quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Existe uma beleza inesperada
à espreita nas esquinas
feias da vida.
E, através de uma tristeza
mal disfarçada
surge o esboço de uma esperança,
após o lamber de cada ferida.

Fotografia de Nuno Alexandre Almeida, álbum "Urban"

Paralisações do Tempo

Num momento de luz tardia e hesitante
vi diluído nos teus olhos
o desejo de quem observa a presa,
ficando suspenso no instante
em que a faz sua,
num instinto de paixão animal.
E essa vontade fez-se gesto
e eu fiz-me abandono na
força das tuas mãos:
os segundos ganharam vida,
tombaram e transpiraram em
cada milésimo de prazer.
Os segundos respiraram juntos
e olharam-se nos olhos e
deram as mãos e
morderam toda a ansiedade contida
na dança da nossa pele.
Veio depois o silêncio e
todo o seu murmurio cansado.
e veio depois o abraço que falou tudo
aquilo que pairava, por dizer,
 entre nós...
E, nesse instante,
não importaram os ventos
do que fomos ou
viríamos a ser:
o tempo havia morrido para as incertezas.
Eu era assim apenas tua,
e tu apenas meu.

Imagem in reinodalira.wordpress.com

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Voa voa passarinho, abre as asas e sê feliz, fazendo ninho aqui e acoli. Corre todo o céu azul, mas lembra-te que o horizonte às vezes é escuro e feito de trovoada. E, nesses momentos, a liberdade pode ter gosto a ninho vazio e asas frias a precisar de um abraço.

Imagem in transcendereviver.blogspot.com

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

"Ataquei a tua boca. Como um animal
uivando a fome ancestral dos primeiros predadores.
Devorei-te os lábios, o pescoço, a língua, deslizei pelo
interior da tua boca, e tentei penetrar pela tua garganta
até ao peito para apoderar-me, deslumbrado e faminto,
do teu coração. Beijei como quem morde. E mordi
como quem devora e se sacia de carne fresca,
os músculos, os nervos, os centros do desejo. Bebi
dos poços mais profundos, das nascentes da tua pele,
até me escorrerem pela face os fios molhados de felicidade,
até sentir o gosto que só têm o êxtase e a alegria.
E de súbito todo o teu corpo era um festim.
Os teus seios, as tuas coxas, as tuas nádegas
longamente gritaram na minha boca, entregando-se
como presas resignadas ao sacrifício que
o meu sangue enfurecido cantou, e cantou, e cantou.
Depois, com a mais azul serenidade,
lambi-te os golpes e as feridas. Beijei o teu corpo
espantado por ver descer a madrugada suplicante,
num ritual que o fez regressar à vida.
E reparei que as marcas, os golpes, as feridas,
estavam também doendo em mim. Que eu fora
igualmente dominado, mordido, que havia sangrado até
no interior da voz, no pensamento, no desejo infinito
de confundir no teu corpo os limites do meu corpo.
E voltei a uivar. Cantei na noite o obscuro domínio
de um animal que outro animal possui e é também
possuído numa luta, numa vitória que é de ambos, onde
se misturam o sal, a saliva, o sangue, a sombra,
para que assim se penetrem, se amem, se confundam.
Demarquei no teu corpo o meu território. Agora,
defendê-lo-ei até aos meus limites. Com
a própria vida."

Joaquim Pessoa

As Pequenas Grandes Coisas

Imagem in http://diogosl.wordpress.com/

Amar não é só borboletas no estômago, noites quentes e eterna alegria a dois.
Amar é parar para ouvir, é ter tempo para sorrir e olhar com olhos de ver o rosto do outro (talvez, assim, se vejam coisas que ainda nos surpreendem!).
É dar a mão num momento de tristeza mas também de alegria,
é saber que se tem alguém ao lado que faz parte de nós, mesmo no meio de uma multidão.
É receber tudo o que têm para nos dar e ter necessidade de retribuir...
É o abraço enroscado nos lençois quando apenas se vai dormir.
É ser enfermeiro quando as únicas qualificações são o amor e a preocupação.
É querer o bem ao outro como queremos para nós, e mostrá-lo em coisas simples numa rotina de dia-a-dia.
Amar é todas as coisas, especialmente as mais pequenas.
Por isso talvez muita gente não tenha olhos para as ver.
E, quando se faz luz, o valor dado já vem mais que atrasado.
O beijo mais doce
é aquele que ainda sabe a
Verdade,
e traz em si não apenas
os lábios, a pele,
e aquele abraço;
carrega consigo 
todos os anseios,
todos os sonhos,
uma inocência,
e uma entrega
sem idade,
sem medos,
ou prazo de validade.
O Tempo é o elemento mais sábio,
pois mesmo não se vendo ou sentindo,
fecha feridas e atenua as dores.
Mas mantém eterno,
na sua intensidade,
cada tic-tac em que somos felizes...

Fotografia de Luís Santos
A vida é feita de esperas.
O futuro é um horizonte que não se vê do presente.
Mas temos que ser nós
a romper o nevoeiro dos nossos medos.
Senão, no fim,
seremos apenas e só um,
ainda à espera,
na esquina da solidão.

Quando um abraço chega à alma
desafia as barreiras do tempo,
do espaço,
da pele,
e da carne...
Torna-se marca,
a ferro e fogo,
nos braços da
saudade.