sábado, 28 de setembro de 2013

Ordena que Te Ame


 
 
Contaram-me que existe uma mulher que está, neste momento, a atravessar um período negro, mergulhada numa profunda depressão. É acompanhada por um psiquiatra, cujos preços são anti-terapêuticos, e toma estabilizadores de humor, uma vez que oscila entre euforias e momentos negros de tristeza e falta de perspectivas. "São situações muito complicadas e de muita fragilidade, não se superam de um dia para o outro" - fui solidária porque, de facto, compreendo como pode ser exaustivo, não só para a pessoa que vive a depressão, mas para quem a rodeia e tenta, inutilmente, ajudar.
"Pois é. E pensar que ela está assim por um homem, nem posso olhar para a cara dele".
Fiquei a olhar para ela, chocada com a conclusão fácil a que ela chegou. Pensei em nada dizer, mas foi mais forte que eu. Ninguém fica assim por outra pessoa, fica-se assim porque algo não está bem por dentro, a dependência emocional extrema não pode ser considerada normal.
"Mas ele não presta, não lhe dá valor". Ok, ela é que não se valoriza, o que será uma das consequências da instabilidade emocional dela. Mas isto já só pensei, não o disse em voz alta... a minha interlocutora encontrava-se demasiado preocupada com a amiga, que até já tinha tentado o suicídio, e não valia a pena entrarmos num debate. Só que fiquei a reflectir nisto; de facto, temos a mania de procurar sempre um culpado nos fracassos que nos acontecem, seja em que área da nossa vida for. Neste caso o namorado pode aproveitar-se da dependência dela, da sua fragilidade, o que pode não fazer dele a pessoa mais correcta. Mas a decisão dela deixar o trabalho para o seguir para outro lado do país, de se anular como pessoa, deixar de ter um "eu" para ser um "dele", é apenas da responsabilidade dela e de mais ninguém. Isto denota fragilidades que têm origem não naquela relação, mas provavelmente, numa idade tenra, e inicia-se a busca inglória do amor salvador, que vai preencher todas as lacunas, sustentando-se a si mesmo pelo simples facto de se materializar na existência de outra pessoa; só que esta pessoa nunca poderá corresponder às expectativas de perfeição.
Seja de que forma for, a felicidade começa por dentro, e não há estabilizadores de humor que substituam a paz interior.

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