quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Pequeno Conto da Inquietação



 
 
Há pessoas que nascem com a capacidade de já serem felizes, independentemente dos maus acontecimentos que se possam abater sobre elas. Sempre um sorriso, sempre um prazer deleitado nas pequenas coisas, sem inquietação ou tormenta na alma, sem réstia daquela angústia que eu e outros como eu sentimos, numa propensão para ver o lado feio das coisas, apesar de me comover com a simples beleza de uma folha a dançar ao vento, num abandono outonal.

Deve ser bom ser assim, viver assim, como se por cá se andasse numa inconsciência do real sentido das coisas, e até se acreditasse no fundo que os unicórnios devem existir só que ainda não foram descobertos, e que o cão e o gato começam a conversar nas nossas costas quando nos ausentamos da sala: um permanente conto de fadas adaptado aos tempos modernos...

Pois eu não fui abençoado dessa forma! Tenho consciência de mim mesmo desde muito cedo, e do lado obscuro do mundo. Não que tivesse tido uma daquelas infâncias saídas de um livro de Dickens, não!mas parece que tenho um talento natural para ver para lá das caras, a intenção por trás das palavras simpáticas e dos olhares. Tive uma infância feita de dificuldades e carências emocionais, e pequenos nadas ficaram registados na minha mente, indicadores do carácter humano e de como, no fundo, somos todos um pouco iguais. Retirei muitos exemplos, mais do que não queria ser e fazer, do que o contrário. Fui só, bastante só, primeiro porque as circunstâncias assim o obrigaram, e depois porque me moldei a elas. Habituei-me a falar sozinho, a remoer os meus medos e inseguranças e a tentar ultrapassá-los, sempre no ninho da minha solidão. Minto, não de todo só, uma certa tristeza e melancolia acompanharam-me sempre com o seu abraço familiar em momentos, esses sim, dignos de Dickens, como acordar ao nascer do sol e perceber que a minha mãe já não estava, saíra para trabalhar, e eu chorava a minha solidão infantil, sentindo-me completamente desamparado. Querem coisa mais deprimente que isto? Bem, talvez arranjasse, mas não vale a pena. Continuemos então!
 
 
A escola. Pois, o caminho para a escola era a via sacra. Sentia-me deslocado, era gozado por alguns colegas mas eu fingia não ligar, porque descobrira que assim eles perdiam o interesse. E nunca ninguém deu pelas minhas dores de alma. Fiz amigos, não fui mau aluno, destacando-me em algumas coisas e sendo muito esforçado nas outras, sempre com um grande sentido de dever a ser cumprido. Ah, e sempre com um sorriso na cara, porque descobri que isso facilita tudo e disfarça muito bem o íntimo. Especialmente quando os meus colegas iam comprar isto e aquilo para comer e eu, invariavelmente, limitava-me a fazer companhia e a dizer (com um sorriso) “não tenho fome nenhuma”. Também assim o foi para certas viagens de estudo ou não, que tinham que ser pagas, e eu nunca podia porque naturalmente tinha ocupações muito mais interessantes, como por exemplo ler um livro no meu quarto, mas essa parte era convenientemente omitida porque ia parecer uma coisa tão triste e nada adequada a um jovem estudante! Aprendi também a controlar muito bem certos movimentos espontâneos, como esticar as pernas descontraidamente. Seria embaraçoso verem o belo do buraco na sola dos ténis. Aí não poderia invocar nada que fizesse sentido, especialmente em dias de chuva. Mas sempre um sorriso, mesmo com os pés gelados. Ninguém deu pelas minhas dores de alma, nem dos pés!
 
Assim passei pela adolescência, sempre com um ar educado e simpático, cumpridor dos meus deveres, até mesmo dos mais aborrecidos porque o que tem de ser tem muita força não é? Tinha os meus pequenos prazeres, comovia-me com pequenas coisas e via beleza em tantas outras. No entanto a inquietação cá dentro aumentava. Ficava horrorizado com as noticias do mundo: a fome, as guerras, as violações dos direitos humanos, a inconsciência ecológica crescente, um planeta em sofrimento, os animais que entravam em extinção, os animais de rua que se multiplicavam, os abandonos, o vizinho que batia na mulher, as crianças que apanhavam como a mãe...tudo, tudo uma agonia que não me deixava ter aquela alegria borbulhante, levando-me a pensar muitas vezes que raio andamos cá a fazer... Era uma dor de alma que ninguém via, porque era “tão educado e amigo da mãe, uma raridade nos tempos que correm!”.

Agora sou uma pessoa adulta. Tenho amigos, uns que o são para mim no verdadeiro sentido dessa palavra, e outros sei que nem tanto; um trabalho, conveniente e no qual não me sinto realizado; pago as minhas contas e não vivo de forma folgada, mas sim um pouco remediada; sou normalmente considerado simpático, com um excelente senso de humor, negro q.b., dizem que sou interessante e até concordo porque bonito não me considero, mas o charme é algo inerente a mim, talvez porque saiba respeitar uma mulher, embora não tenha conseguido conviver com o casamento; sou um pai atento e dedicado, adoro animais, e sou literalmente incapaz de matar uma mosca; tenho a capacidade de melhorar o humor das pessoas, dou excelentes conselhos e transmito ideias positivas.

Pensando na opinião generalizada que têm sobre a minha pessoa, sou considerado um bom ser humano, inspirador e excelente amigo. Que bom. Mas ninguém vê as minhas dores de alma. Será que se escandalizavam se soubessem que eu, a pessoa enérgica e otimista, penso tantas vezes que a morte pode ser um grande alívio? Não, nunca pensei nisto em termos suicidas, nem nunca tive nenhuma depressão não! E quando penso que posso morrer amanhã, não me parece nada bem. Mas não sinto nostalgia da infância, nem da adolescência (nesse especto tenho uma grande vantagem em relação aos saudosistas, que se tornam patéticos),nem me assusta a ideia de que os anos passam depressa em direção à reforma. E lembro-me de pensar assim desde pequeno. Porque apesar de ser o funcionário talvez mais bem-disposto, o pai jovial, o amigo sempre pronto para as saídas divertidas, sinto em mim um certo enfado, como se tudo fosse uma obrigação, como se fosse obrigado a ser assim, preso num sistema que nos obriga a gestos mecânicos e socialmente bem aceites. Mas só eu é que sei isto..
 

Pensei em partir para um lugar remoto, rural, onde os dias escorram de forma pacífica sem grandes solicitações nem exigências sociais e laborais, onde a crueldade do mundo ainda não chegou. Mas isso não será fugir? E será que se consegue fugir de dentro de si mesmo? Será que não me surgirão novas inquietações? Provavelmente sim. Talvez o melhor seja levantar-me agora da cama, ensaiar o sorriso, vestir o fato, fazer o habitual e irrepreensível nó na gravata, e sair para a rua. Apanhar o sol matinal que é sempre prometedor, apreciar os pequenos prazeres do dia-a-dia, aquele cafézinho a meio da manhã, o cigarro da praxe, o trabalho reconfortantemente repetitivo, e aquela alegria do relógio a bater as cinco da tarde...não pode ser assim tão mau não é? A rotina amansa as dores da alma, e qualquer dia não dou por elas. Tenho esperança disso. Por vezes dou por mim a olhar para as pessoas que me rodeiam, e a pensar se elas também as têm, essas dores invisíveis? Talvez sim, talvez não. Nunca saberei. Mas certamente não serei o único bom mentiroso a andar por cá, a fingir ser feliz. E de tanto fingir um dia acredita-se!

Corte & Costura

 
 
 
O tema em moda ultimamente tem sido, lá está! a Moda. Sempre presente nas nossas vidas, ganhou uma nova intensidade na semana da Moda Lisboa, evento cada vez mais nas luzes da ribalta iluminando as estrelas da passerelle, e mais importantes ainda, as estrelas fora dela.
Cada desfile é temático, e não importa propriamente o trapinho que se veste mas sim a mensagem que se quer transmitir, as épocas que se querem recuperar, as ideologias que se querem afirmar através da costura de uma bainha, de um botão de punho ou adorno nunca antes visto.
O espetáculo de moda é o espetáculo das luzes, dos sons na berra, das vaidades da plateia, do aparecer e ser visto, de preferência sob um holofote, de marcar a presença no espaço fotográfico, numa vertigem glamourosa de coiffure, make-up, curvas em haute coutureManolo Blahnik e Jimmy Choo em passos ensaiados de red carpet...
 

Tudo faz parte do show, em que tudo o que menos importa é o lado prático da coisa, pois o objetivo não é bem o conforto e o dia-a-dia de uma pessoa comum... O que me remete a um programa que já teve a última temporada, mas que considero de verdadeiro serviço público, uma vez que ajudam pessoas, referenciadas pela família ou amigos, a mudarem o seu visual, sendo este adequado à personalidade de cada um, e usados de forma inteligente cores padrões e formas, fomentando a autoestima de uma mulher ou homem que se deslumbram perante o reflexo de si mesmos no espelho, quase como se estivessem a ser apresentados ao seu eu naquele momento. E nós, espectadores, ficamos também deslumbrados, pensando que a pessoa realmente fica mais bonita com aquele makeover, mas acima de tudo com uma nova postura, uma beleza que vem de dentro para fora, que ilumina olhos, cabelo, pele, endireita as costas e traz consigo um novo sorriso. Muito subtilmente os dois apresentadores de What Not to Wear fazem como que uma terapia às fragilidades e inseguranças da pessoa, ao mesmo tempo que ensinam a acentuar a cintura que não se via e que, afinal!existia, ou mostram que existem umas pernas dignas de se ver, embora também possam ensinar que "mais é menos" àquelas mulheres que tentam compensar a passagem do tempo expondo mais pele e transmitindo uma ideia errada (e sim!vê-se muito...)
E novamente nós, enquanto espectadores, damos por nós a sentir uma identificação com os erros de moda e as fragilidades alheias e a pensar que aquela pessoa, a vestir dois ou três tamanhos acima do que é considerado beleza nos dias de hoje (e, Deus nos livre, nunca na vida com lugar numa passerelle!), é uma pessoa linda, porque é que se sentia feia ou o que seja?! E olhamos para nós mesmos numa epifania...pois é, se calhar sofremos todos do mesmo mal! Stacey & London, com a sua química, bom humor e mão de ferro, fazem pelos meros mortais o que um desfile de moda não faria, sem dúvida alguma!

 
A minha opinião pode ser considerada pirosa e not fashion, e talvez até transmita a ideia que não gosto de trapos, o que não é verdade, na adolescência cheguei a criar a minha própria roupa e costurei-a com as minhas próprias mãos...! porque para mim moda é isto, é uma coisa que nos deve fazer sentir bem, dar conforto e segurança em nós mesmos, tem que ser algo exequível para a nossa realidade. Encarando e valorizando certa moda como uma mera obra de arte, com utilidade apenas no corpo de uma modelo, para contemplação somente, eu prefiro outro tipo de artes: ir a um museu, a uma sala de teatro, ou apreciar o espetáculo da natureza num passeio de inverno na praia, ou no Outono pelo campo... tudo isto é arte, e cada ocasião tem para si reservada um modelito apropriado! Podem não ter as tais das 86-60-86...mas caramba!ficam-me bem!



segunda-feira, 27 de outubro de 2014

It's a Kind of Magic


 
Hoje é o Dia Mundial da Biblioteca Escolar. Eu não saberia, sou sincera, se não tivesse hoje vindo um grupo de alunos da escola primária do lado, com textos na mão, acompanhados por duas professoras, para fazerem uma atividade entre gerações com os utentes do meu local de trabalho.


Foram lidos textos e poemas, dominados pelo tema da velhice e oferecidos moinhos de vento feitos por mãos pequenas, com rolhas de cortiça, papel, palhinhas de plástico e pioneses, pintados com as cores alegres da infância e com frases escritas…”A biblioteca é a casa dos livros e da imaginação”, “A biblioteca é uma casa onde cabe toda a gente”…

Tirei fotografias ao pequeno evento e fui também uma espectadora, no meio caminho entre os idosos e as crianças, sentindo-me ainda menina e já vendo um futuro que parecia tão longe quando acreditamos que a juventude é eterna. Dei por mim comovida ao ver aqueles pequeninos, a recitar em palavras engasgadas algumas das coisas escritas por eles mesmos. Lembrei-me da paixão que tinha pela biblioteca da escola. E apercebi-me hoje mesmo da importância que podem ter na vida de muitas crianças, especialmente das que amam ler e fazem uma autêntica viagem onde tudo é possível. Claro que quando eu era pequena tínhamos menos tecnologias e afins, mas a biblioteca tem uma magia que ninguém lhe pode tirar. Ainda este fim-de-semana que passou fui lá fazer a visita habitual; fazemos um passeio familiar até lá chegarmos, e depois dividimo-nos pelos nossos interesses individuais. Podemos requisitar filmes, livros, cd’s, jogos, ou podemos ali mesmo passar tempo com jogos de tabuleiro (como vi um pai e uma filha fazerem, o que me deliciou), com os tais filmes e jogos, navegar na internet ou simplesmente escolher um dos muitos sofás e ali ficar a folhear um livro ou uma revista. É pacífico. É mágico, com uma extensa vista para o rio, até chegar ao abraço do Cristo Rei. Esta é a minha biblioteca agora. Mas este espaço mágico já foi o da escola. Aquela ansiedade que antecedia a leitura de um livro era mais do que um simples folhear, era fazer as malas e preparar-me para viagens fantásticas, cada uma diferente da outra, todas a ensinarem-me qualquer coisa, a levarem-me por emoções e sítios novos dentro de mim…

Ainda nos dias de hoje têm essa capacidade, os livros. Circulando pelos corredores olhei para uma estante que não é habitual, e a lombada de um livro atrevido chamou por mim. Isto depois de ter dado voltas e voltas com os mais diferentes livros na mão, mas sem me conseguir decidir! E ele levou-me para casa, sem mais nem menos. Obrigou-me a lê-lo em menos de 24 horas, algo que não acontecia há anos. Talvez porque ainda não tivesse sido preciso até agora. E esta voragem de leitura, esta viagem numa história que, curiosamente, falava da magia da vida, trouxe-me um sossego à alma e uma calmaria que tanto necessito no meu espírito. Será magia…?

E assim hoje, enquanto ouvia aqueles meninos a lerem, pensava que uma biblioteca pode até mesmo salvar vidas, é um espaço que pode resgatar uma criança da solidão, abrir-lhe os horizontes da sua realidade mais triste, dar cor aos seus sonhos, e transmitir a capacidade de ver magia nos pequenos pormenores, nos pequenos momentos,…uma biblioteca pode salvá-la de uma vida mais cinzenta, mais estéril, feita de caminhos mais sombrios.

E, tal como concluiu hoje a senhora professora, dirigindo-se aos nossos utentes “nunca envelhecemos se conseguirmos sempre ver a beleza das coisas”. Aqueles pequeninos não perceberam talvez estas palavras, porque ainda são eternos…Mas eu não só as percebi como também as senti, e prometi à menina que há em mim nunca esquecer a magia, a dos livros e a da vida.
(Not the End)


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

(Real)mente...

 

 
O original deste texto é escrito num papel, de caneta na mão, à boa moda antiga. O regresso às raízes suponho!, numa necessidade que se faz sentir um pouco por todo o lado, nas modas vintage, nos postcrossing e bookcrossing, e eteceteras. Na era da tecnologia vamos sentindo que esta nos domina, em vez de ser um auxiliar. Por exemplo, as redes sociais: as pessoas vão-se embrenhando de tal maneira nelas que acabam por criar vidas alternativas. Não literalmente (espero eu, embora tenha as minhas dúvidas) mas em pequenas coisas, com a finalidade de projectar uma vida mais perfeita, mais virtuosa ou o inverso, consoante as carências pessoais. Vêem-se sorrisos e manifestações de alegria que o não são tanto na realidade, predominando a necessidade de demonstrar que se é muito, tão feliz!quando, na verdade, são mais os sorrisos para a câmera fotográfica do que entre as pessoas e os seus olhares; com os filtros as peles ficam com uma aparência sedosa e imaculada, e a mesma foto é tirada vezes sem conta, até se atingir o melhor ângulo, o melhor de nós mesmos para mostrar aos outros, embora seja mais o que se mostra do que o melhor que, efectivamente, se dá. As saudades da familia e amigos distantes, os “Love you” ilustrados com bonecos mimosos, que proliferam numa manifestação online, não são obrigatoriamente o que se manifesta ao vivo e a cores, e o tempo real não é tão partilhado quando surge a oportunidade de realmente o fazer e viver, no mundo verdadeiro dos afetos e dos sentimentos...E a dor, esse sentimento tão íntimo, manifesta-se de forma exuberante, como a alegria, numa estranha espera de ouvir um retorno de quem não se conhece. Porque talvez, não se queira ou não se saiba pedir ajuda a quem talvez a possa dar sem testemunhos virtuais de terceiros.

Também se partilham revoltas e filosofias de vida (na teoria, a maioria), em diretas ou indiretas que se deixam no ciberespaço, num rancor de lixo tóxico imortalizado na rede, mesmo quando “se parte pra outra”; mas todos ou quase todos o fazem ou seja, andam todos a queixar-se do mesmo, forte indício que a natureza humana tem mais ou menos a mesma essência, todos procuram o mesmo em timings diferentes, e todos os telhados são de vidro quando se arremessam pedras, ou neste caso, posts azedos.

Partilham-se sem pudores imagens escabrosas de maus tratos a seres humanos e a animais, acompanhados de discursos inflamados de revolta...o despertar de consciências nunca fez mal a ninguém, concordo!eu própria partilho se achar necessário, mas temos que ser coerentes com a vida real onde, infelizmente dá mais trabalho estender a mão a quem precisa, e onde há uma certa vergonha em alimentar um animal esfomeado no meio da rua. Infinitamente mais fácil, é partilhar uma fotografia e voilá!contribuição pessoal para a sociedade bem sucedida! Contradições estranhas...que me fazem sentir alguma pena de quem perde tempo precioso da vida a fingir que a vive. Não vou ser hipócrita nem moralista: também gosto de navegar, de partilhar coisas úteis ou apenas fúteis, porque a vida é feita de um pouco de tudo. Gosto igualmente de partilhar, aqui as minhas ideias, mesmo que não interessem a ninguém: é um prazer egocêntrico talvez!? E gosto também de ler outras ideias que não as minhas, evidentemente. Gosto das tecnologias! Mas como auxiliares, e não como um vício que me domina, embora tenha andado perigosamente perto de necessitar da minha dose diária, dependência que se insinua sem darmos por ela. Limitei o meu tempo de navegação e invisto nas viagens mágicas das páginas de um livro, ou deixo-me ir ao sabor de uma caneta, o melhor remédio para a febre que também me atingiu como ser humanamente imperfeito e curioso que sou, mas da qual me recuperei, o que me deixa muito satisfeita comigo mesma ou, utilizando uma linguagem que já se tornou universal, e que será entendida em qualquer ponto do planeta:

Inês likes this – feeling proud of herself!

O Tal do Sistema



Este é o país das exigências e das não-soluções associadas a elas. É obrigatório isto e aquilo, mas as condições para o fazer não são da responsabilidade de quem o exige, o que eu acho uma grande ironia!

Um exemplo de que vou falar, talvez por tanto me sensibilizar, é o da educação. Até há uns anos atrás a escolaridade era obrigatória até aos 16 anos. Com essa idade já não se obrigava um jovem a investir naquilo que não queria, nem a gastar recursos dos pais e do estado. Era permitido trabalhar, com o devido consentimento dos pais ou tutores. Mais tarde poderia recuperar o estudo de uma forma mais madura e motivada. Agora não! Agora um jovem com 16 ou 17 anos não tem a capacidade de escolha que um de 18, o que faz todo o sentido porque é do conhecimento geral que alguns meses transformam a a mente e o espírito de uma pessoa não é? Portanto, a escolaridade obrigatória passou a ser o 12º ano, ou pelo menos até à maioridade, independentemente de não haver produtividade. Os jovens podem até andar a passear os livros, a faltar de forma alternada, mas o que importa é que não integrem a estatística do abandono escolar, porque queremos equiparar-nos a outros países, somos pequenos mas grandes!claro que o custo dos livros e de todo o material escolar fica a cargo dos pais, não obstante o baixo rendimento familiar compensado por abonos vergonhosos, mas isso são pormenores que não fazem grande diferença, os números mais importantes são os do cofre de estado...

Agora, vamos falar daqueles alunos que são obrigados a andar os tais anos na escola, com baixo rendimento escolar, repetindo ano após ano por terem dificuldades de aprendizagem ou outra condição que os obriga a integrar o ensino especial, que de especial só tem o nome, e a diferença que se nota é na descriminação. Se procuram outras vias, não as encontram, condicionados pela idade ou pela escolaridade obtida à data. Mas têm que ir à escola. Vão perder o ano, sofrer com a diferença porque são alunos crescidos a frequentar o básico? Têm que ir à escola. Mas está legislado que pode ter ensino doméstico, é um direito que assiste aos pais dar ao seu filho o ensino que considera adequado. Ah, não se meta nisso, está legislado mas põem tanto entraves que nunca mais se resolve...e ele tem que ir à escola. Mas ele não quer desistir da formação, quer ser alguém na vida, por ali é que não consegue. Não há outro caminho?! Não... E tem de ir à escola! Mas, mas...não importa a boa vontade do técnico que, off the record, concorda e partilha com a revolta de quem pede ajuda. Estamos presos num sistema. Ele domina-nos. E quem quer educar o seu filho da forma que o sistema, esse monstro invisível esmagador de sonhos, não prevê, pode ainda ter grandes problemas.

Uma nota importante neste meu texto: eu falo de ensino público. Porque o sistema pode não ter soluções, mas o óleo que faz funcionar a engrenagem chama-se dinheiro. E com dinheiro o ensino especial torna-se mesmo especial. E o mundo é um lugar fantástico e cheio de oportunidades! Para quem é pobre, o mundo não deixa de ter oportunidades, mas só se conseguem aproveitar além-fronteiras: este país não é para velhos... e nem para jovens!