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A minha gata tem uma tara inexplicável: algodão. A simples visão de algodão em bolinhas, em discos, ou seja de que forma for deixa-a completamente possuída! Aproveita qualquer oportunidade em que eu esteja distraída, enquanto me desmaquilho ou trato da manicure; finge um ar desinteressado e aproxima-se sorrateiramente, até deitar as unhas ao objecto cobiçado. Aquilo cola-se na língua e, sinceramente, o ar dela não é de prazer, mas de alguma estranha forma aquele ritual parece fasciná-la. Talvez tenha sempre uma expectativa que nunca chega a realizar!
À pouco tempo estava eu sentada em cima da minha cama, a ouvir música e rodeada de vernizes, limas, acetona e bolinhas coloridas de algodão: o playground perfeito para o fetiche felino! Ela estava com aquele ar frustrado de quem quer ter e não pode, porque eu policiava cada movimento que ela fazia. E, contemplando aquele pequeno focinho que só faltava babar-se, pensei que realmente todos temos assim um pequeno vício, o de querermos muito uma coisa que sabemos que nos faz mal e que, no fim, não nos há-de saber assim tão bem. Mas repetimos uma e outra vez a queda na tentação, nos mesmos erros. E, a cada bola de algodão, a cada comida proibida, a cada má escolha, juramos sempre nunca mais cair no mesmo. Até surgir novamente uma oportunidade, e todos os traumas e consequências já sofridas vão para uma gaveta algures no nosso inconsciente. Mas chega o dia em que o ciclo vicioso deu a volta e encontramo-nos no ponto de partida. Então abre-se a tal gaveta, assim como todos os armários que estavam convenientemente fechados na nossa memória... e assim se vai mobilando uma casa inteira dentro de nós, cheia de coisas que não prestam, no condomínio cada vez mais fechado onde mora a nossa alma.
Por agora o algodão está arrumado e a gata esticada ao sabor da ventoinha. Mas o verniz já vai lascando. E logo, ou amanhã, lá voltamos nós ao mesmo!

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