sábado, 17 de maio de 2014

Memórias das sombras

As palavras que vão ler de seguida são escritas pela mão de um homem que viveu o pesadelo do ultramar. Apesar de descreverem o lado negro, no meio das suas memórias atormentadas, este é um espírito que não perdeu a poesia. Apesar de ainda ter perdido muito mais depois da guerra. E algo assim merece ser partilhado:

"Quando vim mobilizado por imposição para Angola, e mal pus os pés neste chão, deu-me logo a impressão que vinha para um largo mar onde as gaivotas em voos circulares devassavam o cerne da noite escura com asas luminosas;
depois, quantas lágrimas vertidas, quanto sangue derramado, quantos bolos de noivado por talhar, quantas rosas desfolhadas, quantos sonhos traídos para aceitar de vez a realidade deste quotidiano em que, cada folha que se desprende e cai morta no chão, há em todas elas um pedaço da minha carne? por aqui, por estas matas e picadas dos Altos Dembos, só a morte cumpre promessas e afaga meu rosto com mãos despidas.
Sombras, sombras e sombras e mais sombras carnívoras todas elas, é tudo quanto há de sobra perfilado ao longo do meu caminho em que apenas e só as sombras crescem e se multiplicam para dar seguimento às leis do Criador.
Nem o gorgeio duma ave sequer, nem o murmurio de um regato se ouve para amaciar a rudeza do caminho que me coube; só o cair copioso das folhas mortas no chão se instala em meus ouvidos como prenuncio da chegada do outono precoce.
Sombras, sombras e mais sombras e bolos de noivado por talhar."

J.L. 

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