quarta-feira, 28 de maio de 2014

A COISA




Mia Couto é um dos meus poetas e escritores preferidos.
Vou partilhar um poema dele que é profundo no sentido em que fala de um assunto ainda demasiado vivo nos dias de hoje: a violência doméstica e as agressões.
Infelizmente, alguém pode "tropeçar" nele e identificar-se no silêncio da poesia...
Para essas pessoas: 
A paz de espírito não tem preço.
É preferível comer apenas uma sopa mas não deixar a dignidade passar fome...
Não nos conformemos em ser coisas!

A COISA
O silêncio é o modo
como o marido habita a casa.

Vencida a porta, ao final do dia,
o homem assume porte e posses.

A mesa é onde os seus cotovelos
derramam milenares cansaços.

Nesse cotovelório
vai trocando vida por idade.

Partilha a medonhez dos bichos:
medo do silêncio,
mais pavor ainda das palavras.

Para a mulher,
porém, ele não é senão um menino
no aguardo de um agrado.

Em redor do silêncio
ela rodopia, sem voz, sem cheiro, sem rosto.

Em solidão,
o homem come,
merecedor do que lhe é servido.

Depois,
bebe como se fosse bebido,
tragado pelo vazio dos desertos.

Dono do seu despovoado,
então, ele a agride, com ferocidade de bicho.

A mulher se estilhaça no soalho,
sombrio retrato da parede tombado.

No leito,
já servido o marido,
as lágrimas vão colando os seus fragmentos.

E a esposa volta a ser coisa.
in "Tradutor de chuvas"

domingo, 18 de maio de 2014

Pomba lenta




Longe da guerra, em Trás-os.Montes, o meu caro J.L. também fazia poesia. Sempre algo triste, talvez pelas memórias de um jovem destacado num inferno, talvez pela perda do seu grande amor para uma depressão pós-parto, e a perda de um filho que cresceu longe dos seus olhos...esta tristeza, no entanto, não faz morrer a beleza das suas palavras. Gosto muito deste poema, talvez porque fala da terra natal do meu pai, que partiu demasiado cedo, mas vivendo o suficiente para me deixar muitas memórias:

"Aqui, em Trás-os-Montes, onde o homem é mais inteiro
há as asas de uma pomba lenta
voando sobre os ramos dum pinheiro.
Aqui, em Trás-os-Montes, onde a vida é violenta.

E as fontes correm à medida da garganta
e ceifar mais não basta para encher o celeiro
há mais pão na arca quando canta
no silêncio das montanhas um ceifeiro.

Aqui, em Trás-os-Montes, tudo queima e a sombra é inventada
nas velas dum suposto navio tocado pelo vento
e o sol magoa os olhos com o raiar da madrugada.

E a boca ladra. E as palavras sabem morder.
e a terra arde. E a liberdade é o pensamento
aqui, em Trás-os-Montes, onde a pomba voa sem se perder."

J.L.

sábado, 17 de maio de 2014

Memórias das sombras

As palavras que vão ler de seguida são escritas pela mão de um homem que viveu o pesadelo do ultramar. Apesar de descreverem o lado negro, no meio das suas memórias atormentadas, este é um espírito que não perdeu a poesia. Apesar de ainda ter perdido muito mais depois da guerra. E algo assim merece ser partilhado:

"Quando vim mobilizado por imposição para Angola, e mal pus os pés neste chão, deu-me logo a impressão que vinha para um largo mar onde as gaivotas em voos circulares devassavam o cerne da noite escura com asas luminosas;
depois, quantas lágrimas vertidas, quanto sangue derramado, quantos bolos de noivado por talhar, quantas rosas desfolhadas, quantos sonhos traídos para aceitar de vez a realidade deste quotidiano em que, cada folha que se desprende e cai morta no chão, há em todas elas um pedaço da minha carne? por aqui, por estas matas e picadas dos Altos Dembos, só a morte cumpre promessas e afaga meu rosto com mãos despidas.
Sombras, sombras e sombras e mais sombras carnívoras todas elas, é tudo quanto há de sobra perfilado ao longo do meu caminho em que apenas e só as sombras crescem e se multiplicam para dar seguimento às leis do Criador.
Nem o gorgeio duma ave sequer, nem o murmurio de um regato se ouve para amaciar a rudeza do caminho que me coube; só o cair copioso das folhas mortas no chão se instala em meus ouvidos como prenuncio da chegada do outono precoce.
Sombras, sombras e mais sombras e bolos de noivado por talhar."

J.L. 

sábado, 10 de maio de 2014

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A Carta

 
 
Eis o resultado do desafio lançado pela editora! Uma das minhas três "cartas" enviadas vai ganhar vida...Não sei qual, mas só quero saber no dia em que tiver o livro na mão;
 em mês de aniversário será a melhor prenda!
Depois partilho...