O original deste texto é
escrito num papel, de caneta na mão, à boa moda antiga. O regresso
às raízes suponho!, numa necessidade que se faz sentir um pouco por
todo o lado, nas modas vintage, nos postcrossing e bookcrossing, e
eteceteras. Na era da tecnologia vamos sentindo que esta nos domina,
em vez de ser um auxiliar. Por exemplo, as redes sociais: as pessoas
vão-se embrenhando de tal maneira nelas que acabam por criar vidas
alternativas. Não literalmente (espero eu, embora tenha as minhas
dúvidas) mas em pequenas coisas, com a finalidade de projectar uma
vida mais perfeita, mais virtuosa ou o inverso, consoante as
carências pessoais. Vêem-se sorrisos e manifestações de alegria
que o não são tanto na realidade, predominando a necessidade de
demonstrar que se é muito, tão feliz!quando, na verdade, são mais
os sorrisos para a câmera fotográfica do que entre as pessoas e os
seus olhares; com os filtros as peles ficam com uma aparência sedosa
e imaculada, e a mesma foto é tirada vezes sem conta, até se
atingir o melhor ângulo, o melhor de nós mesmos para mostrar aos
outros, embora seja mais o que se mostra do que o melhor que,
efectivamente, se dá. As saudades da familia e amigos distantes, os
“Love you” ilustrados com bonecos mimosos, que proliferam numa
manifestação online, não são obrigatoriamente o que se manifesta
ao vivo e a cores, e o tempo real não é tão partilhado quando
surge a oportunidade de realmente o fazer e viver, no mundo
verdadeiro dos afetos e dos sentimentos...E a dor, esse sentimento
tão íntimo, manifesta-se de forma exuberante, como a alegria, numa
estranha espera de ouvir um retorno de quem não se conhece. Porque
talvez, não se queira ou não se saiba pedir ajuda a quem talvez a
possa dar sem testemunhos virtuais de terceiros.
Também se partilham
revoltas e filosofias de vida (na teoria, a maioria), em diretas ou
indiretas que se deixam no ciberespaço, num rancor de lixo tóxico
imortalizado na rede, mesmo quando “se parte pra outra”; mas
todos ou quase todos o fazem ou seja, andam todos a queixar-se do
mesmo, forte indício que a natureza humana tem mais ou menos a mesma
essência, todos procuram o mesmo em timings diferentes, e todos os
telhados são de vidro quando se arremessam pedras, ou neste caso,
posts azedos.
Partilham-se sem pudores
imagens escabrosas de maus tratos a seres humanos e a animais,
acompanhados de discursos inflamados de revolta...o despertar de
consciências nunca fez mal a ninguém, concordo!eu própria partilho
se achar necessário, mas temos que ser coerentes com a vida real
onde, infelizmente dá mais trabalho estender a mão a quem precisa,
e onde há uma certa vergonha em alimentar um animal esfomeado no
meio da rua. Infinitamente mais fácil, é partilhar uma fotografia e
voilá!contribuição pessoal para a sociedade bem sucedida!
Contradições estranhas...que me fazem sentir alguma pena de quem
perde tempo precioso da vida a fingir que a vive. Não vou ser
hipócrita nem moralista: também gosto de navegar, de partilhar
coisas úteis ou apenas fúteis, porque a vida é feita de um pouco
de tudo. Gosto igualmente de partilhar, aqui as minhas ideias, mesmo
que não interessem a ninguém: é um prazer egocêntrico talvez!? E
gosto também de ler outras ideias que não as minhas, evidentemente.
Gosto das tecnologias! Mas como auxiliares, e não como um vício que
me domina, embora tenha andado perigosamente perto de necessitar da
minha dose diária, dependência que se insinua sem darmos por ela.
Limitei o meu tempo de navegação e invisto nas viagens mágicas das
páginas de um livro, ou deixo-me ir ao sabor de uma caneta, o melhor
remédio para a febre que também me atingiu como ser humanamente
imperfeito e curioso que sou, mas da qual me recuperei, o que me
deixa muito satisfeita comigo mesma ou, utilizando uma linguagem que
já se tornou universal, e que será entendida em qualquer ponto do
planeta:
“Inês
likes this – feeling proud of herself!”

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