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Ela caminhava devagar, ao ritmo dele. Ele assobiava uma melodia que só ele conhecia. Passeavam de mãos dadas. As mãos já não eram novas, a linha da Vida já fora bem palmilhada, mas descobriam-se todos os dias, pois todos os dias se procuravam, naquele gesto instintivo de quem se encontra no outro. Não era um amor novo; já tinha raízes, havia erigido paredes e construído um tecto, que abrigava anos de alegrias e sofrimentos, risos à solta, e o crescimento de pés pequeninos, narizes arrebitados como os dela e olhos azuis como os dele: gémeos, pois um amor tão grande não cabia numa só dose e a semente multiplicara-se...
Tinham-se conhecido ainda pequenos e partilhado brincadeiras de crianças. Certa vez ela caíra e esfolara um joelho. Ele ajudara-a a levantar-se e, com um beijo na face, prometeu naquele momento que iria tomar sempre conta dela. E assim descobriram o Amor, aos dez anos de idade, porque as almas reconhecem-se e mantém as promessas ao longo das vidas. E, dos dez anos, chegaram aos setenta, com uma vida inteira pelo meio, a descobrir o mundo e a vida, enquanto se descobriam e redescobriam a si mesmos e um ao outro. Tiveram várias casas mas sempre o mesmo lar. Deitaram muitas lágrimas mas soltaram muitos mais risos. Pelo caminho perderam pessoas e um filho ainda por nascer. A dor não os afastou, a tristeza não os amargurou, porque viam no outro o reflexo da sua própria luz, pois onde há amor não existe escuridão: o amor só rima com dor se existir ausência. Tudo o resto é força e esperança. Sabiam-no desde o dia em que ela esfolou o joelho, e assim viveram anos em comum, num longo caminho que os levara até ali, a um dos passeios matinais de sábado, de mãos dadas, ela a sorrir, ele a assobiar... Foram ao café do costume, ela fez o pedido do costume. Sentaram-se na mesa habitual e ali ficaram, de mão dada sobre a mesa. Ele assobiava sem cessar uma melodia que só ele conhecia. Ela sorria, contemplando o rosto do homem que amava, do homem que cumprira a promessa de sempre cuidar dela, e mergulhou naqueles olhos azuis, onde encontrava o espaço que era só deles, e onde se reconheciam para lá da idade ou do esquecimento.
Do lado de lá do balcão, dois jovens funcionários observavam o casal. “Olha como ela cuida dele...”. Não era um quadro triste, o do homem que assobiava perdido no seu mundo, e o da mulher que lhe levava o garfo à boca, pois percebiam – apesar de serem tão jovens – que testemunhavam o amor incondicional.
