Existe um site intitulado "Maria Capaz", com rostos famosos, que eu admiro, a darem a cara e a escrita por ele. Tal como o nome indica, é um site dedicado a todas as "Marias", mulheres Capaz(es) de serem heroínas do dia-a-dia, de construírem sonhos e concretiza-los, superarem dificuldades e por aí fora. Gosto. Gosto de espreitar as crónicas sobre os mais diversos temas, desde o sexo, violência doméstica e descriminação, até às coisas mais banais numa base diária. Nunca é demais lermos textos de motivação e orgulho feminino. Quem sabe meia dúzia de frases não vão ajudar alguém que se identifique com o texto em questão...?
No entanto, e dei por mim a pensar, as melhores Marias Capazes de muita coisa foram as das gerações anteriores! Obviamente, isto em comparação com as mulheres dos dias de hoje que vivem com o mínimo de condição social e educativa, excluindo os casos que infelizmente ainda existem a um nível primário, especialmente nas sociedades mais machistas.
Tenho o exemplo da minha mãe, como as mães de muitas pessoas da minha geração, que lá veio recambiada da terra para Lisboa, com 10 anos, em direção ao desconhecido, ao trabalho escravo, horas de sacrifício diário em troco de pão com cebola, com umas bofetadas pelo meio, e uma cama dentro de uma despensa para descansar as tristezas. Longe da família, dos amigos, sem direito à escola, definindo-se como ser humano, construindo a sua personalidade sozinha, assim como sozinha aprendeu a juntar letras, tornando-se assim uma devoradora de livros autodidata. Sem idas a shopping, sem pequenos rituais que alimentam a autoestima, porque alimentado tinha que ser o corpo, e vestido com roupas quentes, isso mais importante que o design. Foi mãe numa altura em que as fraldas eram lavadas à mão, e licença de parto para recuperar o corpo e o espírito era coisa que não existia. Sofreu de violência doméstica, na infância e na idade adulta, mesmo com um filho pelo colo e outro dentro da barriga. Mas nunca se pode parar de trabalhar. O dia tem que andar para a frente, as coisas têm que ser feitas. E uma mãe é uma mãe, despersonaliza-se em prol dos filhos. Com o segundo casamento, já mais independente, a coisa foi diferente e ele foi corrido em três tempos, levando um pontapé no traseiro machista,...sinais dos tempos! Hoje, já perto dos oitenta anos, é feliz com a sua tv por cabo, com as refeições garantidas na mesa, com mais do que um par de sapatos, e até umas idas à cabeleireira. Há resquícios dos tempos de vacas magras, o pão ainda se come sem nada e sabe a banquete, a roupa dura uma eternidade, e "qualquer coisa serve" para satisfazer as necessidades. Porque agora tudo é um luxo. Aprecia os pequenos prazeres, por muito más que as coisas estejam, capacidade escassa nos dias de hoje, em que não havendo dinheiro para as unhas de gel e para fazer as madeixas, o mundo desaba em dias cinzentos e sem alegria...
Muito brevemente vou mudar de país, trabalhar e viver além-fronteiras, para garantir uma educação a que o meu filho, no seu país, não tem direito na prática. Aproximando-se a data, sinto um frio no estômago e muitos "ses" e receios me passam pela cabeça. Até que paro e penso "deixa de ser medricas!". Hoje em dia temos todas as condições e conforto, acesso a tecnologias e as distâncias são muito mais curtas. As nossas mães, com as dificuldades que tiveram, se pudessem entrar numa máquina do tempo e viajar para o futuro, seriam neste presente as Super-Marias Capazes. Mas está na hora de descansarem, depois de levarem a vida como heroínas, e as mulheres da minha geração têm que se lamentar menos e arregaçar mais as mangas. Para sermos dignas sucessoras de todas aquelas que enfrentaram traumas sem terapia, e deixaram como herança o significado de ser Mulher. Muitas de nós somos Maria Capaz com certeza. Eu acho que sou uma. Mas agora sei (só o sabemos mais tarde na vida), que o sou porque cresci com uma.

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