Hoje ouvi mais uma das (muitas) histórias curiosas contadas por um amigo meu, um jovem inquieto com mais de sessenta anos.Já muitos episódios curiosos foram contados por ele, do tempo em que era um jovem que calcorreava Alfama: as conversas picantes de varinas de língua afiada; as boleias apanhadas no elétrico; os dias de praia na companhia de estrangeiras louraças e jeitosas "com'ó camano", encantadas com os machos latinos; os travestis brasileiros que apanhavam tareias homofóbicas; as artistas italianas de sangue a ferver nas veias pelos belos "ragazzos"; a cave temida de um café onde se curavam, a sangue frio, os esquentamentos dos jovens garanhões; os saraus literários e as noites de fado à desgarrada; as fugas forçadas à polícia; o 25 de Abril, e os interesses que nasceram no pós...uma variedade de assuntos que são despoletados por uma qualquer conversa, como muitas que temos diariamente, e nos levam numa viagem ao passado, que ele recorda, e eu visualizo como se lá tivesse estado.
Então, hoje, o meu amigo contou que, no tempo em que trabalhava, quando um colega ficava de baixa médica, todos os outros se juntavam e faziam uma "vaquinha", a fim de lhe completar o ordenado. Assim, no final do mês a esposa ia buscar o dinheiro que tinha sido reunido, para não faltarem os bens necessários numa casa temporariamente mais pobre. Falamos aqui de um espírito de entreajuda que se foi esbatendo até aos nossos dias, num processo inverso da evolução de tudo o resto.
Agora, perante a miséria dos outros, tanta gente tem "tanta pena"...mas dificilmente há um gesto na prática. E, os que o têm, num impulso de humanidade, muitas vezes são rotulados de parvos ou ingénuos, porque hoje em dia "ninguém agradece nada". Ora, isto é uma grande mentira; existem pessoas que realmente precisam de ajuda e ficam, de facto, agradecidas. Mas estas são as que, normalmente, menos se queixam. Se existem as outras, as que tiram proveito da bondade alheia, não faz mal. O Bem que é feito, feito está. E o gesto da solidariedade nunca é em vão.
Ironicamente, hoje em dia existem muito mais instituições, sem fins lucrativos (?) com o objectivo de ajudar o próximo. Mas, em contrapartida, deixou de se conhecer o vizinho do lado, e vamo-nos tornando surdos aos pedidos de ajuda que moram tão perto de nós.
Felizmente, existem ainda muitas excepções à regra, e eu já tive a felicidade de conhecer pessoas especiais, que teimam em garantir que a tradição ainda seja, hoje, o que ontem era.

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