domingo, 11 de agosto de 2013

Amar sem Pele




Quando se pensa que já se viveu todo o tipo de paixões, descobre-se assim de repente, como um furacão que invade o céu pacífico da nossa existência, que há um tipo de sentimento que aperta o coração, que o dilata de felicidade ou o faz contrair de tristeza, uma tristeza diferente que não sai do mesmo lugar. É possível, afinal, duas pessoas encontrarem-se num cruzamento do destino, sem direcção sinalizada, e sentirem uma ligação que não passa pelo contacto físico, ela atravessa de uma só vez a pele, rasga músculo, trespassa ossos, mergulha no sangue e vai directo ao coração. E fulmina-o sem haver uma razão, uma justificação. É só assim, sem rodeios nem meio termo.

Este é um sentimento bem mais perigoso. Enquanto nos perdemos num corpo, numa cama, num orgasmo, toldam-se os outros sentidos, aqueles que nada sentem na matéria. E o coração bate mais devagar no plano físico, aquele batimento profundo e mais dentro não se torna consciente. Mas quando ouvimos o ritmo cardíaco das nossas emoções, ele torna-se ensurdecedor. E vem depois a ansiedade, a urgência de transformar tudo que se sente em gestos, num abraço, num beijo profundo, num suor feito a dois.
Quando esta paixão morre na praia, quando a canção chega ao fim, ou "tudo foi para ti uma estúpida canção que só eu ouvi", a perda do que não se chegou a ter nas mãos ganha uma dimensão de tristeza que nunca se supôs que pudesse existir. Porque não houve a intimidade, a história vivida a dois. É um sentido que não faz sentido!
Talvez este seja, assim, o maior desgosto que se pode ter no plano emocional entre duas pessoas que partilharam aquilo que não havia, afinal: o quase-amar, o quase-beijar, a quase-felicidade...Porque a interrogação que mais perdura na inconsciência de uma pessoa é "e se...?". E dói mais ficar com tanto para dar, que dar ao outro tudo de nós.


Sem comentários:

Enviar um comentário