sábado, 19 de outubro de 2013

Voice & Piano


 
Uma voz e um piano: impossível fingir um talento.
Nada de "marteladas" e sons produzidos por mãos ágeis em mesas de mistura.
A qualidade não dá tanto lucro, mas dá muito mais gozo a quem a aprecia...
A emoção entranhada numa letra simples e profunda, sem clichés e previsibilidades...Priceless!
Ouvir over and over...

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Amar de Dentro para Fora



Ela ama-o tanto.
A maioria das pessoas, talvez as que não o conhecem bem, a ele, não entendem aquele amor. Um amor feito de poucas palavras e parcos gestos. Eles não são como os outros casais, que manifestam publicamente o carinho entre eles, seja com as mãos dadas, uma troca de olhares, um beijo fugidio...ele é calado, por vezes de olhar distante, emana uma sensação de contenção auto-imposta o que, normalmente, é encarado como uma postura rígida, embora um tanto misteriosa (não sabem que é um reflexo da sua insegurança, um controle há muito aprendido para se concentrar no que o rodeia). Por vezes destaca-se entre a risota geral de uma piada solta, precisamente por ser o único que não se ri, esboçando, quanto muito, um leve sorriso, num reflexo diplomático (não sabem que ele não entende a graça escondida atrás da subjectividade). Outras vezes afasta-se sem mais nem menos, talvez com modos contidamente bruscos, quando os cigarros se acendem, deixando um rasto de aparente arrogância (não sabem que o cheiro do tabaco, ou de qualquer outra coisa assim intensa, é demasiado ampliado no seu olfacto, até chegar ao ponto de ser insuportável).
As pessoas vêem, de facto, a sua beleza exterior, um homem de aparência sóbria, com uma queda natural, e talvez um pouco monótona, para as cores azuis escuras, cinzentas, brancas e pretas (não sabem que o gosto dele reflecte o desejo de não chamar as atenções), e com um corpo bem definido e trabalhado por rigorosas horas no ginásio, denotando assim que existe ali uma certa vaidade debaixo da aparência da discrição (não sabem que é uma necessidade, uma necessidade de controlo sobre o seu corpo, e de uma rotina que lhe apazigua a mente inquieta). Mas, apesar da beleza física, o que há mais nele para gostar?! Não sai à noite, parece um velho de 70 anos com apenas 30! (não sabem que ele não suporta sons estridentes, nem as multidões, o que faz disparar a ansiedade com que ele se debate desde pequeno). Ah, e não se importa rigorosamente nada que ela saia as vezes que quer, e com quem quer, num desprendimento que mostra total falta de interesse (não sabem que, para ele, o ciúme simplesmente não faz sentido, apenas e só isso). E nem um beijo, nem uma caricia...? Quem quer um homem que nem carinhoso é?! (não sabem que ele não gosta de manifestações publicas de afetos, nem de se sentir agarrado ou beijado só porque sim).
Mas ela sabe de tudo isto no homem que ama. E sabe muito mais coisas que suscitariam ainda maior admiração da parte dos outros: os pequenos gestos e rituais obsessivo-compulsivos; os tiques algo estranhos de alegria ou de tristeza, que são controlados out-door, mas no seu ninho pode ser ele mesmo, pois não é julgado; a sua necessidade de ter horários escritos das tarefas diárias para poder organizar a mente; a insegurança em si mesmo e no juízo que os outros possam fazer da sua pessoa...ela sabe e respeita, pois conhece aquele homem para lá da aparência. Mas também sabe da espontaneidade e do sorriso aberto no circulo acolhedor da casa e da intimidade, do humor e das gargalhadas genuínas. Sente o beijo intenso que não se banaliza em repetições mecânicas. Sabe da preocupação com o seu bem-estar, que não se manifesta em muitas palavras, mas sim em acções. Sabe da honestidade pura, que não se consegue esconder atrás de subjectividades e duplas interpretações, o que lhe transmite uma sensação de segurança que não tivera com ninguém até o conhecer.

Ela ama-o sim, ama as pequenas manias, e os muitos passeios diurnos, arejados, sempre com algo interessante para ver; dos seus vastos conhecimentos sobre os mais variados assuntos, sendo o seu professor privado de cultura geral! Ele é diferente da maioria, e é assim que ela gosta dele. Com cada particularidade do seu mundo interior, tão rico e vasto que nem cabe em si mesmo.
O nome dado a quem vive um mundo interior assim, tão intenso que extravasa numa implosão que só o mesmo percebe, é autismo, que pode ter diversas nuances. Mas isso só lhe diz uma coisa: que ele sabe amar de dentro para fora, e que essa é a forma mais genuína de se querer alguém.