sábado, 28 de fevereiro de 2015

Sia - Elastic Heart feat. Shia LaBeouf


Hoje, enquanto rascunhava o meu projecto de livro, fiz um interregno pelo mundo da música, embala-me a escrita, e sem música também a minha vida perde grande parte da sua magia. Apeteceu-me não só ouvir, mas também ver. E vim parar aqui. Gosto da Sia, para além de ter uma voz algo metálica, que me agrada, ela não é uma cantora que se encaixe nos padrões actuais, o que me agrada também: a relevância é dada à voz e não ao corpinho que a alberga, assim como às mensagens que as suas intrincadas letras transmitem. Mas para além de tudo isto, ela é bastante inteligente nas suas escolhas, os clips são sempre inesperados, e esta pequena grande Maddie veio tornar-se uma mais valia, não só porque difunde a maravilhosa arte da dança, sendo uma estrela em ascensão que não sei onde vai parar, algures no cosmos num lugar reservado aos pré-destinados, mas porque ela própria é uma actriz que muitas bonecas de Hollywood aspiram a ser e não conseguem. Vê-se que a Sia ama a arte no seu todo. E aqui entra o Shia. Meu Deus... que colosso de actor, não estou a falar de um corpo bem trabalhado não! podia até bem ser, mas ele é bem mais que isso, carrega vários estados de alma na sua expressão, com uma intensidade que me comove a mim e a qualquer pessoa que tenha, nem que seja apenas uma pequena percentagem, de sensibilidade artística no seu espírito. Nem "Transformers", nem qualquer outro filme que ele tenha protagonizado (e isto não desfazendo do trabalho dele no cinema, que é de qualidade comprovada), mas ele aqui despiu-se, de alma e quase de corpo, entregando-se apaixonadamente a um papel que cada um de nós pode interpretar como quiser...se bem que algumas interpretações têm roçado o absurdo, considerando este vídeo de "indecente, pedófilo" e afins. Eu não o vejo nada assim, e acho que cada um vai rebuscar no seu inconsciente aquilo que mais lhe toca. Eu não vejo nada de indecente! Para mim está retratada a luta por outra pessoa, para a trazer para a luz, esperando que o amor seja suficiente para lhe dar forças e sair das trevas, que podem ser um vício, uma dependência, uma qualquer coisa que lhe rouba a vida aos poucos. Aqui o amor não é suficiente, e o vazio que vemos nos olhos dele quando desiste de si mesmo, e o desespero dela ao tentar puxar por ele, são absolutamente credíveis, retratando o que acontece na realidade a maior parte das vezes. Mas acredito que existem "corações elásticos" que são recompensados pela sua força e perseverança:
                            
                              "Well, I've got thick skin and an elastic heart,
                                   But your blade—it might be too sharp
                              I'm like a rubber band until you pull too hard,
                                      Yeah, I may snap and I move fast
                                         But you won't see me fall apart
                                        'Cause I've got an elastic heart"

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Heart Beat



Bate bate coração,

que o meu é feito de cartão,

não tem preço,

 não tem dono,

mas amor não lhe falta

todos os dias do ano.






sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Super Maria Capaz

Existe um site intitulado "Maria Capaz", com rostos famosos, que eu admiro, a darem a cara e a escrita por ele. Tal como o nome indica, é um site dedicado a todas as "Marias", mulheres Capaz(es) de serem heroínas do dia-a-dia, de construírem sonhos e concretiza-los, superarem dificuldades e por aí fora. Gosto. Gosto de espreitar as crónicas sobre os mais diversos temas, desde o sexo, violência doméstica e descriminação, até às coisas mais banais numa base diária. Nunca é demais lermos textos de motivação e orgulho feminino. Quem sabe meia dúzia de frases não vão ajudar alguém que se identifique com o texto em questão...?
No entanto, e dei por mim a pensar, as melhores Marias Capazes de muita coisa foram as das gerações anteriores! Obviamente, isto em comparação com as mulheres dos dias de hoje que vivem com o mínimo de condição social e educativa, excluindo os casos que infelizmente ainda existem a um nível primário, especialmente nas sociedades mais machistas.

Tenho o exemplo da minha mãe, como as mães de muitas pessoas da minha geração, que lá veio recambiada da terra para Lisboa, com 10 anos, em direção ao desconhecido, ao trabalho escravo, horas de sacrifício diário em troco de pão com cebola, com umas bofetadas pelo meio, e uma cama dentro de uma despensa para descansar as tristezas. Longe da família, dos amigos, sem direito à escola, definindo-se como ser humano, construindo a sua personalidade sozinha, assim como sozinha aprendeu a juntar letras, tornando-se assim uma devoradora de livros autodidata. Sem idas a shopping, sem pequenos rituais que alimentam a autoestima, porque alimentado tinha que ser o corpo, e vestido com roupas quentes, isso mais importante que o design. Foi mãe numa altura em que as fraldas eram lavadas à mão, e licença de parto para recuperar o corpo e o espírito era coisa que não existia. Sofreu de violência doméstica, na infância e na idade adulta, mesmo com um filho pelo colo e outro dentro da barriga. Mas nunca se pode parar de trabalhar. O dia tem que andar para a frente, as coisas têm que ser feitas. E uma mãe é uma mãe, despersonaliza-se em prol dos filhos. Com o segundo casamento, já mais independente, a coisa foi diferente e ele foi corrido em três tempos, levando um pontapé no traseiro machista,...sinais dos tempos! Hoje, já perto dos oitenta anos, é feliz com a sua tv por cabo, com as refeições garantidas na mesa, com mais do que um par de sapatos, e até umas idas à cabeleireira. Há resquícios dos tempos de vacas magras, o pão ainda se come sem nada e sabe a banquete, a roupa dura uma eternidade, e "qualquer coisa serve" para satisfazer as necessidades. Porque agora tudo é um luxo. Aprecia os pequenos prazeres, por muito más que as coisas estejam, capacidade escassa nos dias de hoje, em que não havendo dinheiro para as unhas de gel e para fazer as madeixas, o mundo desaba em dias cinzentos e sem alegria...



Muito brevemente vou mudar de país, trabalhar e viver além-fronteiras, para garantir uma educação a que o meu filho, no seu país, não tem direito na prática. Aproximando-se a data, sinto um frio no estômago e muitos "ses" e receios me passam pela cabeça. Até que paro e penso "deixa de ser medricas!". Hoje em dia temos todas as condições e conforto, acesso a tecnologias e as distâncias são muito mais curtas. As nossas mães, com as dificuldades que tiveram, se pudessem entrar numa máquina do tempo e viajar para o futuro, seriam neste presente as Super-Marias Capazes. Mas está na hora de descansarem, depois de levarem a vida como heroínas, e as mulheres da minha geração têm que se lamentar menos e arregaçar mais as mangas. Para sermos dignas sucessoras de todas aquelas que enfrentaram traumas sem terapia, e deixaram como herança o significado de ser Mulher. Muitas de nós somos Maria Capaz com certeza. Eu acho que sou uma. Mas agora sei (só o sabemos mais tarde na vida), que o sou porque cresci com uma. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Palavras Mudas


 
 
 
São dois pássaros inquietos

 

 os que pousam nos meus olhos

 

 e na minha voz abatem-se as

 

 asas cansadas

 

 de procurar (te)...

 

 És a minha coincidência

 

 nas ruelas do destino,

 

 és o silêncio nas minhas palavras,

 

 que se querem soltar e não têm por onde falar...

 

 E pela luz difusa a tua silhueta

 

 devora o que me rodeia,

 

 e torno-me o polo oposto

 

 que quer ir até ti.

 

 Abraça-me a tua presença

 

 e invade-me a tua ausência...

 

 Despertaste a sonhadora

 

 que pensei já não habitar aqui.

 

 E tudo é turbilhão,

 

 vendaval e emoção...

 

 

 Em dia de Inverno,

 

 nasceu assim,

 

 e em mim,

 

 uma inesperada

 

 noite de Verão.Imagem in http://violetasensolaradas.blogspot.com/

A Magic Place in my Mind


Fotografia de Miguel costa





 Imagino-te um sítio

 de flores ousadas e

 caules vaidosos,

 audaciosos nas suas raízes

 persistentes,

 abrindo caminhos

 em mim desconhecidos.

 Sinto o cheiro de terra fresca

 onde me deito num despojamento

 abandonado,

 deliciado.

 Folhas de uma cor por dizer,

 serenas no seu sentimento,

 balouçam à mercê dos

 humores de um vento

 por vezes furacão,

 por vezes brisa,

 que canta

 que cala

 que grita...

 Imagino-te um canto secreto

 pintado a céu verde

 e com alma de rio.

 Atravessas-me

 cantando-me com a tua água.

 E eu sou uma ninfa

 que finalmente chegou a casa

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

As Estações

imagem in http://reacaodireta.blogspot.pt/2012/11/poesia-as-estacoes-em-mim.HTML

Tenho no meu corpo um campo de feno que tu percorres e onde brincas, de onde roubas uma flor e no qual te deitas ao sol-pôr. Tenho no meu corpo vento, chuva e tempestade, onde te abrigas e aqueces, te enxugas e adormeces. Tenho no meu corpo uma praia deserta onde vens lamber o meu sal, onde mergulhas, navegas e naufragas, onde à costa vens dar. Voa em mim uma gaivota, que leva nas asas o nosso cansaço e as vozes caladas. E vai sem destino, carregando para longe o peso do dia, enquanto cai a noite no meu corpo. E então, entre o pulsar da terra e os grãos de areia que cantam entre os dedos, nasce em mim uma via láctea só para ti; desfaço-me em estrelas na gravidade do teu olhar. Nasceram nas minhas mãos todas as estações do ano: Agora podes em mim semear, para em mim vires colher.

A Infância nos Dedos


 
 
 
 Encosta a cabeça meu menino, mas não durmas.
 Corre atrás da tua infância, porque ela é rebelde e escorre entre os dedos.
 Faz-lhe uma careta, brinca com ela, corre atrás e sem medo da queda.
 Ganha-lhe um abafador, aponta-lhe uma fisga, rasga-lhe os calções,
 brinca com ela à chuva e devora-lhe os Verões.
 Encosta a cabeça, conta até três, "aqui vou eu!".
 E, assim correndo, todos os dias és um bocadinho menos meu.