
Hoje saí mais cedo de casa a fim de poder ir à estação dos correios levantar uma encomenda, antes de seguir para o trabalho. Lá chegada, deparo-me com uma fila madrugadora, constituída por idosos que, estando em idade de reforma e, talvez, com mais tempo livre que eu, naturalmente adoram levantar-se cedo e estar nos sítios à hora de abertura...Ainda me passou pela cabeça pedir para me cederem a vez, já que eu tinha que picar o cartão sem atrasos e, de tarde, talvez já não apanhasse os correios abertos. Mas o meu anjo da guarda dissuadiu-me: certamente ainda seria desancada pelo atrevimento, mesmo que o fizesse com educação e ar de súplica...Após cinco minutos de hesitação percebi que não me iria despachar a tempo e, frustrada, saí dali, com pensamentos pouco bonitos para aquela hora da manhã. Ia tão distraída que quase não via uma das coisas mais surpreendentes até hoje: estava um carro estacionado ali perto, cheio de post-it colados em todos os vidros, e todos diziam apenas uma coisa, uma palavra simples! "Amo-te". Claro que parei para documentar, ver em filmes é banal, mas na vida real é inédito, e todos os pensamentos irritados que habitavam a minha mente foram substituídos por coraçõezinhos e recadinhos de amor. Eu! que não sou nada disso...uma vizinha que por ali estava parada, a admirar como eu tal obra romântica, disse que o carro era de uma rapariga. Uau, aquele gesto era masculino! Mais interessante se tornava! Fui trabalhar, contei às colegas e mostrei as fotos, prova do crime de invasão amorosa de propriedade alheia. "Oooohhh!!!!!!!!!!!", todas agradadas e um pouco invejosas da rapariga que era amada umas 30 vezes por escrito: a derradeira declaração é em papel! Conforme o dia decorreu, lembrava-me disto de vez em quando, e imaginava a cara dela...até que me ocorreu que esta podia não ser uma história de amor, mas sim de terror, que incluía violação de ordem de restrição. Na melhor das hipóteses podia ser um acto desesperado de quem fez grande porcaria e precisa reconquistar aquilo que perdeu.

Será que este era um presente amargo? Não sou de ver logo o lado negro das coisas, mas uma dose de realismo não faz mal a ninguém! Resta-me desejar que aquela paciência toda tenha sido gerada por uma mente sã! e vou deixar-me imbuir do espírito encantado de uma história de amor. Já temos demasiadas coisas a tirar-nos a magia da vida....e a minha manhã foi melhor que isso, foi inesperada, um gesto de terceiros pôs-me a sorrir! Assim, até valeu a pena a ida aos correios. Espero que, neste momento, alguém esteja a viver um final feliz!
Nota: fui levantar a encomenda ao fim do dia, a correr depois de um dia de trabalho...e nenhum idoso à vista! o que será natural, uma vez que já eram seis da tarde...e, provavelmente, a hora de jantar de quem se levanta mais cedo que eu!
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