Lá tropecei num passatempo literário! Para variar isso só acontece na reta final, quando dizem "Atenção! Faltam trinta segundos para poder enviar o seu texto!". Bem, pelo menos é assim que me parece, mas devem ser 48 horas, por aí. Ontem à noite, sem sono, decidi rabiscar qualquer coisa.Exigências: formato Word, espaçamento 1.0, e título obrigatório "A Carta". Prosa ou poesia, não sei quantas linhas, mas escrevi poucas. Prémio: massagem ao ego com os textos escolhidos publicados numa compilação de cartas, com o autor identificado. Porque não? E pronto, pijama vestido, pernas cruzadas, portátil no colo, e gata a dormir ao meu lado. Duas da manhã, cérebro activo! Pareceu-me o cenário perfeito! E foi assim que escrevi uma carta, ou me tornei numa:
A Carta
Hoje,
e só hoje, não sou mais que uma carta;
papel
timbrado, cuidadosamente dobrado,
onde
me escrevo apenas para ti.
Dispo-me
do envelope,
de
vergonhas, de boa educação,
e
a ti e em mim mesmo me escrevo;
sou
as mágoas que não te confessei,
sou
hoje as palavras que ontem não te disse,
que
não te gritei, que não te chorei!
Escrevo-te-me
com tinta de raiva,
liberto
as palavras presas que não soube dizer
e
que não tentaste ouvir, nem em mim ler...
Escorrem
no papel das minhas mãos,
como
rios inquietos entre margens sofridas,
as
frases vertiginosas
feitas
de erros ortográficos,
porque
falam dos outros,
dos
erros das rotinas,
das
pequenas mentiras,
da
paz podre
que
abraçamos entre nós em cada noite,
onde
tanto se disse e nada se falou...
Hoje,
para ti, sou uma carta.
“Olá,
como estás?
Espero
que esta carta não te encontre bem”,
porque
eu não estou bem,
nós
não estamos bem!
Nós
não estamos...simplesmente.
Escrevo
e não sei se me lês...
A
tinta secou, a carta acabou.
Vou
dobrar-me cuidadosamente...
embrulhar-me
num envelope
em
que eu sou o remetente.
Mas
não consigo chegar a ti,
já
não conheço o destinatário!
Enquanto
assim te escrevi... não moravas já em mim...