabado de entrar no seu refúgio, no seu segredo, no princípio do fim da sua solidão.

E o Burro Sou Eu

Hoje em dia erguem-se muitas vozes em protesto quando certo tipo de pessoa é marginalizada na sociedade: a pessoa gorda, a pessoa feia, a pessoa pobre, ou a pessoa deficiente. Esta última porque não tem apoios suficientes, porque não tem acesso ao mercado de trabalho, até mesmo naquelas funções que podia desempenhar como qualquer outra, não tem acesso fisíco a muitos locais ou meios de transporte. Têm vindo a desenvolver-se (poucos) progressos, mas a mentalidade ainda está atrasada, tanto a do governo que não considera estes apoios uma das prioridades, como a das próprias pessoas quando são confrontadas com a realidade: vozes de protesto, mas não tantas.
Isto leva-me a falar de um assunto que normalmente não é sequer equacionado: vou falar dos “burros”. Não os de quatro patas que, ao que sei, até são animais muito inteligentes, mas sim as pessoas com baixo QI e dificuldades de aprendizagem. São muitas estas pessoas, seres invisíveis perdidos no sistema de ensino, rotulados das mais diversas formas: inicialmente são “burros”, e o seu percurso escolar leva-los depois a serem “inadaptados”, “sem empenho”, “distraídos”, e com “problemas de comportamento”. No sistema básico de ensino são crianças que até podem ir altamente motivadas, mas as dificuldades que apresentam vão, aos poucos, distingui-las de forma negativa relativamente aos colegas. Entram então em contacto com a palavra “burro” no sentido depreciativo da palavra, e começa o caminho doloroso da destruição da auto-estima. E da aversão à escola. Os pais tentam ajudar, mas o desinteresse instalado vai dificultar a tarefa, e aumentando a frustração de ambas as partes. Vem depois o rótulo da falta de empenho e da conhecida “preguiça mental”. O grau de exigência aumenta e, sem se dar conta, esta exigência é muito maior do que aquilo que a pessoa pode dar, o que leva a uma revolta ou, em contrapartida, a um isolamento depressivo. E assim se desenvolve um ser humano, que se sente à margem, muitas vezes ridicularizado, até porque a sua insegurança não lhe permitirá relacionar-se com o próximo talvez de uma forma adequada aos padrões da sociedade em que está inserido. Felizmente existem professores e pais empenhados e com uma visão mais ampla e que, em conjunto com ajuda médica, trabalham o potencial existente, estimulando e criando um quotidiano adaptado às necessidades específicas do aluno/filho: este tem, efectivamente, uma condição especial mas que não é reconhecida como as outras, não é visivel como a falta de um membro ou a presença de uma cadeira de rodas: um problema neurológico, silencioso, escondido num corpo perfeito em tudo semelhante aos outros. É, simplesmente, “burro”, aquele que é gozado e tolerado, o “cromo” que cresce com feridas emocionais, vítima invisivel da crueldade alheia, muitas vezes inconsciente. Mas que marca e define a criança que é e o adulto que vai ser. E limita ainda mais os horizontes de quem acaba por não conseguir dar o seu melhor, dentro do melhor que pode dar. Como diz o outro “Vale a pena pensar nisto”.

Crise de Identidade

Crise! Falemos da crise então. Essa palavra curta mas de poder devastador no nosso vocabulário diário. A crise faz-nos companhia no café da manhã, na pastelaria do costume com as pessoas do costume; ao almoço, enquanto se vêem as noticías na televisão...e assim a crise nos acompanha, a par e passo no caminho do nosso dia. Sem dúvida ela existe. Está presente no aumento do custo de vida, e a maioria das carteiras andam mais leves, proporcionalmente às facturas mais pesadas...
Desta crise já se fala muito. Mas não se fala da outra crise que nasceu com esta: a crise existencial, a crise de quem vê o seu mundo com limitações desconhecidas até à chegada da troika ao nosso país. A crise de quem estava habituado a um certo nível de conforto, mesmo que tivesse que estabelecer prioridades. Mas agora existem prioridades entre as prioridades. E esta ginástica mental traz um cansaço que pode trazer uma tristeza. E esta contamina os dias, as horas, até que vida não é vivida, é tolerada com má cara e grandes lamentações pelas mais pequenas coisas, não se vendo um esforço para retirar o que há de positivo naquilo que se tem.
Passemos a exemplos práticos: o cinema! Muitas pessoas estavam habituadas a esse programa todos os fins-de-semana: um filme em boa companhia, pipocas, antecedidos de um cafézinho...feitas as contas, 15€ por cabeça, mais coisa menos coisa. Naturalmente agora é difícil, partindo do princípio que a responsabilidade só nos leva a gastar aquilo que podemos. E lá vem a torrente de lamúrias enquanto se pensa naquilo que se quer fazer e já não pode...Então, e porque não juntar familia, ou amigos, ou apenas a dois e ver-se um filme em casa, com pipocas caseiras? De luz apagada e comentários em voz alta, de pernas esticadas e sem joelhadas nas costas! Não se pôde ir jantar fora? Então inventar uma receita no restaurante da nossa cozinha, usar finalmente a loiça boa, acender umas velas, e dar a gorjeta ao nosso mealheiro!? Naturalmente uma extravagância sabe bem, e não precisamos ser meninos bem comportados para todo o sempre... Mas, em momentos de crise, devemos procurar as coisas positivas, valorizar o que é sentido como garantido, colorir momentos banais e transformá-los em algo doce, quente...aproveitar para sermos mais desapegados das coisas, e procurar a essência dos momentos, que são a partilha, a companhia, nem que seja a de nós mesmos...a palavra “crise” não pode ser banalizada, porque a verdadeira crise é a de quem fica sem tecto, sem pão na mesa, sem dignidade. Tudo o resto são pequenos nadas, porque apenas precisamos do essencial. Tudo o resto é o que temos, e não o que somos. E, em momentos de crise, é que muitas vezes nos (re)encontramos a nós próprios, num mundo que tem de ser mais que matéria para a nossa existência fazer sentido.

Desesperança


Somos um povo já sem o rosto da vergonha, porque a vergonha não tem fome nem crianças ao colo, sem sapatos nos pés ou caminhos por onde crescer; a miséria não tem política ou estatuto, apenas um prato vazio à espera...por isso não há que ter vergonha! Estamos despidos ao frio de um inverno que se abate sobre nós, sentimo-nos sós, abandonados por aqueles que têm o dever de nos inspirar a ir mais além, a querer mais além!, a sentir o brio lusitano de uma raça pura...Mas, agora, apenas temos fome e comemos o orgulho. Agora, apenas nos interessa o nosso tecto. Não importa o além-mar e as glórias idas de horizontes desconhecidos, pois limitaram o nosso; somos a bruma esvaecida dos tempos da coragem cega. Já nem vergonha temos...Temos, sim, um prato vazio à nossa frente, e apenas queremos o pão nosso de cada dia. Vergonha devia ter quem no-lo tira da boca! Porque a vergonha não tem partido político nem filhos ao colo: mas nunca deve deixar de ter humanidade.