Já me pus a pensar nas inúmeras coisas que a minha mãe me dizia, como todas as mães diziam, e que eu achava um perfeito disparate, como todos os miúdos achavam. Naturalmente porque todos os adolescentes iluminados pela suprema sabedoria do universo não podiam dar grande importância às frases feitas, proferidas por anciãos de quarenta anos...!
Uma dessas frases feitas (e detentora do primeiro lugar no top das verdades verdadinhas) é a famosa "Um dia quando fores mãe vais ver". E não é que é mesmo verdade? Damn! Quantas vezes eu dizia que não ia ser como a minha mãe, e agora engulo cada palavrinha de censura de adolescente enjoada. Na verdade, muitas coisas são diferentes, até porque a geração é diferente, e não somos pessoas iguais. Mas a essência...oh, a essência materna! Chatinha, protectora, preocupada, repetitiva...de vez em quando dou por mim a pensar, enquanto dou um sermão (sim, porque uma mãe não só faz como pensa várias coisas ao mesmo tempo, somos seres fantásticos) que estou em modo repeat passados vinte e...bem, alguns anos!, como se o tempo tivesse parado nos anos oitenta. O olhar que me é devolvido é o mesmo, ou os adolescentes não tivessem também a mesma essência. Ah, e o segundo nome próprio continua a fazer jeito numa chamada de atenção materna...quem quebrou a tradição de certeza que se arrependeu nesses momentos, confessem!
Outra frase que me horrorizava: "Nem toda a gente é tua amiga, e não há melhores amigos que os pais". Que mundo cruel era esse que me queriam fazer crer que eu habitava?! Evidentemente as pessoas não se separavam no curso natural da vida, não mudavam nos seus interesses e objectivos, e rancores e desamores eram coisa de gente já velha e amargurada, Pronto, lá a vida deu razão à mãe...já perdi a conta de quantas vezes me auto-intitulei de melhor amiga do meu bebé, que é maior que eu e desfaz a barba, mas isso agora não interessa nada para a questão.
E, a mais difícil de aceitar: "Com o passar dos anos já queremos é sossego". Bem, ainda não cheguei a esse ponto, o do sossego permanente. Mas sinto a ameaça lenta, que se manifesta nas saídas nocturnas mais curtas (quando me deito o sol ainda não apareceu) já não danço all night long, fazendo paragens obrigatórias para descanso envergonhado, e não olho para os saltos de dez centímetros com a mesma emoção e ternura de outrora, sendo que os rasos já não saem de casa apenas de dia pois têm um encanto do qual não me dava conta nos meus vintes...
![]() |
| Autch... |
Já respeito o calendário das consultas, a médica de família não dá tantos sermões, e já não deixo passar o prazo de seis meses das credenciais dos exames. O nível do colesterol é de facto um número com a sua importância, e ainda hoje ao almoço troquei um bacalhau com natas por frango grelhado, porque dizem os entendidos que a carne branca é que é. As borboletas no estômago só batem asas de vez em quando, e o botão do volume também funciona no sentido contrário!
Agora! é verdade que sempre me disseram que este momento, o do meio, o do equilíbrio, é que é o melhor. Mas eu pensava que era conversa de todos aqueles que se queriam convencer disso, para ignorarem a frustração dos anos que escorriam por entre os dedos e na pele menos tonificada. Só que é mesmo assim! Certos momento são mais raros mas mais apreciados. A pele ainda se aguenta e os pés nos saltos também, gasta-se mais creme, massajam-se mais os pés, e vive-se agora um pouco mais de tudo, porque a confiança é outra, certos medos desapareceram mas a curiosidade ainda se mantém com a mesma frescura, e os amigos são poucos mas bons!
Termos consciência que não somos imortais dá-nos um paladar diferente para saborear a vida, sem dúvida!
Termos consciência que não somos imortais dá-nos um paladar diferente para saborear a vida, sem dúvida!
Chego à conclusão que passamos todos pelo mesmo, mudam os sítios que estão in, as modas na roupa, no cabelo, na tecnologia... E até podem mudar os tempos e as vontades sim senhor, mas mantém-se algumas velhas verdades. Palavra de mãe e de mulher a entrar nos "entas"!


Sem comentários:
Enviar um comentário