Depois da colectânea "Cartas", na qual participei, eis que há continuidade mas desta feita subordinada ao tema "Confissões". Claro que aceitei de novo o desafio da editora Lua de Marfim! Mas surgiu-me um problema: como confessar-me? Ou melhor, teria mesmo que me confessar? Se fosse o caso tinha que ser uma colectânea com não sei quantos volumes e mais um extra. Então lembrei-me do pedaço de uma história que estou a escrever num passo lento, tão lento que eu penso que vai ser o parto mais longo da história dos rabiscos e afins. E esse pedaço fala de uma confissão, não nos termos previsíveis e mais vulgares, mas aborda a confissão mais intima que pode existir: a de sermos verdadeiro com nós próprios. Em simultâneo conto uma história que, apesar de ser ficção, pode muito bem ser a história de muitas pessoas. Não sei se irá de encontro ao verdadeiramente pretendido para o conjunto de poemas ou textos, mas tenho a certeza que é diferente. E o meu maior prazer é, sempre, partilhar!
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| A capa da nova colectânea |
"Esta
é a história da vizinha Gertrudes,
uma mulher velha, cansada, antiga lavadeira de Alfama, viúva que
criara os filhos a pulso. No percurso perdera dois, um para a guerra
do ultramar e outro para a tragédia do amor: Luís tinha um ligeiro
atraso mental e apaixonou-se por uma rapariga do bairro, criando uma
história de amor que apenas ele vivia, dentro da sua cabeça. Quando
a noiva fantasiada
entrara
no expresso para emigrar para França, correra desesperado atrás
dela até as forças lhe permitirem e os pulmões se cansarem de
chamar pelo seu nome. E, quando estas cederam, um carro
ceifou-lhe a vida, acabando com a mais poética história de amor
vivida nas redondezas. Gertrudes suportara estoicamente as tragédias
da sua vida, e a ausência de outros dois filhos, emigrados
Sobrara-lhe Lúcia, a
mais nova, cujo
nome significava “Luz”. Só que Lúcia não era iluminada, mas
sim atraída, numa curiosidade mórbida, por caminhos obscuros. Tinha
uma ânsia de viver, um desespero nos minutos que passavam, como se
não houvesse tempo para desfrutar o amanhã. E deixou-se ir na
vertigem da vida, em busca do nirvana, numa sede sem fim, até que
conheceu Samuel. Começou a derradeira viagem sem volta, em noites
infinitas de estados de alma que viajavam para um mundo fora deste,
sem dor, sem ansiedade, sem procura, à distância de um gesto, de
uma seringa.
Amavam-se
furiosamente, os corpos gastos, num orgasmo, numa trip que não
sossegava, que exigia, que lhes vampirizava o sangue, a mente, a
vida, todos os dias um pouco, e todos os dias mais. Lúcia não
tentou lutar, ao contrário de Samuel que queria voltar a uma vida
normal, comum, sem vertigens que lhe cobravam a vida. Mas o amor a
Lúcia e à droga faziam-no
voltar, caindo
nos
braços das suas amantes, uma e outra vez, até acabar por sucumbir
numa viagem sem volta, numa ruela qualquer. Foi encontrado caído,
como
uma folha de papel que se amachuca e deita fora.
Samuel atingira o Nirvana, e Lúcia nem soube fazer o luto, perdida
na sua vertigem constante. Gertrudes assistiu ao pobre funeral, onde
uma família amargurada não comparecera, chorando prematuramente a
morte da filha, que sentia vir a caminho. Mas Lúcia era forte, não
vivia mas não morria. Gertrudes foi sendo roubada na sua própria
casa, despojada do seu ouro e da sua dignidade, até que, cega de
fúria, correu com ela de casa, gritando e chorando por si mesma e
pela filha, até sucumbir com um ataque cardíaco. Valeram-lhe os
vizinhos e a rapidez do socorro, e Gertrudes sobreviveu a mais uma
provação, acabando por regressar a casa, pedindo a Deus que lhe
levasse a filha e acabasse com o sofrimento de todos. Porque, se
Lúcia ia viver um inferno na terra, então que finalmente
encontrasse a luz, mesmo que não fosse neste mundo. Soube por
vizinhos que a filha se prostituía no bairro alto, e o seu coração
sangrou de novo, mas não cedeu pois já vivera demasiados desgostos
e estava como que dormente, arrastando a sua artrite pelas ruas
estreitas de Alfama, contando os tostões, vivendo uma miséria que
os filhos ignoravam, porque não vinham a Portugal à anos.
Até
que um dia lhe ligaram do hospital: Gertrudes foi ver a filha e viu
um trapo deitado na cama, de braços esqueléticos e picados, pesando
talvez uns 40 quilos. Não podia ver a vida que se esvaziava nos seus
olhos, pois estavam inchados. Tinha um lábio cozido e um braço
partido. Tudo o resto era fruto da vida diária que levava. Durante
dias Lúcia não falou, e não lhe era dada demasiada importância
por quem a assistia por ser uma toxicodependente, mais uma entre
tantos que por ali passavam. Nesses dias Lúcia viu o filme da sua
vida passar diante de seus olhos, e foi então que chorou Samuel, a
mãe, e toda a vida que não teve.
Quando
finalmente falou, disse a Gertrudes que ia mudar de vida. Contou-lhe
das ruas que habitara, das vezes que esteve quase a morrer como
Samuel, mas ele aparecia-lhe e dizia que ainda não estava na hora.
Levara pancada de clientes muitas vezes, mas estivera agora mais
fraca e sem forças para fugir; desta vez fora deixada para morrer.
Gertrudes levou-a de volta ao lar, onde engoliu as lágrimas e tentou
tratar da sua única filha, ignorando a opinião da vizinhança, para
quem Lúcia era um caso perdido. Gertrudes encontrou forças nem
sabia onde e, com tenacidade e um amor que não morrera naqueles anos
de sofrimento, limpou as chagas do corpo magro da filha, as lágrimas,
suportou os lamentos e impediu-a de fugir para ir em busca de uma
dose de droga. Foi uma vigilante firme e inabalável até que, com a
chegada da primavera, chegou também uma paz e uma calmaria: Lúcia
parecia ter serenado o espirito. Até que começou a sentir uma
mudança no corpo, que tomava forma dia após dia, e os seus receios
confirmaram-se: estava grávida. Entrou em desespero e a velha
ansiedade invadiu-lhe o peito, fazendo-a pensar apenas e numa só
coisa. Gertrudes, velha e cansada, mas eternamente lutadora, tentou
amansar a sua revolta. “Tudo se cria e ainda vais ter uma boa vida,
filha”. Gertrudes não sabia quem exatamente ela queria convencer,
mas depositou as esperanças naquele neto que havia de chegar: ia ser
a luz de Lúcia, tinha a certeza. Durante o período de gestação
Lúcia viveu num certo sonambulismo, fazendo tudo como lhe mandavam.
Mas Gertrudes via-lhe muitas vezes aquele vazio nos olhos, e durante
a noite podia ouvi-la a andar de um lado para o outro, numa
inquietude que lhe apertava o coração com maus pressentimentos.
O
menino nasceu prematuro, com sete meses, e parecia um rato, feio como
tudo, guinchando em vez de chorar. Lúcia olhou-o com estranheza, e
não sentiu nada. Aquele era filho da droga e não do amor, e ela
chorou a sua própria indiferença. Suportara tudo na vã esperança
que aquela criança lhe desse a força que sempre admirara na mãe,
mesmo quando esta mal tinha comida para sustentar os filhos, viúva
precoce e corajosa. Mas não tinha a garra e a força da mãe, nem
merecia o seu amor. E assim Lúcia desapareceu nas sombras da noite,
fugindo do hospital ainda mal recuperada do parto, para aparecer
novamente, dias depois, num
fim igual ao de Samuel.
Gertrudes reconheceu a filha sem verter uma lágrima, porque aquela
não era a filha que parira num espanto, a quem cosera vestidos e
assoara o ranho. Aquela era uma patética figura, feliz por já não
sofrer. Gertrudes morrera por dentro quando a filha fugira
e não
tinha forças para mais, não queria viver: a sua missão tinha
acabado. Foi para casa, fez a sua higiene e vestiu a sua melhor
roupa, fato de saia e casaco, preto como convinha, pois estava de
luto pela filha e por si mesma. Deitou-se, fazendo a sua última
confissão a Deus, e pedindo perdão pelos seus pecados, pois homem
algum na terra seria capaz de ler o seu coração. "Senhor, já
não
posso com os meus ossos, as dores não as aguento. O meu coração
tem cicatrizes, e a minha alma já nem consegue chorar. Tem piedade
da
minha fraqueza e
leva-me.
Perdoa as más ações, as más palavras, e tudo o que podia ter
feito melhor e não fiz. Sou humilde e reconheço as minhas
imperfeições”.
Assim, caiu num sono profundo, onde recordou Jaime, o seu belo
marido, trabalhador da estiva que a fizera feliz nos melhores anos da
sua vida. Recordou o seu doce filho Luís, que morrera por amor, e
César, que chorara por não querer ir para a guerra, não chegando a
sofrê-la em demasia porque padecera dois dias depois de lá chegar.
Recordou Armindo, o seu filho que fora para a América num sonho de
riqueza, enterrando-se em trampa de esgotos para a conquistar,
voltando a Portugal apenas uma única vez para a mãe conhecer os
netos, estrangeiro na sua terra e enojado com tudo, fazendo um
telefonema enfastiado em cada Natal. Recordou Carlos, emigrado na
Suíça, que nem mais metera os pés em Portugal, entretido com a sua
vida agitada de solteiro, dono de casas de meninas e sem vícios sem
ser o das noites perdidas em pecados da carne. Recordou os filhos que
não chegou a ter, quando o seu corpo rejeitava as vidas que nele se
queriam gerar. E, num último sopro, recordou Lúcia, a sua
menina...podia vê-la, agora! Mas não era um corpo definhado, era a
sua Lúcia com 6 anos, no primeiro dia em que ia para a escola, de
tranças e vestido branco imaculado. “Vais ser uma doutora”
Gertrudes dizia com orgulho. E os braços carinhosos da filha
rodearam-lhe o pescoço e, em bicos de pés, deu um beijo apertado na
cara da mãe.
Assim
partiu
Gertrudes, a dormir tranquilamente,
na paz do seu confessionário privado...
Admito
que
é uma história triste, mas
na verdade foi-me contada de uma outra maneira:
Gertrudes era uma pobre coitada com pouca sorte na vida, teve o azar
de ter uma filha drogada e um filho atrasado mental. Mas também
alguma
culpa
era
dela
pois tinha sido muito branda com a filha, não sabia dar ouvidos aos
vizinhos...e espertos tinham sido os filhos que tinham ido para fora
e não queriam saber de nada
daquela vida.
Contudo,
eu prefiro a minha maneira de recordar a história da vizinha que me
viu crescer duas portas abaixo, do
seu amor e esperança sem fim, e
da Lúcia sonhadora
e inteligente que
brincava comigo à macaca no pátio, na vez das críticas mascaradas
de pena; é mais fácil apontar o dedo ao próximo que reconhecermos
as nossas próprias fraquezas
e fealdade. Essa
é, de longe, a mais difícil de todas as confissões,a
mais dolorosa e redentora, mas a mais corajosa e honesta."
Nota:
esta breve história,
apesar de ficcionada,
é dedicada a todas as famílias que sofrem os danos colaterais
provocados por qualquer tipo de dependência,
doença ou limitação
no seu núcleo.
E, em especial,
às muitas mãe-coragem, tantas
vezes esquecidas, heroínas
no anonimato e lutadoras incansáveis.