Mia Couto é um dos meus poetas e escritores preferidos.
Vou partilhar um poema dele que é profundo no sentido em que fala de um assunto ainda demasiado vivo nos dias de hoje: a violência doméstica e as agressões.
Infelizmente, alguém pode "tropeçar" nele e identificar-se no silêncio da poesia...
Para essas pessoas:
A paz de espírito não tem preço.
É preferível comer apenas uma sopa mas não deixar a dignidade passar fome...
Não nos conformemos em ser coisas!
A COISA
O silêncio é o modo
como o marido habita a casa.
Vencida a porta, ao final do dia,
o homem assume porte e posses.
A mesa é onde os seus cotovelos
derramam milenares cansaços.
Nesse cotovelório
vai trocando vida por idade.
Partilha a medonhez dos bichos:
medo do silêncio,
mais pavor ainda das palavras.
Para a mulher,
porém, ele não é senão um menino
no aguardo de um agrado.
Em redor do silêncio
ela rodopia, sem voz, sem cheiro, sem rosto.
Em solidão,
o homem come,
merecedor do que lhe é servido.
Depois,
bebe como se fosse bebido,
tragado pelo vazio dos desertos.
Dono do seu despovoado,
então, ele a agride, com ferocidade de bicho.
A mulher se estilhaça no soalho,
sombrio retrato da parede tombado.
No leito,
já servido o marido,
as lágrimas vão colando os seus fragmentos.
E a esposa volta a ser coisa.
in "Tradutor de chuvas"

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