segunda-feira, 4 de junho de 2012

A Janela dos Sentidos

Existia uma janela.
A janela tinha um parapeito com cheiro a flores e água fresca.
E, à janela, vivia um homem todos os minutos dos seus dias inteiros.
Nela ouvia o sol a nascer, sempre à hora em que os pássaros cantavam um novo dia e pés pequenos atravessavam a rua, no ritmo preguiçoso de quem vai para a escola: já soava agora o toque familiar da hora do abecedário. Depois, chorava uma criança, e lá ia a mãe empurrando o carrinho de bebé equilibrada no alto dos sapatos vaidosos, orgulhosa de sua cria, até chegar ao outro lado do passeio. Pouco depois, o som de um autocarro ao longe. Sabia que estava cheio de pessoas já cansadas ainda rumo ao trabalho, pois assim lho diziam os minutos que ele ficava, paciente, à espera na paragem.

O almoço também não variava na hora, mas sim nos aromas que lhe apresentavam sabores diferentes a cada dia da semana: o mundo podia ser doce, salgado, vagamente aromatizado...e a tarde cheirava a lençois lavados e cantava as molas que caíam pelo chão.
Na janela ele sentia o vento que lhe falava no rumorejar das árvores em fins de tarde, quando o sol se punha e o céu era cor das rosas a desabrochar ouvia ele dizer, quando as vizinhas falavam em conversa de rotina na berma da rua.
Nela também contava as gargalhadas de crianças soltas e já sem horas, e as vezes que a bola batia no muro à sombra, do lado em que o dia morria.

Chegava então a aragem fria do recolher, enquanto cheirava a sopa e pão quente do lado de dentro do seu mundo. Era a hora de fechar as portadas e deixar-se guiar pelas mãos até à mesa de cozinha, onde outras já haviam posto os pratos e talheres. Sorria. E, tal como ao mundo lá fora, olhava para a sua amada de sempre com os olhos da alma, saboreando com todos os sentidos que tinha aquilo que não conseguia ver com os seus olhos cegos.

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