sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Amar alguém é saber ler
as páginas da sua vida,
e deixar-se tocar por cada palavra,
sentir cada vírgula...
e deliciar-se com cada frase,
mesmo que tenha erros de ortografia.
Enfrentamos caminhos
feitos de tudo.
O nosso trilho é naturalmente
marcado por lágrimas
e passos hesitantes.
Mas o caminho aponta para a frente.
Sempre.
E até podemos sonhar em chegar
a um destino para lá
das nossas melhores
expectativas,
mesmo quando julgamos
não haver mais chão
para pisar.
Cantaste-me à alma e
eu toquei-te ao coração.
Juntos fizemos
a canção perfeita.
A Vida é uma aventura
e a única coisa em si,
eterna,
é a sua eterna mudança,
a infinita renovação de tudo.
A tua boca é um manjar para a minha,
faminta,
e o teu corpo é o chão
por onde deslizo,
e onde me sirvo,
sem maneiras,
com os olhos, com as mãos,
com todos os sentidos do meu apetite;
a Vida é um festim
e tu és o seu piquenique
em dias de sol.

sábado, 24 de setembro de 2011

John Legend - Rolling in the Deep (Adele cover)

O

O que é bom multiplica-se sob várias formas,
mantendo a mesma beleza.


O Amor são balões largados ao capricho do céu:
alguns não resistem ao sopro de um vento desconhecido.
Outros sobrevivem até conquistarem o sítio
para lá das nuvens e da turbulência.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Não se deve ter medo de amar perdidamente.
Porque, quem assim ama e assim se deixa perder
acaba, no fim, por se encontrar.

Imagem in http://mundoencantadosz.blogspot.com/
Há que semear o próprio chão, lavrar os sonhos,
Amar mais que ninguém a própria terra
E depositar a esperança de bons frutos
Na força dos seus braços e anseios;
Cabe-nos a nós regar, cuidar.
Esperar ver nascer uma boa colheita
Através dos olhos alheios
Tem como resultado um chão sedento
E uma flor sozinha,
De pétalas vazias.

Tatuagem

Uma tatuagem é um grito silencioso de vaidade, ou de amor, ou de raiva,
Um simbolismo para o que vai na alma.
Há quem se espante com a entrega voluntária ao sofrimento da mutilação embelezada da pele.
Mas todos fazemos tatuagens, sem excepção:
fazemo-lo a cada vez que nos entregamos e mergulhamos de cabeça nos braços da Vida, sem medo de não sermos agarrados, de cair no desamparo dos joelhos, e correndo o risco de ficar com cicatrizes eternas.
Mas quem não tatua a alma não vive;
A epiderme e a agulha são apenas uma das muitas formas de exorcizar o que vai cá dentro.

sábado, 10 de setembro de 2011

És o farol no mar do meu céu
por vezes menos azul...
E levas-me a um caminho para lá das nuvens;
contigo, nunca perco o norte.
"Apesar das ruínas e da morte
onde sempre acabou cada ilusão
a força dos meus sonhos é tão forte
que de tudo renasce a exaltação
e nunca as minhas mãos ficam vazias"

Sophia de Mello Breyner
‎"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."

Fernando Pessoa

Para Sempre, Hoje

Imagem in http://jdlibertino.blogspot.com

Posso sonhar-te na brancura de um papel
e escrever-te pela minha mão?
Posso amar-te sem regras
e "só porque sim"?
Posso fingir amar-te para sempre?
é que o "sempre" requer esta vida
e as outras por vir.
Mas as vidas que são novas
trazem um novo olhar e 
um novo sentir...
Por isso vamos fingir que este momento
é a nossa eternidade,
beija-me sem horas e vamos, 
só agora,
ser felizes para sempre...
e amar-nos "porque sim"!
E, entre o ontem e o amanhã,
vivemos a plenitude do agora.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Sentido de Vida

É preciso, é preciso encontrar
o caminho, o trilho, o sentido
do destino que há cá dentro.
É uma busca, é uma sede,
é uma coisa que não tem nome,
sabe a Tempo velho e
arde lentamente, como ferida latente...
É preciso, é preciso encontrar
o mapa para o tesouro que há em nós
e que espera, e que é paciente,
desafiando as precipitações
do Tempo.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A Janela dos Sentidos

Imagem in http://divinaescrita.blogspot.com

Existia uma janela.
A janela tinha um parapeito com cheiro a flores e água fresca.
E, à janela, vivia um homem todos os minutos dos seus dias inteiros.
Nela ouvia o sol a nascer, sempre à hora em que os pássaros cantavam um novo dia e pés pequenos atravessavam a rua, no ritmo preguiçoso de quem vai para a escola: já soava agora o toque familiar da hora do abecedário. Depois, chorava uma criança, e lá ia a mãe empurrando o carrinho de bebé equilibrada no salto alto, orgulhosa de sua cria, até chegar ao outro lado do passeio. Pouco depois, o som de um autocarro ao longe. Sabia que estava cheio de pessoas já cansadas ainda rumo ao trabalho, pois assim lho diziam os minutos que ela ficava, paciente, à espera na paragem.
O almoço também não variava na hora, mas sim nos aromas que lhe apresentavam sabores diferentes a cada dia da semana: o mundo podia ser doce, salgado, vagamente aromatizado...e a tarde cheirava a lençois lavados e cantava as molas que caíam pelo chão.
Na janela ele sentia o vento que lhe falava no rumorejar das árvores em fins de tarde, quando o sol se punha e o céu era cor das rosas a desabrochar ouvia ele dizer, quando as vizinhas falavam em conversa de rotina na berma da rua.
Nela também contava as gargalhadas de crianças soltas e já sem horas, e as vezes que a bola batia no muro à sombra, do lado em que o dia morria.
Chegava então a aragem fria do recolher, enquanto cheirava a sopa e pão quente do lado de dentro do  seu mundo. Era a hora de fechar as portadas e deixar-se guiar pelas mãos até à mesa de cozinha, onde outras já haviam posto os pratos e talheres. Sorria. E, tal como ao mundo lá fora, olhava para a sua mulher com os olhos da alma, saboreando com todos os sentidos que tinha aquilo que não conseguia ver com os seus olhos cegos.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

The Garden


Imagem in pixabay.com


Morde o céu do meu desespero
com ânsia de boca enraivecida 
leva na palma das mãos o rio dos meus olhos;
faz do meu deserto um jardim 
que ainda não sonho,
e oferece-me com
os olhos
todas as flores
do mundo.
Somos apenas um nada
se não percebermos que aquilo que temos dentro
é que é tudo.
Para lá de nós o
que resta é matéria que
também não resistirá à
voracidade do Tempo.