segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A Caixa Mágico-viciante

Imagem in derepente.com.br 


O meu fim de tarde foi em modo dolce fare niente, num namoro delicioso entre mim, o meu sofá e o comando da box da tv por cabo. Oh, a maravilhosa magia de recuar sete dias! Sinto-me um David Copperfield em versão feminina, hoje estou na segunda-feira e puf!, em dois segundos volto ao fim-de-semana. Como é bom termos a nossa própria máquina do tempo. Limitado a uma semana, é certo, e só recua, não avança...mas quem quer saltar direto para o fim da história?!
 
Com tanta modernice, não consigo parar de pensar que "ainda sou do tempo" (agora mesmo visualizei um anúncio feito com uma idosa fofinha, mas vou já, já apagar isso da minha mente) em que, quem tinha televisão, eram os mais privilegiados, não necessariamente ricos, claro. Eu e a minha mãe não fazíamos parte desse rol de sortudos, na minha primeira meia dúzia de anos de vida. Mas havia uma vantagem: íamos, nós e os vizinhos, beber a "bica" ao estabelecimento lá do sítio, que tinha televisão! Ajeitavam-se as cadeiras e, lado a lado, convivíamos enquanto víamos a novela com cheiro a cravo e canela. Maravilhados em frente à caixinha mágica, entrávamos literalmente numa outra dimensão. Era como uma ida ao cinema em preço low cost.
 
Recordo também o dia em que o meu pai apareceu, numa das suas visitas regulares, com uma dessas caixas mágicas, ainda a preto e branco. Aquela imagem, o som que invadia a rotina até ali apenas invadida pelo do rádio a pilhas...! E os programas, os desenhos animados que me marcaram: "Candy Candy", com os seus olhos imensos (lei da compensação do imaginário chinês), que me faziam fugir da catequese e entrar à socapa pela janela do quarto (não cheguei a fazer a primeira comunhão, óbvio); "Topo Gigio", paixão latina que me fez chorar no último episódio, se ele não ia voltar significava que ia morrer, tendo por destino certo o céu dos bonecos animados; Dartacão, o romântico de capa e espada na mão; Heidi e  Pedro, felizes nos alpes sem redes móveis; o Marco, viajante aventureiro que até apanhava pielas de vinho tinto e não parecia mal...Quanto alimento para a minha imaginação! Passámos a ir menos ao café, e aos poucos todos os vizinhos também. Começava, assim, a era solitária da tecnologia no nosso país.
 
Hoje em dia a mesma já é usada para quase tudo, e não nos deslumbra da mesma forma, o que antigamente era um luxo agora é natural: praticamente existe uma televisão por pessoa debaixo do mesmo tecto. Não sou anti-tecnologia, eu mesma sou uma consumidora do comodismo, até ando para trás sete dias no tempo televisivo! Mas, sem dúvida, que caímos em alguns excessos e dependências. A minha começou no dia em que a caixa mágica entrou na minha casa, e passei a ser dependente da dose diária de televisão para alimentar o vício da minha imaginação; hoje em dia, se cai o sinal do cabo por mais de uma hora, começo a sentir a ressaca. Olá, o meu nome é Inês, e sou tv cabodependente...
 
Pensando bem, menos tecnologia = mais convívio e tempo para outras actividades. O tempo é gerido e consumido por horários da tv, redes sociais, sms's, jogos de playstation, e por aí fora. Como exemplo posso dizer que cheguei a beber um café à pressa com uma amiga minha porque ela, pasmem-se!, tinha que estar em casa, a determinada hora, para ver um filme...!
 
Por tudo isto, e apesar do conforto, continuo a escrever os rascunhos do meu pensamento em papel. Menos cómodo, mais prazeroso, mais eu. Assim, e tal como hoje fiz, gosto de ir com o meu filho e a minha cadela, apanhar sol e vento na pele, apenas a trela pela mão. Arejar corpo e mente (a cadela normalmente fica à beira de um enfarte, já está velha para tanta caminhada).
Largamos por umas horas as tecnologias, e vamos simplesmente usufruir a simplicidade de tudo: afinal de contas, não existe caixinha mais mágica que aquela que trazemos dentro da nossa cabeça.


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