domingo, 18 de maio de 2014

Pomba lenta




Longe da guerra, em Trás-os.Montes, o meu caro J.L. também fazia poesia. Sempre algo triste, talvez pelas memórias de um jovem destacado num inferno, talvez pela perda do seu grande amor para uma depressão pós-parto, e a perda de um filho que cresceu longe dos seus olhos...esta tristeza, no entanto, não faz morrer a beleza das suas palavras. Gosto muito deste poema, talvez porque fala da terra natal do meu pai, que partiu demasiado cedo, mas vivendo o suficiente para me deixar muitas memórias:

"Aqui, em Trás-os-Montes, onde o homem é mais inteiro
há as asas de uma pomba lenta
voando sobre os ramos dum pinheiro.
Aqui, em Trás-os-Montes, onde a vida é violenta.

E as fontes correm à medida da garganta
e ceifar mais não basta para encher o celeiro
há mais pão na arca quando canta
no silêncio das montanhas um ceifeiro.

Aqui, em Trás-os-Montes, tudo queima e a sombra é inventada
nas velas dum suposto navio tocado pelo vento
e o sol magoa os olhos com o raiar da madrugada.

E a boca ladra. E as palavras sabem morder.
e a terra arde. E a liberdade é o pensamento
aqui, em Trás-os-Montes, onde a pomba voa sem se perder."

J.L.

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