Era apenas uma criança que gostava de pensar nas coisas que a rodeavam, que eram vividas e debatidas no, ainda pequeno, círculo da sua vida. Então um dia teve uma ideia, e nela pensou com a sabedoria dos seus nove anos. E foi ter com a sua mãe, que também ela divagava sobre os assuntos do seu mundo.
“Mãe” começou por dizer o pequeno pensador “O que achas de eu escrever uma carta a Deus?”.
“A Deus?” a mãe admirou-se, fazendo uma pausa nas suas lides domésticas feitas de gestos automáticos, “Porquê a Deus e não ao pai natal?” - um leve sorriso fez-se ver, discreto.
“Porque Deus ninguém tem a certeza que existe, mas o pai natal toda a gente sabe que não existe mesmo! E, se ele existisse, acho que não me podia ajudar.”
“Então porquê?” - o sorriso já não se conseguiu manter na discrição.
“Porque eu não quero falar de prendas nem das coisas que se podem ter com dinheiro. E o pai natal só percebe de brinquedos.”
Um silêncio admirado. Então a mãe inclinou-se e perguntou serenamente: “Queres uma folha e uma caneta?”. E assim começou a carta a Deus, com a criança sentada na mesa da cozinha enquanto a mãe começava o doce ritual da sobremesa para o jantar...
“Deus: ninguém sabe se existes, porque as pessoas só acreditam nas coisas que vêem. Eu também não sei mas, para o caso de existires mesmo, queria falar-te de umas coisas!
Deves saber que eu gosto muito de animais, por isso queria pedir-te para que todas as pessoas os vissem como eu. Eles choram e riem, gostam como nós gostamos, têm saudades, têm medo e também se sentem contentes! Muita gente não acredita nisto, mas basta olhar para os olhos deles, porque são como os nossos. Os grandes dizem que os olhos são o espelho da alma...mas não são só os olhos dos humanos pois não? Então, se as pessoas os virem como eu, já não vão ter coragem de os abandonar, ou de os maltratar...A mãe diz que eu ainda vou ser veterinário, e acho que fica muito contente com a ideia. Embora ela ultimamente ande muito triste, porque tem uma amiga com uma doença chamada cancro. Costuma ir visitá-la ao hospital e quando vem para casa até vomita, ela diz que é da tristeza. E eu às vezes penso, será que os homens que inventam coisas como as armas não podiam antes tirar um curso para tentar curar doenças como esta tal de cancro? Eu gostava, porque as pessoas ficariam muito mais felizes!
E pronto, o meu pai já chegou a casa...Noutro dia escrevo mais um bocadinho. Assinado: Jorge.”
Anos mais tarde o pequeno, e agora adulto Jorge, veterinário de profissão, volta a ter esta carta nas mãos. Sorri e relembra aquele momento de inspiração. E quase consegue voltar a sentir o cheiro do bolo a cozer no forno. A mãe sobrevivera ao cancro que dizia ser da amiga, e confessara mais tarde que a fé infantil que vira numa folha de papel a inspirara e lhe dera mais força de viver...Não escrevera mais carta nenhuma, mas nunca deixara de pensar no que o rodeava, e sempre procurara as soluções possíveis para os problemas com que se deparava, e no que fazer para melhorar o que estava mal na sua vida e na dos outros. E percebia agora, ao ler aquela letra infantil, que aquela criança nunca morrera dentro de si, e os seus olhos mantinham a mesma fé e alegria de viver com que encarava o mundo.

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