quarta-feira, 29 de junho de 2011

Mão Cheia de Nada


Existem dias
de desalento em que nos sentimos
ausentes, diferentes,
como  se a força
de um vento escuro nos tivesse
quebrado por dentro
e a nossa luz não mais acendesse.
Nesses dias
dói a mão de tão vazia
de sentimentos por dizer.
Mas esses dias morrem.
E amanhã nascerão em mim
as palavras certas
que hoje não sou capaz de
escrever.

Estava Escrito

Fotografia de Miguel Costa

Não tenhas medo da morte.
Não sabes que morremos todos os dias?
mas não o lembramos,
e esvai-se na bruma de um sonho
o pedaço de nós
que já não volta...
Não tenhas medo da ausência.
Não há senão vigília nocturna
para a minha alma inquieta
que encontra o caminho da tua
em cada noite que não te sinto.
Não tenhas medo do que está por vir.
Porque será tudo aquilo
que escolhemos para viver.
E, quando o sol desse dia nascer,
irá parecer coincidência
do destino.
Mas reconheceremos um no outro
 um olhar que não tem idade,
e saberemos que a prisão 
do Tempo 
só tem acção na matéria.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Gato versus Rato

O sono é o calcanhar de Aquiles daquele que não tem back-up de corrente eléctrica...

segunda-feira, 27 de junho de 2011

The Ride


‎"Precisa-se: boleia para algures- onde- as- pessoas- são- de- facto- felizes.
A mala está feita e... uma senhora nunca sai de cima do salto."

(No) Expectation


A maioria das pessoas vive à sombra das suas expectativas...
e o resultado é uma pálida imagem do que podiam ter sido.

Imagem in http://arquivodecabeceira.blogspot.com/

Ausência


Não tenho as palavras certas para te falar.
A recorrente é "Saudade".
E lembro-me daquele aceno de mão
em fim de tarde
num adeus que não sabiamos
que o era.
E no meu reflexo
habitam os sonhos que me sonhaste
através dos teus olhos,
pedaços de céu em dia de tempestade,
que me abrigavam
do mau tempo que se abatia
na fragilidade dos meus anos tenros.
Um cheiro percorre o trilho
do Tempo e invade-me 
em momentos de sossego
e memórias vivas.
Sinto a tua vida a pulsar na minha,
numa herança que vai mais longe
que uma semelhança nos traços
meus em que a ti te contemplo.
E maior que a palavra "Saudade"
vive em mim a palavra "Ausência"
de tudo o que não vivemos
no ciclo de estações
que ficaram por cumprir
em nós dois.

sábado, 25 de junho de 2011

A Solidão Mata


Esta semana aconteceu uma tragédia no meu local de trabalho: uma das pessoas que o frequentava assiduamente optou por virar as costas aos problemas...e à sua vida também. De uma forma atroz e dolorosa. Quase parecia que se estava a punir pelo acto que infligia a si própria.
Foi um choque que nos atingiu a todos como uma bofetada na cara. Não por a pessoa em questão nos ser especialmente querida, mas sim por ser uma presença constante, que partilhava a hora do almoço, que chegou a rir connosco e a chorar algumas lágrimas. Uma daquelas presenças que, de ser tão constante, se dá mais por ela na sua ausência. O choque veio de sabermos que aquela alma estava deprimida, sem vontade de viver devido a problemas do conhecimento geral, e nunca ninguém pensou que uma figura apagada pudesse ter uma iniciativa do género. Ou seja, a tragédia ganhava forma, ideia e determinação sentada ao nosso lado. E ninguém deu por isso! Cada um de nós ficou a pensar: "Podia ter dito mais qualquer coisa naquele dia?", "Podia ter sido mais paciente, o meu sorriso ter sido mais largo?".
Na verdade estendi a mão mais de uma vez. Muitas pessoas o fizeram. Mas faltou amor no gesto. Por mim eu sei que sim. Fi-lo mais para apaziguar a minha consciência. E agora penso: será que isso torna o gesto correcto? Será que não olhamos, inconscientemente, "de cima" para algumas pessoas que nos inspiram menos simpatia mas que se encontram em situações delicadas? Que têm um mundo interior tal como nós, feito de dores e desalento? Será que não nos precipitamos ao criticar, julgar, e impacientar....? Faz falta colocarmo-nos nos pés do outro, e ter compaixão independentemente da simpatia que alguém nos inspira. Faz falta pararmos aqueles dois segundos em vez de andarmos em frente, mal olhando para o rosto que nos interpela. Faz mal não sorrir. Faz mal sermos invisíveis uns para os outros, pois tornamos o Mundo num grande deserto cheio de gente. Temos, cada um de nós, que descer do nosso pedestal caseiro, e tomar um banho de realidade. Sermos humildes. Humildade é o contrário de servilismo, é sermos maiores que o nosso ego, é melhorarmos como ser humano.
Esta tragédia trouxe algo de positivo: ouvimos um grito silencioso, e isso tornou-nos mais atentos em relação à solidão alheia. E abriu-nos os olhos para a nossa própria fealdade.

terça-feira, 21 de junho de 2011

O Equílibrio


O equilíbrio no mundo começa no equilíbrio dentro de cada um de nós.
E esse é o mais difícil de conquistar.


Fotografia de Miguel Costa

Verão em Nós


A luz reflecte-se nos estendais
brancos das janelas soalheiras da nossa juventude.
Dedos dos pés brincam descalços com o verão espraiado nas pedras da rua.
O riso já não quer o recolhimento de um cobertor.
A alegria abre a porta e vem transpirar na brincadeira,
e os corações cantam a par do sol.
O Verão é a eterna infância em nós.

Viajar no Sonho


Dormir é deixar a alma viajar em primeira classe
para qualquer destino desejado...
Eu tenho na minha cabeceira a bagagem de todos os sonhos.


Imagem in http://www.dignow.org/

Gosto de Nós


Gosto de ti
como gosto de inspirar a
beira-mar em fim de dia.
Gosto de ti
como gosto de rebolar na relva
em sujo abandono.
Gosto de ti
como gosto de um banho quente
após um momento de cansaço.
Gosto de ti 
como gosto da conversa enevoada de
uma mesa cheia de amigos
em noites despreocupadas.
Gosto de ti
como gosto das tardes enroscadas de Inverno
e dos abraços cheios de frio.
Gosto de ti enquanto te lembro.
Enquanto te sorrio.
E te escrevo.
Pensando bem...
Eu gosto de ti...
quase tanto como gosto de mim!

A Colheita

Sou fruta madura
que se desfaz
na fome da tua boca.
Torno-me mais doce
em cada vez que me saboreias
definindo nas tuas mãos
os meus contornos de pêra.
Deixo-me tombar
sobre ti
num abandono já pronto
a ser colhido.
E acolhes-me no teu ventre
com o deslumbre de
quem contempla o fruto
que semeou.

sábado, 18 de junho de 2011

Bonança


Já foi cor do sangue
o céu do meu olhar
e senti nas feridas que trazia
todo o sal que choveu 
da minha alma.
Carreguei no peito
o temporal de uma noite
e levei trovoada no
bater do coração.
Mas os meus pés
foram levados em frente
pelas mãos de uma força que
não reconheço em dias
de riso solto e céu limpo.
E abriram caminhos
feitos de fúria,
saudade e desespero:
cada passo dado foi oração
dos pés à cabeça
na viagem que me levou
o corpo inteiro até
à desejada reconciliação
 com Deus.

Fotografia de Miguel Costa

Regresso


Passaram por nós
incontáveis ciclos de marés
e a lua mudou de humor vezes sem fim
no calendário da nossa ausência.
Mas o mar não conhece
a prisão do Tempo e
regressa novamente,
num abraço abandonado,
à mesma praia
que em tempos
o viu partir.

Renascer sem Morrer


...era agora apenas um homem `
à beira-mar plantado,
de olhar vazio de horizonte e
memórias inquietas na dança das ondas.
A espuma trazia-lhe o riso 
e o cheiro que
sentia ainda na 
ponta dos dedos,
numa conversa de pele e segredos.
De olhos fechados falou
com o mar, e o mar
diluiu-se no seu peito
em vagas de saudade
e tristeza salgada.
Então o vento abraçou-o num
aconchego estranho...
Abriu os olhos e
viu-se a si mesmo
num dia que já não havia.
Não era o mesmo homem
que trouxera o sol no peito.
Mas de quem fora
e do amor que vivera
reinventava-se hoje,agora,
e de novo a cada dia.

Raízes


As nossas raízes criam os alicerces de uma vida. Mas não definem a qualidade da nossa natureza. 
Essa responsabilidade cabe a cada um de nós.


fotografia de Lurdes Baltazar

Saudade na Pele


Existem dias de saudade em que o corpo chama pelo colo, pelo cheiro, pelo beijo. Temos dedos pequeninos outra vez, mas as mãos estão agora vazias...
Até um dia, novamente.

Música


Enrosca-se na minha pele o vento de ontem.
Levo nos folhos do vestido a dança do amanhã.
E hoje...e agora...o meu corpo é música...

História Encantada


Sou princesa sem reino nem Príncipe, e o castelo onde vivo é feito de olhares inspirados e palavras soltas.
Mas o meu gato já descalçou as botas e foi para a cama, ronronando...E, tal como nas histórias encantadas, a Princesa acaba por ter quem lhe aqueça os pés no seu final feliz.
Fotografia de Lurdes Baltazar

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Ego

Não gosto do Ego.
O Ego é um espelho narcisista que não vê
o que está por trás do reflexo enamorado de si próprio.
O Ego alimenta pequenos nadas que corroem o Todo.
O Ego não perdoa,
não respira fundo,
não vê através dos olhos alheios:
o seu campo de visão só vai até ao próprio umbigo.
O Ego nem a si próprio sabe amar
porque não sabe ver a a si mesmo;
vê uma distorção da realidade
que não tem espaço ou lugar
para amar os seus defeitos.
O Ego mente e manipula
e compila sozinho um dicionário
de palavras mansas.
O Ego beijo o outro mas
saboreia somente os seus lábios,
rendido num abraço apertado 
onde carrega apenas 
o peso de si próprio...
construindo assim um ninho vazio,
terra sedenta
onde nada semeia,
sem fruto para dar.

Fotografia de Lurdes Baltazar

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Lua


Nasce a noite num momento de Lua;
Adormeço no abraço do meu peito,
para acordar no 
sonho em que te sonho...

Fotografia de Miguel Costa

Tom McRae - You Only Disappear [lyrics]



"I can live with my regrets
Still raise a smile, still raise my head
And a stranger God can be so cruel
And a holy fool is still a fool"

A Promessa


Levo tanto sal no olhar
e tantos sonhos por cumprir
na palma das 
minhas mãos cansadas
já prostradas num abandono...
Mas, na hora de todas as tristezas,
a luz do meu entardecer
fará das feridas, cicatrizes
e, de tudo o que eu não fui,
a promessa de um novo dia
que em mim irá nascer.

Fotografia de Lurdes Baltazar

Refúgio


Perdida estou
entre quem fui e quem sou.
Apenas os instantes de Amor
que colhi pelo caminho,
são sempre meus
e em mim constantes
como conchas raras
que se encontram num 
momento de beira-mar
e pés descalços.
E esses momentos são onde
me olho, me revejo
e me volto a encontrar
naquele tempo que o Tempo leva
a fazer morrer um dia
para de novo o ver nascer.
São rocha imutável no Tempo,
um inevitável porto de abrigo
onde a mim mesma venho ter.

Fotografia de Miguel Costa

Ponto de Interrogação


O que define um Ser humano?
São os caminhos escolhidos
entre as ruelas da incerteza,
ou o fado que dizem
deitar-se connosco no berço?
São as nossas raivas e desesperos,
as nossas alegrias e devaneios,
são as coisas que amamos
ou tudo aquilo que não sabemos amar?
São as malicias e os gestos impuros
ou é a hora extrema da redenção?
São os sonhos e os anseios
que connosco já nasceram
ou é a força de os imaginar
e a fome de os alcançar?
É a beleza do instinto
em cada gesto de amor
ou antes a beleza do seu esforço
perante um ego e o seu rancor?
Tantas perguntas condensadas numa só:
"Quem sou eu?".
De mim pouco sei;
o meu percurso tem sido suor
e dores de parto.
 E, depois de palmilhado já meio caminho,
apenas agora
me sinto nascer.

Fotografia de Miguel Costa