sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A Ronda dos Mortos

Na minha infância tive vários tipos de vizinhos: os prestáveis, os coscuvilheiros, os simpáticos e os nem tanto, e aqueles que a gente (eu e os outros miúdos) chamavam de "os malucos". Era um casal estranho, ele profundamente calado e sisudo, ela completamente alienada, sempre a falar sózinha, num discurso incoerente mas recheado de palavras ricas, que revelavam uma instrução acima da média. Dizia-se que tinham um filho, mas que fôra levado devido ao "parto lhe ter subido à cabeça", embora também se falasse de um esgotamento que ela tivera enquanto estudava na universidade. Na verdade, e ao certo, nunca nada se soube sobre aquele casal...eram os malucos, e pronto! Tinhamos medo dela, íamos escutar à porta de casa e fugiamos escada abaixo quando ela nos espreitava, e eu tinha um verdadeiro terror do olhar fixo que tinha de suportar na longa viagem de elevador com ela até ao terceiro andar. A certa altura, ela convenceu-se que eu era filha dela, tendo sido raptada e feita prisioneira três andares acima. Claro que a minha mãe sacudiu-lhe as dúvidas com uma vassoura, enquanto lavava a entrada do prédio!
Entretanto cresci, saí da casa materna, a vida seguiu o seu curso até que, por ironia do destino, vim trabalhar para uma instituição onde os meus ex-vizinhos são utentes. Claro que agora os encaro com olhos de adulta, a pobre senhora não me mete medo embora continue a mesma, a falar e a falar, no mundo dela...respondendo, quando calha, a um "bom dia" que insistimos em lhe dirigir. Ele, calado e cisudo, igualmente. Sobre o passado de ambos mantém-se as mesmas hipóteses. Fiquei apenas a saber que ele foi escriturário, depois de vir da guerra do ultramar. Desconhecia este último facto, mas fez-se alguma luz sobre o semblante que ele carrega. Mais ainda quando me foi dado a ler um poema escrito por ele. Imaginei-o em casa, na sua solidão acompanhada por uma mulher que falava e nada dizia, de cigarro aceso em frente a uma máquina de escrever. Passou uma guerra e vivia outra, diferente, todos os dias. Para os vizinhos eles são aqueles com quem não se quer entrar no elevador. Mas são seres humanos, com a sua história, com as suas dores e raivas, e um passado como qualquer outra pessoa que se cruza connosco. Transcrevi aqui as suas palavras batidas à máquina, porque me tocaram, e fizeram com que eu o olhasse de uma forma diferente.
As pessoas não são, mesmo, todas iguais:
 
 
 
A RONDA DOS MORTOS
 

Escuta-se no silêncio

o rumor de umas botas cardadas

- são os meus passos

a caminho do cemitério

a fazer a minha ronda:

a quebrar o silêncio peculiar

de três mortos

que aí foram enterrar.

Mas escuto sua voz

a pedirem um ramo de flores que cheire

a flores verdadeiras,

crocodilos sevos à sua altura

e uma fogueira astral que os aqueça

no seu frio polar

- uma reza em latim

que os recomende a Deus.

Também ouço o troar

d’um clarim

nos céus

e uma salva de tiros para o ar

a recordar

que alguém morreu

antes de chegar o seu outono,

na mais profunda solidão

no maior ostracismo e abandono.

E ninguém tuge

nem muge

ninguém tem a coragem de arrebitar o nariz

e diz

um redondo “NÃO”!!!

E assim seguimos todos engalanados

na nossa procissão

de braços cruzados

de ouvidos tapados

de lábios lacrados

de olhos vendados

cegos surdos e mudos

julgando caminhar direito por caminhos tortos

mas todos, todos

imbecilmente mortos!...

Ah! Mas não julguem que fico calado

que sou pau mandado

ou que acaba aqui a minha luta!?

Posso ser cabrão

filho da puta

charlatão

aldrabão

jogador

fumador

drogado

alcoolizado

inveterado

de vinhos, whisky e cerveja.

Serei tudo isto e muito mais

só não sou um morto que calais

porque sou tudo menos o que querem que eu seja!...

José L.

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