terça-feira, 17 de junho de 2014

Paralisação do Tempo

Na hora do jantar aconteceu a hora perfeita: comida na mesa, sem excessos e sem faltas, nem fome nem desperdício. Ainda entrava a luz do sol pela janela aberta, de moldura ampla para uma vista larga, sem prédios. A cadela sentada aos pés de um banco. O gato pedindo comida, como se de um cão se tratasse, a sua cauda acariciando de quando em vez os pés descalços por baixo da mesa. Três gerações à conversa, avó, mãe e  filho. O som da televisão ligada nas noticias é somente um ruído de fundo, vago e difuso, suplantado pela conversa que rega a refeição. A avó conta histórias de um tempo longínquo, o tempo em que a pobreza era uma forma de vida, uma sardinha era um banquete, e a carne era coisa rara. Mas estas histórias falam da alegria resistente a tempos de racionamento. Falam das brincadeiras de crianças, de traquinices intemporais, e soltam-se as gargalhadas enquanto é vasculhado o baú das memórias.
Então surge o momento, aquele momento único em que o tempo parece deixar de fazer tic tac, tic tac...
E a filha olha a mãe, depois olha o filho, e sente a brisa morna que atravessa a cozinha, numa caricia que toca a pele e aconchega o aqui e o agora, aquela paralisação do tempo que sabe que vai guardar para sempre: o riso da mãe idosa, que recorda a infância, vestida na sua bata de rotina caseira, o brilho nos olhos, e o pão, que agora não é escasso, nas mãos ainda bonitas. E o jovem adolescente, para as duas sempre o menino, deliciado com o relato de tempos que não consegue conceber, mas que gostava de ter vivido nas brincadeiras tão mais livres e irreverentes que aquelas que conheceu na sua infância...
E as palavras lentamente se distanciam, enquanto devora com os olhos aquele momento, aquele quadro mental que sabe que irá rever vezes sem conta na sua cabeça. O certo é que nada é eterno no mundo da matéria, mas este momento, o momento em que o tempo parou, viverá para sempre na sua memória, como a hora perfeita em que a felicidade se fez sentir, sem ser preciso nada mais que três pessoas juntas a uma mesa, uma brisa morna a passar, e dois animais a seus pés.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Espelho Meu




O meu quarto tem um espelho. E nesse espelho eu me olho sem me ver, todos os dias, em gestos automáticos: creme de rosto, blush, rímel, um jeito no cabelo, e ali me olho, mas sem me ver. Queria um dia parar! E queria que ele me falasse, o espelho. Que me escrevesse um bilhete e me dissesse assim:
“Vem. Atravessa-me. Sem medos. Do outro lado está um outro mundo, onde não te irás perder, mas sim encontrar-te. Vem. Atravessa-me. Aqui não existe linha temporal, as memórias de ontem não se desvaneceram nem perderam a magia. Olha! ali vem o teu pai. Há quanto tempo não o vês? Vinte anos...? Pois aqui não há tempo! Podes voltar a dizer um olá depois do adeus feito num aceno de mão que pensavas ter sido o último. Mas não... Agora podes voltar a ser menina. Podes novamente sentar-te nos joelhos paternos e enrolar-te no colo seguro do primeiro homem que amaste. Podes dançar novamente com pés pequeninos em cima de uns sapatos sempre impecavelmente engraxados...podes voltar a adormecer os teus olhos castanhos, de encantos tamanhos, Tony de Matos pela voz de um pai vaidoso. Ou acabarem aquele passeio que o tempo, que aqui não há, não deu tempo de terminar. Podes falar-lhe do neto que não conheceu, e descobrires como é o brilho nos olhos de um pai que se torna avô. Podes viver o que ficou por cumprir entre os dois. Podes pedir desculpa. Podes perdoar; num mundo sem tempo não há espaço para angústias e saudades. Existe apenas um amor que não se deixa morrer, e toda a bagagem emocional é largada no pó de uma estrada sem medos.

Depois, podes regressar de ti para ti mesma, e quando precisares voltas a este lado...mas entretanto levas nos teus olhos tudo aquilo que deixou de ser ausência.”