Ontem, durante a hora de almoço, estava eu com colegas
minhas sentadas à mesa habitual do refeitório, quando me deparei com o seguinte
cenário: um utente, já idoso, especou-se junto a nós, com a boca aberta e uns
restos do almoço na cara, a olhar para os nossos pratos. A pele com um tom
acinzentado e os olhos como que vazios, interessados apenas naquilo que
estávamos a comer. De imediato ouvi uma voz na minha cabeça, a dizer em tom
teatral “Welcome to Zombieland”. E senti-me algo entre, o deprimida perante tal
visão, com vontade de rir pelo pensamento algo sádico, e um pouco menos vontade
de comer! Como este utente, existem outros. E é interessante o fascínio que um
prato de comida, em especial o do vizinho, pode exercer em certas pessoas com
mais idade. Será que, lentamente, nos vamos tornando zombies, mais mortos que
vivos? Não pela vista que se cansa, o joelho que emperra, a pele que enruga, a
mama que descai, e outras “flacilidades” que não me apetece descrever aqui…?
Mas sim pelo atrofiamento mental voluntário, o estreitamento de horizontes, de
anseios, de curiosidades que vão para lá da ementa semanal? Por aquilo que vou
vendo ao longo dos (poucos) anos em que trabalho na área do serviço social, penso que é exatamente
o que acontece a quem não se interessa por si mesmo, achando que se acabaram as capacidades, que nada mais há para aprender ou para questionar. Eu não me consigo imaginar assim, seja em
que tipo de futuro for. E tudo farei, enquanto for viva e com capacidades, para
manter a minha mente e criatividade em ebulição, e para não me contentar com um
dia-a-dia robotizado, alimentando apenas o corpo…Deus me salve e guarde de vir
a ser uma futura inquilina da Zombieland; posso até vir a andar de bengala. Mas,
caramba! vou ter sempre um livro na outra.

Sem comentários:
Enviar um comentário