segunda-feira, 27 de outubro de 2014

It's a Kind of Magic


 
Hoje é o Dia Mundial da Biblioteca Escolar. Eu não saberia, sou sincera, se não tivesse hoje vindo um grupo de alunos da escola primária do lado, com textos na mão, acompanhados por duas professoras, para fazerem uma atividade entre gerações com os utentes do meu local de trabalho.


Foram lidos textos e poemas, dominados pelo tema da velhice e oferecidos moinhos de vento feitos por mãos pequenas, com rolhas de cortiça, papel, palhinhas de plástico e pioneses, pintados com as cores alegres da infância e com frases escritas…”A biblioteca é a casa dos livros e da imaginação”, “A biblioteca é uma casa onde cabe toda a gente”…

Tirei fotografias ao pequeno evento e fui também uma espectadora, no meio caminho entre os idosos e as crianças, sentindo-me ainda menina e já vendo um futuro que parecia tão longe quando acreditamos que a juventude é eterna. Dei por mim comovida ao ver aqueles pequeninos, a recitar em palavras engasgadas algumas das coisas escritas por eles mesmos. Lembrei-me da paixão que tinha pela biblioteca da escola. E apercebi-me hoje mesmo da importância que podem ter na vida de muitas crianças, especialmente das que amam ler e fazem uma autêntica viagem onde tudo é possível. Claro que quando eu era pequena tínhamos menos tecnologias e afins, mas a biblioteca tem uma magia que ninguém lhe pode tirar. Ainda este fim-de-semana que passou fui lá fazer a visita habitual; fazemos um passeio familiar até lá chegarmos, e depois dividimo-nos pelos nossos interesses individuais. Podemos requisitar filmes, livros, cd’s, jogos, ou podemos ali mesmo passar tempo com jogos de tabuleiro (como vi um pai e uma filha fazerem, o que me deliciou), com os tais filmes e jogos, navegar na internet ou simplesmente escolher um dos muitos sofás e ali ficar a folhear um livro ou uma revista. É pacífico. É mágico, com uma extensa vista para o rio, até chegar ao abraço do Cristo Rei. Esta é a minha biblioteca agora. Mas este espaço mágico já foi o da escola. Aquela ansiedade que antecedia a leitura de um livro era mais do que um simples folhear, era fazer as malas e preparar-me para viagens fantásticas, cada uma diferente da outra, todas a ensinarem-me qualquer coisa, a levarem-me por emoções e sítios novos dentro de mim…

Ainda nos dias de hoje têm essa capacidade, os livros. Circulando pelos corredores olhei para uma estante que não é habitual, e a lombada de um livro atrevido chamou por mim. Isto depois de ter dado voltas e voltas com os mais diferentes livros na mão, mas sem me conseguir decidir! E ele levou-me para casa, sem mais nem menos. Obrigou-me a lê-lo em menos de 24 horas, algo que não acontecia há anos. Talvez porque ainda não tivesse sido preciso até agora. E esta voragem de leitura, esta viagem numa história que, curiosamente, falava da magia da vida, trouxe-me um sossego à alma e uma calmaria que tanto necessito no meu espírito. Será magia…?

E assim hoje, enquanto ouvia aqueles meninos a lerem, pensava que uma biblioteca pode até mesmo salvar vidas, é um espaço que pode resgatar uma criança da solidão, abrir-lhe os horizontes da sua realidade mais triste, dar cor aos seus sonhos, e transmitir a capacidade de ver magia nos pequenos pormenores, nos pequenos momentos,…uma biblioteca pode salvá-la de uma vida mais cinzenta, mais estéril, feita de caminhos mais sombrios.

E, tal como concluiu hoje a senhora professora, dirigindo-se aos nossos utentes “nunca envelhecemos se conseguirmos sempre ver a beleza das coisas”. Aqueles pequeninos não perceberam talvez estas palavras, porque ainda são eternos…Mas eu não só as percebi como também as senti, e prometi à menina que há em mim nunca esquecer a magia, a dos livros e a da vida.
(Not the End)


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