quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Para ti Zork
Era uma vez uma princesa que não sabia que o era. Estava presa no alto de um castelo, feito de insegurança e pouco amor-próprio. Esta princesa via o mundo com olhos diferentes, olhos de pureza, de magia e amor, e o seu horizonte não era só uma linha, era borboletas e dedos entrelaçados, era um cavalo branco com a felicidade nele montada...esta princesa era doce, talentosa, e apesar de sozinha na torre nunca o estava verdadeiramente, o seu mundo interior era imensamente povoado, rico em sentimentos e talentos, sorrisos, mimos, papelinhos, e um desejo enorme em ser melhor, em crescer, em ser Mulher. Infelizmente a princesa não tinha um espelho, não o espelho mágico mas o da realidade, o que lhe mostraria a sua beleza, o seu sorriso único, o seu encanto, a sua força, o seu eu tão especial e, principalmente, o seu coração de amor a transbordar, o seu potencial, a sua capacidade de amar, amar, amar...amar a si própria...porque o que a princesa ainda não sabe é que ela é o seu próprio cavaleiro andante, a única capaz de derrubar paredes e abrir caminho. E, quando esse momento chegar, o horizonte será já ali com muito mais para oferecer que borboletas e dedos entrelaçados...mais haverá para lá dele, e a felicidade será o caminho percorrido até à chegada.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Lobo Mau do Novo Milénio
Quem de nós não recorda com ternura as histórias da nossa infância, povoadas de fadas e espadas, navios de piratas e meninos voadores, princípes e princesas, animais faladores e casinhas de chocolate...? E quem de nós não perdeu o sono com as personagens malévolas, as maçãs envenenadas, as árvores na floresta com ramos ameaçadores, e bruxas de mão no caldeirão, conspirando e alimentando a imaginação fértil de quem devorava as páginas dos livros com dedos pequeninos...?
Agora somos adultos e a magia pelas histórias de meninice esfumou-se com o tempo, como um cigarro que vai ardendo lentamente...agora criamos um novo mundo de fantasia, com personagens tão ou mais férteis...hoje em dia existem princesas por um dia, um dia sumptuoso que se quer eterno, e essas princesas sonham que encontraram o principe encantado, e que este a vai resgatar para um reino encantado...mas depois vem a bruxa má chamada realidade, que traz consigo filhos hiperactivos, contas para pagar, monotonia, e muitas vezes o amor das histórias de infância traduz-se num número apurado no processo de divórcio. Outras vezes não, existem de facto finais felizes, mas muito mais suados e sacrificados.
Existem também as Rainhas Más da Branca de Neve, que só têm olhos para o seu próprio reflexo, que vasculham a noite numa fome insaciável, numa procura eterna da felicidade fácil e do elixir da juventude...
Depois temos as Capuchinhos Vermelho, que sentem aquele arrepio na espinha de serem perseguidas, um prazer perverso de ouvir os passos do perigo a aproximarem-se sorrateiramente...Vestem o capucho, mas por baixo do ar assustado e inocente esconde-se uma lingerie preta com cinto de ligas, não vá não conseguir escapar das garras do predador...e, caso isso aconteça, que seja com estilo e a depilação feita! Por fim, temos a personagem que mais recalcada ficou na mente de muitas criancinhas: o Lobo Mau!!! Agora o Lobo Mau é ainda mais bem falante, tem o pêlo mais bem cuidado, é um lobo metrossexual. E, de mansinho, pergunta sorrateiramente com voz doce e desinteressada: "Dás-me o teu MSN...?" - "Para quê?" - "Para te ver e ouvir melhor...". Isto, é claro, numa forma muito mais sofisticada, com a vantagem técnica das webcams e afins...Mas, em última análise, só morde se a Capuchinho deixar...porque o Lobo Mau do novo milénio é muito mais subtil. E muito mais perigoso. Felizmente há quem dê ouvidos ao seu grilo falante e consiga criar a sua história com um final feliz.
Depois temos as Capuchinhos Vermelho, que sentem aquele arrepio na espinha de serem perseguidas, um prazer perverso de ouvir os passos do perigo a aproximarem-se sorrateiramente...Vestem o capucho, mas por baixo do ar assustado e inocente esconde-se uma lingerie preta com cinto de ligas, não vá não conseguir escapar das garras do predador...e, caso isso aconteça, que seja com estilo e a depilação feita! Por fim, temos a personagem que mais recalcada ficou na mente de muitas criancinhas: o Lobo Mau!!! Agora o Lobo Mau é ainda mais bem falante, tem o pêlo mais bem cuidado, é um lobo metrossexual. E, de mansinho, pergunta sorrateiramente com voz doce e desinteressada: "Dás-me o teu MSN...?" - "Para quê?" - "Para te ver e ouvir melhor...". Isto, é claro, numa forma muito mais sofisticada, com a vantagem técnica das webcams e afins...Mas, em última análise, só morde se a Capuchinho deixar...porque o Lobo Mau do novo milénio é muito mais subtil. E muito mais perigoso. Felizmente há quem dê ouvidos ao seu grilo falante e consiga criar a sua história com um final feliz.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Pausa
Há noites em que não apetece pensar, deixar-me inspirar, para depois despejar nas teclas uma mão cheia de palavras bonitas...há noites em que apenas apetece o recostar na cadeira, devagar e preguiçosamente, e sentir o gato a deslizar pelos meus pés até se ir enrolar em si próprio mais ali à frente, ouvir no quarto ao lado a respiração de um filho finalmente cansado, pegar numa caneca de café a fumegar, acender o cigarro da praxe e deixar-me assim ficar, sem pensar em nada, só a sentir...e a ouvir...a apreciar...
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Tropecei no Tempo Que resta
Vasculhava a gaveta, adoro remexer nos meus papéis, delicio-me com a ordem da minha desordem e de tropeçar em coisas já esquecidas, seja uma fotografia ou um poema de alma dorida de adolescente...e encontro este texto intenso, apaixonado, iluminado de Paulo Geraldo. Não tenho memória de alguma vez me ter deliciado com a sua leitura, pois seria ímpossivel esquecer-me disto...uma mensagem dura de esperança sobre o crescimento e o seu doloroso caminho. Porque só quem reconhece o seu rosto no meio da própria escuridão pode dar o passo em frente para se tornar melhor.
O TEMPO QUE NOS RESTA
De súbito sabemos que já é tarde.
"Quando a luz se faz outra, quando os ramos da árvore que somos soltam folhas e o sangue que tínhamos não arde como ardia, sabemos que viemos e que vamos.Que não será aqui a nossa festa.
De súbito chegamos a saber que andávamos sozinhos. De súbito vemos sem sombra alguma que não existe aquilo em que nos apoiávamos. A solidão deixou de ser um nome apenas. Tocamo-la, empurra-nos e agride-nos. Dói. Dói tanto! E parece-nos que há um mundo inteiro a gritar de dor, e que à nossa volta quase todos sofrem e são sós.
Temos de ter, necessariamente, uma alma. Se não, onde se alojaria este frio que não está no corpo?
Rimos e sabemos que não é verdade. Falamos e sabemos que não somos nós quem fala. Já não acreditamos naquilo que todos dizem. Os jornais caem-nos das mãos. Sabemos que aquilo que todos fazem conduz ao vazio que todos têm.
Poderíamos continuar adormecidos, distraídos, entretidos. Como os outros. Mas naquele momento vemos com clareza que tudo terá de ser diferente. Que teremos de fazer qualquer coisa semelhante a levantarmo-nos de um charco. Qualquer coisa como empreender uma viagem até ao castelo distante onde temos uma herança de nobreza a receber.
O tempo que nos resta é de aventura. E temos de andar depressa. Não sabemos se esse tempo que ainda temos é bastante.
E de súbito descobrimos que temos de escolher aquilo que antes havíamos desprezado. Há uma imensa fome de verdade a gritar sem ruído, uma vontade grande de não mais ter medo, o reconhecimento de que é preciso baixar a fronte e pedir ajuda. E perguntar o caminho.
Ficamos a saber que pouco se aproveita de tudo o que fizemos, de tudo o que nos deram, de tudo o que conseguimos. E há um poema que devíamos ter dito e não dissemos, a morder a recordação dos nossos gestos. As mãos, vazias, tristemente caídas ao longo do corpo. Mãos talvez sujas. Sujas talvez de dores alheias.
E o fundo de nós vomita para diante do nosso olhar aquelas coisas que fizemos e tínhamos tentado esquecer. São, algumas delas, figuras monstruosas, muito negras, que se agitam numa dança animalesca. Não as queremos, mas estão cá dentro. são obra nossa.
Detestarmo-nos a nós mesmos é bastante mais fácil do que parece, mas sabemos que também isso é um ponto da viagem e que não nos podemos deter aí.
Agora o tempo que nos resta deve ser povoado de espingardas. Lutar contra nós mesmos era o que devíamos ter aprendido desde o início. Todo o tempo deve ser agora de coragem. De combate. Os nossos direitos, o conforto e a segurança? Deixem-nos rir...Já não caímos nisso! Doravante o tempo é de buscar deveres dos bons. De complicar a vida. De dar até que comece a doer-nos.
E, depois, continuar até que doa mais. Até que doa tudo. Não queremos perder nem mais uma gota de alegria, nem mais um fio de sol na alma, nem mais um instante do tempo que nos resta."
PAULO GERALDO
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Primavera dourada
Chegou o Outono. É uma das minhas estações do ano preferidas, não só pelas suas cores e cheiros, mas também pelo aconchego que traz consigo. Falávamos no outro dia, eu e colegas minhas, sobre as saudades da roupa quente e das botas, do cheiro a castanhas assadas e do cansaço transpirado que temos do excesso de calor.
Isto fez-me sentir a nostalgia que o Outono sempre me traz, mas uma nostalgia alegre e promissora. Outono para mim é o calor da manta no sofá, é o consumo de videoclube e de pipocas caseiras, é o abraço que apetece porque “anda cá que está a ficar frio”, é o banho a escaldar…são as meias nos pés e o casaco de lã, é o aroma de erva doce e o sabor da castanha na língua a queimar, é a dança leve das folhas cor de terra, embaladas na canção do vento, preguiçosas pelo chão…Outono é calmaria, é reflexão, é respirar fundo, é a languidez na cama debaixo do edredão, é um dormir abraçado…assim bem apertado!, e pés enrolados…é um copo de leite quente e torradas ao lanche, é sopa a ferver, é o cachecol que envolve, é o passeio a Belém e o pastel morno a escorrer, é o forno a lenha, são amigos à mesa, é o gato no colo a ronronar, é o frio que vem de mansinho e que aquece o coração…
O Outono representa sempre o fim de um ciclo, o acabar das euforias e das ilusões efémeras, e o inicio de um olhar ao espelho, de uma introspecção…é o abrir caminho para uma nova etapa, uma descoberta…o Outono não é a queda da folha, não é a sua morte…é sim uma renovação.
Isto fez-me sentir a nostalgia que o Outono sempre me traz, mas uma nostalgia alegre e promissora. Outono para mim é o calor da manta no sofá, é o consumo de videoclube e de pipocas caseiras, é o abraço que apetece porque “anda cá que está a ficar frio”, é o banho a escaldar…são as meias nos pés e o casaco de lã, é o aroma de erva doce e o sabor da castanha na língua a queimar, é a dança leve das folhas cor de terra, embaladas na canção do vento, preguiçosas pelo chão…Outono é calmaria, é reflexão, é respirar fundo, é a languidez na cama debaixo do edredão, é um dormir abraçado…assim bem apertado!, e pés enrolados…é um copo de leite quente e torradas ao lanche, é sopa a ferver, é o cachecol que envolve, é o passeio a Belém e o pastel morno a escorrer, é o forno a lenha, são amigos à mesa, é o gato no colo a ronronar, é o frio que vem de mansinho e que aquece o coração…
O Outono representa sempre o fim de um ciclo, o acabar das euforias e das ilusões efémeras, e o inicio de um olhar ao espelho, de uma introspecção…é o abrir caminho para uma nova etapa, uma descoberta…o Outono não é a queda da folha, não é a sua morte…é sim uma renovação.
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