segunda-feira, 4 de junho de 2012

Crise de Identidade

Crise! Falemos da crise então. Essa palavra curta mas de poder devastador no nosso vocabulário diário. A crise faz-nos companhia no café da manhã, na pastelaria do costume com as pessoas do costume; ao almoço, enquanto se vêem as noticías na televisão...e assim a crise nos acompanha, a par e passo no caminho do nosso dia. Sem dúvida ela existe. Está presente no aumento do custo de vida, e a maioria das carteiras andam mais leves, proporcionalmente às facturas mais pesadas...
Desta crise já se fala muito. Mas não se fala da outra crise que nasceu com esta: a crise existencial, a crise de quem vê o seu mundo com limitações desconhecidas até à chegada da troika ao nosso país. A crise de quem estava habituado a um certo nível de conforto, mesmo que tivesse que estabelecer prioridades. Mas agora existem prioridades entre as prioridades. E esta ginástica mental traz um cansaço que pode trazer uma tristeza. E esta contamina os dias, as horas, até que vida não é vivida, é tolerada com má cara e grandes lamentações pelas mais pequenas coisas, não se vendo um esforço para retirar o que há de positivo naquilo que se tem.
Passemos a exemplos práticos: o cinema! Muitas pessoas estavam habituadas a esse programa todos os fins-de-semana: um filme em boa companhia, pipocas, antecedidos de um cafézinho...feitas as contas, 15€ por cabeça, mais coisa menos coisa. Naturalmente agora é difícil, partindo do princípio que a responsabilidade só nos leva a gastar aquilo que podemos. E lá vem a torrente de lamúrias enquanto se pensa naquilo que se quer fazer e já não pode...Então, e porque não juntar familia, ou amigos, ou apenas a dois e ver-se um filme em casa, com pipocas caseiras? De luz apagada e comentários em voz alta, de pernas esticadas e sem joelhadas nas costas! Não se pôde ir jantar fora? Então inventar uma receita no restaurante da nossa cozinha, usar finalmente a loiça boa, acender umas velas, e dar a gorjeta ao nosso mealheiro!? Naturalmente uma extravagância sabe bem, e não precisamos ser meninos bem comportados para todo o sempre... Mas, em momentos de crise, devemos procurar as coisas positivas, valorizar o que é sentido como garantido, colorir momentos banais e transformá-los em algo doce, quente...aproveitar para sermos mais desapegados das coisas, e procurar a essência dos momentos, que são a partilha, a companhia, nem que seja a de nós mesmos...a palavra “crise” não pode ser banalizada, porque a verdadeira crise é a de quem fica sem tecto, sem pão na mesa, sem dignidade. Tudo o resto são pequenos nadas, porque apenas precisamos do essencial. Tudo o resto é o que temos, e não o que somos. E, em momentos de crise, é que muitas vezes nos (re)encontramos a nós próprios, num mundo que tem de ser mais que matéria para a nossa existência fazer sentido.

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