quinta-feira, 2 de outubro de 2014

(Real)mente...

 

 
O original deste texto é escrito num papel, de caneta na mão, à boa moda antiga. O regresso às raízes suponho!, numa necessidade que se faz sentir um pouco por todo o lado, nas modas vintage, nos postcrossing e bookcrossing, e eteceteras. Na era da tecnologia vamos sentindo que esta nos domina, em vez de ser um auxiliar. Por exemplo, as redes sociais: as pessoas vão-se embrenhando de tal maneira nelas que acabam por criar vidas alternativas. Não literalmente (espero eu, embora tenha as minhas dúvidas) mas em pequenas coisas, com a finalidade de projectar uma vida mais perfeita, mais virtuosa ou o inverso, consoante as carências pessoais. Vêem-se sorrisos e manifestações de alegria que o não são tanto na realidade, predominando a necessidade de demonstrar que se é muito, tão feliz!quando, na verdade, são mais os sorrisos para a câmera fotográfica do que entre as pessoas e os seus olhares; com os filtros as peles ficam com uma aparência sedosa e imaculada, e a mesma foto é tirada vezes sem conta, até se atingir o melhor ângulo, o melhor de nós mesmos para mostrar aos outros, embora seja mais o que se mostra do que o melhor que, efectivamente, se dá. As saudades da familia e amigos distantes, os “Love you” ilustrados com bonecos mimosos, que proliferam numa manifestação online, não são obrigatoriamente o que se manifesta ao vivo e a cores, e o tempo real não é tão partilhado quando surge a oportunidade de realmente o fazer e viver, no mundo verdadeiro dos afetos e dos sentimentos...E a dor, esse sentimento tão íntimo, manifesta-se de forma exuberante, como a alegria, numa estranha espera de ouvir um retorno de quem não se conhece. Porque talvez, não se queira ou não se saiba pedir ajuda a quem talvez a possa dar sem testemunhos virtuais de terceiros.

Também se partilham revoltas e filosofias de vida (na teoria, a maioria), em diretas ou indiretas que se deixam no ciberespaço, num rancor de lixo tóxico imortalizado na rede, mesmo quando “se parte pra outra”; mas todos ou quase todos o fazem ou seja, andam todos a queixar-se do mesmo, forte indício que a natureza humana tem mais ou menos a mesma essência, todos procuram o mesmo em timings diferentes, e todos os telhados são de vidro quando se arremessam pedras, ou neste caso, posts azedos.

Partilham-se sem pudores imagens escabrosas de maus tratos a seres humanos e a animais, acompanhados de discursos inflamados de revolta...o despertar de consciências nunca fez mal a ninguém, concordo!eu própria partilho se achar necessário, mas temos que ser coerentes com a vida real onde, infelizmente dá mais trabalho estender a mão a quem precisa, e onde há uma certa vergonha em alimentar um animal esfomeado no meio da rua. Infinitamente mais fácil, é partilhar uma fotografia e voilá!contribuição pessoal para a sociedade bem sucedida! Contradições estranhas...que me fazem sentir alguma pena de quem perde tempo precioso da vida a fingir que a vive. Não vou ser hipócrita nem moralista: também gosto de navegar, de partilhar coisas úteis ou apenas fúteis, porque a vida é feita de um pouco de tudo. Gosto igualmente de partilhar, aqui as minhas ideias, mesmo que não interessem a ninguém: é um prazer egocêntrico talvez!? E gosto também de ler outras ideias que não as minhas, evidentemente. Gosto das tecnologias! Mas como auxiliares, e não como um vício que me domina, embora tenha andado perigosamente perto de necessitar da minha dose diária, dependência que se insinua sem darmos por ela. Limitei o meu tempo de navegação e invisto nas viagens mágicas das páginas de um livro, ou deixo-me ir ao sabor de uma caneta, o melhor remédio para a febre que também me atingiu como ser humanamente imperfeito e curioso que sou, mas da qual me recuperei, o que me deixa muito satisfeita comigo mesma ou, utilizando uma linguagem que já se tornou universal, e que será entendida em qualquer ponto do planeta:

Inês likes this – feeling proud of herself!

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