terça-feira, 27 de junho de 2017

Do Amor sem idade








Ela caminhava devagar, ao ritmo dele. Ele assobiava uma melodia que só ele conhecia. Passeavam de mãos dadas. As mãos já não eram novas, a linha da Vida já fora bem palmilhada, mas descobriam-se todos os dias, pois todos os dias se procuravam, naquele gesto instintivo de quem se encontra no outro. Não era um amor novo; já tinha raízes, havia erigido paredes e construído um tecto, que abrigava anos de alegrias e sofrimentos, risos à solta, e o crescimento de pés pequeninos, narizes arrebitados como os dela e olhos azuis como os dele: gémeos, pois um amor tão grande não cabia numa só dose e a semente multiplicara-se...
Tinham-se conhecido ainda pequenos e partilhado brincadeiras de crianças. Certa vez ela caíra e esfolara um joelho. Ele ajudara-a a levantar-se e, com um beijo na face, prometeu naquele momento que iria tomar sempre conta dela. E assim descobriram o Amor, aos dez anos de idade, porque as almas reconhecem-se e mantém as promessas ao longo das vidas. E, dos dez anos, chegaram aos setenta, com uma vida inteira pelo meio, a descobrir o mundo e a vida, enquanto se descobriam e redescobriam a si mesmos e um ao outro. Tiveram várias casas mas sempre o mesmo lar. Deitaram muitas lágrimas mas soltaram muitos mais risos. Pelo caminho perderam pessoas e um filho ainda por nascer. A dor não os afastou, a tristeza não os amargurou, porque viam no outro o reflexo da sua própria luz, pois onde há amor não existe escuridão: o amor só rima com dor se existir ausência. Tudo o resto é força e esperança. Sabiam-no desde o dia em que ela esfolou o joelho, e assim viveram anos em comum, num longo caminho que os levara até ali, a um dos passeios matinais de sábado, de mãos dadas, ela a sorrir, ele a assobiar... Foram ao café do costume, ela fez o pedido do costume. Sentaram-se na mesa habitual e ali ficaram, de mão dada sobre a mesa. Ele assobiava sem cessar uma melodia que só ele conhecia. Ela sorria, contemplando o rosto do homem que amava, do homem que cumprira a promessa de sempre cuidar dela, e mergulhou naqueles olhos azuis, onde encontrava o espaço que era só deles, e onde se reconheciam para lá da idade ou do esquecimento.
Do lado de lá do balcão, dois jovens funcionários observavam o casal. “Olha como ela cuida dele...”. Não era um quadro triste, o do homem que assobiava perdido no seu mundo, e o da mulher que lhe levava o garfo à boca, pois percebiam – apesar de serem tão jovens – que testemunhavam o amor incondicional.

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