quarta-feira, 23 de julho de 2014

Verdades verdadinhas



Já me pus a pensar nas inúmeras coisas que a minha mãe me dizia, como todas as mães diziam, e que eu achava um perfeito disparate, como todos os miúdos achavam. Naturalmente porque todos os adolescentes iluminados pela suprema sabedoria do universo não podiam dar grande importância às frases feitas, proferidas por anciãos de quarenta anos...! 
Uma dessas frases feitas (e detentora do primeiro lugar no top das verdades verdadinhas) é a famosa "Um dia quando fores mãe vais ver". E não é que é mesmo verdade? Damn! Quantas vezes eu dizia que não ia ser como a minha mãe, e agora engulo cada palavrinha de censura de adolescente enjoada. Na verdade, muitas coisas são diferentes, até porque a geração é diferente, e não somos pessoas iguais. Mas a essência...oh, a essência materna! Chatinha, protectora, preocupada, repetitiva...de vez em quando dou por mim a pensar, enquanto dou um sermão (sim, porque uma mãe não só faz como pensa várias coisas ao mesmo tempo, somos seres fantásticos) que estou em modo repeat passados vinte e...bem, alguns anos!, como se o tempo tivesse parado nos anos oitenta. O olhar que me é devolvido é o mesmo, ou os adolescentes não tivessem também a mesma essência. Ah, e o segundo nome próprio continua a fazer jeito numa chamada de atenção materna...quem quebrou a tradição de certeza que se arrependeu nesses momentos, confessem!
Outra frase que me horrorizava: "Nem toda a gente é tua amiga, e não há melhores amigos que os pais". Que mundo cruel era esse que me queriam fazer crer que eu habitava?! Evidentemente as pessoas não se separavam no curso natural da vida, não mudavam nos seus interesses e objectivos, e rancores e desamores eram coisa de gente já velha e amargurada, Pronto, lá a vida deu razão à mãe...já perdi a conta de quantas vezes me auto-intitulei de melhor amiga do meu bebé, que é maior que eu e desfaz a barba, mas isso agora não interessa nada para a questão.
E, a mais difícil de aceitar: "Com o passar dos anos já queremos é sossego". Bem, ainda não cheguei a esse ponto, o do sossego permanente. Mas sinto a ameaça lenta, que se manifesta nas saídas nocturnas mais curtas (quando me deito o sol ainda não apareceu) já não danço all night long, fazendo paragens obrigatórias para descanso envergonhado, e não olho para os saltos de dez centímetros com a mesma emoção e ternura de outrora, sendo que os rasos já não saem de casa apenas de dia pois têm um encanto do qual não me dava conta nos meus vintes...
Autch...
Já respeito o calendário das consultas, a médica de família não dá tantos sermões, e já não deixo passar o prazo de seis meses das credenciais dos exames. O nível do colesterol é de facto um número com a sua importância, e ainda hoje ao almoço troquei um bacalhau com natas por frango grelhado, porque dizem os entendidos que a carne branca é que é. As borboletas no estômago só batem asas de vez em quando, e o botão do volume também funciona no sentido contrário!
Agora! é verdade que sempre me disseram que este momento, o do meio, o do equilíbrio, é que é o melhor. Mas eu pensava que era conversa de todos aqueles que se queriam convencer disso, para ignorarem a frustração dos anos que escorriam por entre os dedos e na pele menos tonificada. Só que é mesmo assim! Certos momento são mais raros mas mais apreciados. A pele ainda se aguenta e os pés nos saltos também, gasta-se mais creme, massajam-se mais os pés, e vive-se agora um pouco mais de tudo, porque a confiança é outra, certos medos desapareceram mas a curiosidade ainda se mantém com a mesma frescura, e os amigos são poucos mas bons!
Termos consciência que não somos imortais dá-nos um paladar diferente para saborear a vida, sem dúvida!
Chego à conclusão que passamos todos pelo mesmo, mudam os sítios que estão in, as modas na roupa, no cabelo, na tecnologia...  E até podem mudar os tempos e as vontades sim senhor, mas mantém-se algumas velhas verdades. Palavra de mãe e de mulher a entrar nos "entas"!

Isis, a Cadela que Sorri


Como não sei como expressar as saudades que tenho tuas, a falta que me fazes, nem como explicar a forma como me inspiraste e mudaste algo em mim, pelo teu exemplo de vida, que foi tão sofrida e, mesmo assim, não te tornou amarga nem ressentida, talvez cautelosa, mas de uma bondade e alegria de viver que nem muitos humanos conhecem ou sabem praticar...Quero dizer-te, para além da palavra Saudade, também a palavra Obrigada. Foste um anjo nas nossas vidas, e viverás sempre em nós. 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Confissão

Depois da colectânea "Cartas", na qual participei, eis que há continuidade mas desta feita subordinada ao tema "Confissões". Claro que aceitei de novo o desafio da editora Lua de Marfim! Mas surgiu-me um problema: como confessar-me? Ou melhor, teria mesmo que me confessar? Se fosse o caso tinha que ser uma colectânea com não sei quantos volumes e mais um extra. Então lembrei-me do pedaço de uma história que estou a escrever num passo lento, tão lento que eu penso que vai ser o parto mais longo da história dos rabiscos e afins. E esse pedaço fala de uma confissão, não nos termos previsíveis e mais vulgares, mas aborda a confissão mais intima que pode existir: a de sermos verdadeiro com nós próprios. Em simultâneo conto uma história que, apesar de ser ficção, pode muito bem ser a história de muitas pessoas. Não sei se irá de encontro ao verdadeiramente pretendido para o conjunto de poemas ou textos, mas tenho a certeza que é diferente. E o meu maior prazer é, sempre, partilhar!

A capa da nova colectânea


"Esta é a história da vizinha Gertrudes, uma mulher velha, cansada, antiga lavadeira de Alfama, viúva que criara os filhos a pulso. No percurso perdera dois, um para a guerra do ultramar e outro para a tragédia do amor: Luís tinha um ligeiro atraso mental e apaixonou-se por uma rapariga do bairro, criando uma história de amor que apenas ele vivia, dentro da sua cabeça. Quando a noiva fantasiada entrara no expresso para emigrar para França, correra desesperado atrás dela até as forças lhe permitirem e os pulmões se cansarem de chamar pelo seu nome. E, quando estas cederam, um carro ceifou-lhe a vida, acabando com a mais poética história de amor vivida nas redondezas. Gertrudes suportara estoicamente as tragédias da sua vida, e a ausência de outros dois filhos, emigrados Sobrara-lhe Lúcia, a mais nova, cujo nome significava “Luz”. Só que Lúcia não era iluminada, mas sim atraída, numa curiosidade mórbida, por caminhos obscuros. Tinha uma ânsia de viver, um desespero nos minutos que passavam, como se não houvesse tempo para desfrutar o amanhã. E deixou-se ir na vertigem da vida, em busca do nirvana, numa sede sem fim, até que conheceu Samuel. Começou a derradeira viagem sem volta, em noites infinitas de estados de alma que viajavam para um mundo fora deste, sem dor, sem ansiedade, sem procura, à distância de um gesto, de uma seringa. Amavam-se furiosamente, os corpos gastos, num orgasmo, numa trip que não sossegava, que exigia, que lhes vampirizava o sangue, a mente, a vida, todos os dias um pouco, e todos os dias mais. Lúcia não tentou lutar, ao contrário de Samuel que queria voltar a uma vida normal, comum, sem vertigens que lhe cobravam a vida. Mas o amor a Lúcia e à droga faziam-no voltar, caindo nos braços das suas amantes, uma e outra vez, até acabar por sucumbir numa viagem sem volta, numa ruela qualquer. Foi encontrado caído, como uma folha de papel que se amachuca e deita fora. Samuel atingira o Nirvana, e Lúcia nem soube fazer o luto, perdida na sua vertigem constante. Gertrudes assistiu ao pobre funeral, onde uma família amargurada não comparecera, chorando prematuramente a morte da filha, que sentia vir a caminho. Mas Lúcia era forte, não vivia mas não morria. Gertrudes foi sendo roubada na sua própria casa, despojada do seu ouro e da sua dignidade, até que, cega de fúria, correu com ela de casa, gritando e chorando por si mesma e pela filha, até sucumbir com um ataque cardíaco. Valeram-lhe os vizinhos e a rapidez do socorro, e Gertrudes sobreviveu a mais uma provação, acabando por regressar a casa, pedindo a Deus que lhe levasse a filha e acabasse com o sofrimento de todos. Porque, se Lúcia ia viver um inferno na terra, então que finalmente encontrasse a luz, mesmo que não fosse neste mundo. Soube por vizinhos que a filha se prostituía no bairro alto, e o seu coração sangrou de novo, mas não cedeu pois já vivera demasiados desgostos e estava como que dormente, arrastando a sua artrite pelas ruas estreitas de Alfama, contando os tostões, vivendo uma miséria que os filhos ignoravam, porque não vinham a Portugal à anos. Até que um dia lhe ligaram do hospital: Gertrudes foi ver a filha e viu um trapo deitado na cama, de braços esqueléticos e picados, pesando talvez uns 40 quilos. Não podia ver a vida que se esvaziava nos seus olhos, pois estavam inchados. Tinha um lábio cozido e um braço partido. Tudo o resto era fruto da vida diária que levava. Durante dias Lúcia não falou, e não lhe era dada demasiada importância por quem a assistia por ser uma toxicodependente, mais uma entre tantos que por ali passavam. Nesses dias Lúcia viu o filme da sua vida passar diante de seus olhos, e foi então que chorou Samuel, a mãe, e toda a vida que não teve. Quando finalmente falou, disse a Gertrudes que ia mudar de vida. Contou-lhe das ruas que habitara, das vezes que esteve quase a morrer como Samuel, mas ele aparecia-lhe e dizia que ainda não estava na hora. Levara pancada de clientes muitas vezes, mas estivera agora mais fraca e sem forças para fugir; desta vez fora deixada para morrer. Gertrudes levou-a de volta ao lar, onde engoliu as lágrimas e tentou tratar da sua única filha, ignorando a opinião da vizinhança, para quem Lúcia era um caso perdido. Gertrudes encontrou forças nem sabia onde e, com tenacidade e um amor que não morrera naqueles anos de sofrimento, limpou as chagas do corpo magro da filha, as lágrimas, suportou os lamentos e impediu-a de fugir para ir em busca de uma dose de droga. Foi uma vigilante firme e inabalável até que, com a chegada da primavera, chegou também uma paz e uma calmaria: Lúcia parecia ter serenado o espirito. Até que começou a sentir uma mudança no corpo, que tomava forma dia após dia, e os seus receios confirmaram-se: estava grávida. Entrou em desespero e a velha ansiedade invadiu-lhe o peito, fazendo-a pensar apenas e numa só coisa. Gertrudes, velha e cansada, mas eternamente lutadora, tentou amansar a sua revolta. “Tudo se cria e ainda vais ter uma boa vida, filha”. Gertrudes não sabia quem exatamente ela queria convencer, mas depositou as esperanças naquele neto que havia de chegar: ia ser a luz de Lúcia, tinha a certeza. Durante o período de gestação Lúcia viveu num certo sonambulismo, fazendo tudo como lhe mandavam. Mas Gertrudes via-lhe muitas vezes aquele vazio nos olhos, e durante a noite podia ouvi-la a andar de um lado para o outro, numa inquietude que lhe apertava o coração com maus pressentimentos.
O menino nasceu prematuro, com sete meses, e parecia um rato, feio como tudo, guinchando em vez de chorar. Lúcia olhou-o com estranheza, e não sentiu nada. Aquele era filho da droga e não do amor, e ela chorou a sua própria indiferença. Suportara tudo na vã esperança que aquela criança lhe desse a força que sempre admirara na mãe, mesmo quando esta mal tinha comida para sustentar os filhos, viúva precoce e corajosa. Mas não tinha a garra e a força da mãe, nem merecia o seu amor. E assim Lúcia desapareceu nas sombras da noite, fugindo do hospital ainda mal recuperada do parto, para aparecer novamente, dias depois, num fim igual ao de Samuel. Gertrudes reconheceu a filha sem verter uma lágrima, porque aquela não era a filha que parira num espanto, a quem cosera vestidos e assoara o ranho. Aquela era uma patética figura, feliz por já não sofrer. Gertrudes morrera por dentro quando a filha fugira e não tinha forças para mais, não queria viver: a sua missão tinha acabado. Foi para casa, fez a sua higiene e vestiu a sua melhor roupa, fato de saia e casaco, preto como convinha, pois estava de luto pela filha e por si mesma. Deitou-se, fazendo a sua última confissão a Deus, e pedindo perdão pelos seus pecados, pois homem algum na terra seria capaz de ler o seu coração. "Senhor, já não posso com os meus ossos, as dores não as aguento. O meu coração tem cicatrizes, e a minha alma já nem consegue chorar. Tem piedade da minha fraqueza e leva-me. Perdoa as más ações, as más palavras, e tudo o que podia ter feito melhor e não fiz. Sou humilde e reconheço as minhas imperfeições. Assim, caiu num sono profundo, onde recordou Jaime, o seu belo marido, trabalhador da estiva que a fizera feliz nos melhores anos da sua vida. Recordou o seu doce filho Luís, que morrera por amor, e César, que chorara por não querer ir para a guerra, não chegando a sofrê-la em demasia porque padecera dois dias depois de lá chegar. Recordou Armindo, o seu filho que fora para a América num sonho de riqueza, enterrando-se em trampa de esgotos para a conquistar, voltando a Portugal apenas uma única vez para a mãe conhecer os netos, estrangeiro na sua terra e enojado com tudo, fazendo um telefonema enfastiado em cada Natal. Recordou Carlos, emigrado na Suíça, que nem mais metera os pés em Portugal, entretido com a sua vida agitada de solteiro, dono de casas de meninas e sem vícios sem ser o das noites perdidas em pecados da carne. Recordou os filhos que não chegou a ter, quando o seu corpo rejeitava as vidas que nele se queriam gerar. E, num último sopro, recordou Lúcia, a sua menina...podia vê-la, agora! Mas não era um corpo definhado, era a sua Lúcia com 6 anos, no primeiro dia em que ia para a escola, de tranças e vestido branco imaculado. “Vais ser uma doutora” Gertrudes dizia com orgulho. E os braços carinhosos da filha rodearam-lhe o pescoço e, em bicos de pés, deu um beijo apertado na cara da mãe. Assim partiu Gertrudes, a dormir tranquilamente, na paz do seu confessionário privado...
Admito que é uma história triste, mas na verdade foi-me contada de uma outra maneira: Gertrudes era uma pobre coitada com pouca sorte na vida, teve o azar de ter uma filha drogada e um filho atrasado mental. Mas também alguma culpa era dela pois tinha sido muito branda com a filha, não sabia dar ouvidos aos vizinhos...e espertos tinham sido os filhos que tinham ido para fora e não queriam saber de nada daquela vida.
Contudo, eu prefiro a minha maneira de recordar a história da vizinha que me viu crescer duas portas abaixo, do seu amor e esperança sem fim, e da Lúcia sonhadora e inteligente que brincava comigo à macaca no pátio, na vez das críticas mascaradas de pena; é mais fácil apontar o dedo ao próximo que reconhecermos as nossas próprias fraquezas e fealdade. Essa é, de longe, a mais difícil de todas as confissões,a mais dolorosa e redentora, mas a mais corajosa e honesta."

Nota: esta breve história, apesar de ficcionada, é dedicada a todas as famílias que sofrem os danos colaterais provocados por qualquer tipo de dependência, doença ou limitação no seu núcleo. E, em especial, às muitas mãe-coragem, tantas vezes esquecidas, heroínas no anonimato e lutadoras incansáveis.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Silêncio

 

  

 
A minha amiga de quatro patas, a minha companheira de passeios, a minha Isis, que me ensinou mais sobre o Amor que muitas pessoas...morreu. Num mês morreu. Assim, simplesmente.
Tem-me apetecido escrever-lhe uma carta, mas a dor não me inspira as palavras. Sou um bocado ao contrário; a alegria em mim é que solta as frases. A dor não. Cala-me as mãos. Estou cheia de saudades dela. E em breve soltarei essa saudade no papel.
Por agora ficamos assim, olhos nos olhos da minha memória.