domingo, 22 de setembro de 2013

Coisas de Bichos






Todos os dias passo por um cão, que está à janela de um prédio, com um ar curioso e activo, de orelhas em pé e olhos atentos. Tem até uma almofadinha por baixo das patas, de modo a que a cusquice matinal seja o mais confortável possível. Põe-me sempre um sorriso no rosto, vá eu nas calmas ou cheia de pressa. Hoje foi um dos dias em que até parei para o observar, assobiando-lhe provocadoramente. Mas ele foi imune à minha sedução humana, contemplando-me com uma boa dose de indiferença; por trás de mim passava-se algo muito mais interessante, certamente! Segui caminho, ainda a sorrir. E dei por mim a pensar em todos os bichos com  que me cruzo, ficando sempre com cara de parva. Ora é este cão, ou um outro que está nos treinos matinais com a dona, que não parece cuidar muito de si mesma, mas que se manteve firme no objectivo de emagrecer o seu labrador. E conseguiu, com um frisbee e muita paciência, torná-lo num bonitão elegante de quatro patas! Passo também por cavalos, de manhã vejo-los a pastar, e de tarde no picadeiro, às voltas com os tratadores. E fico sempre abismada com a sua beleza.
Vejo ovelhas, cabras, e até burros. Uma vez, levava eu um saco com uma couve para casa, e a couve quem a comeu foi a burra, que estava grávida na altura, e cujo filho também já conheci. Já se tornou óbvio que passo perto de uma quinta?, onde também existem gatos de todas as cores, e um cão enorme, não imagino qual a raça ou a idade dele, mas é um pequeno monstro, com imenso pêlo, assustador no seu jeito sinistramente quieto. Já o imaginei em humano, e acho que seria um velho barbudo de poucas falas!
Fui andando e divagando, enquanto ouvia Metallica nos fones, para não perder a energia nos passos automáticos que  nunca andam à velocidade da minha mente...e pensei que, de facto, tenho um laço especial com os animais,  desde muito pequena. O primeiro contacto estreito que me lembro de ter com um, tinha eu seis anos. Era uma criança solitária e introvertida, até vir morar, com oito anos, para a zona onde ainda vivo. A minha mãe passava o dia inteiro fora a trabalhar, e eu passava o dia inteiro sozinha, os receios maternos não me permitiam falar com ninguém fora da escola, pelo que ia e vinha para casa, chave num cordão ao pescoço, e orientava o meu dia-a-dia com uma maturidade pouco apropriada à idade. Nesta rotina, apareceu um cão. Não me lembro como nem porquê. Tenho apenas uma vaga imagem dele, grande e preto, que ficava de guarda em frente à casa, tomando conta de mim. O ambiente era meio rural, havia um enorme campo de papoilas, e ele levava-me à escola, espreitava-me no intervalo, e levava-me de volta a casa. Não me lembro se alguma vez lhe dei comida, mas lembro-me de o acariciar sem medo. Pouco antes de me mudar, ele desapareceu, mas foi com este cão da minha infância que, não sendo meu, me ensinou o que era sentir amor por um animal. E, se aprendi com ele o que era amor, com  um outro aprendi que, se os amamos, também temos que os respeitar! Uma vizinha nossa tinha um pastor alemão e, de vez em quando, ela dava-lhe um ligeiro açoite quando ele não lhe obedecia. Então, um dia, estava eu ao lado dele, no cimo de uma rua, enquanto a dona foi ao café, ou mercearia, não me lembro bem, com a minha mãe. Virei-me para o cão e mandei-o para casa. Ignorou-me, atento aos movimentos da dona. Sem pensar, e num gesto de imitação, dei-lhe um açoite. Como seria de esperar, o meu braço foi parar à boca dele. Sem o largar, rosnava ameaçadoramente. "Não te mexas!" ouvi a vizinha gritar, enquanto vinha a correr com a minha mãe em meu socorro. Pois, eu não pretendia mexer-me, tinha seis anos mas não era parva. E, enquanto elas corriam aflitas, eu não estava a sentir medo porque ele não ferrou os dentes. Só rosnava e olhava-me. Os olhos deles falam como os nossos, e eu percebi ali que tinha pisado o risco, só a dona lhe podia dar um açoite, o que eu fiz fôra uma falta de respeito! "Ele não mordeu, estava só a dar um aviso" a voz da vizinha anunciou alto o que me ia na mente. Não ganhei medo algum aos cães, mas aprendi que eles merecem o nosso respeito.
Por fim, ainda a viver no mesmo sítio, aprendi também o que é o sentimento de culpa por tratar mal um animal. De tal forma, que hoje em dia não consigo matar uma mosca, perco imenso tempo a enxotá-la para a janela (sou alvo de gozo, é claro!). Continuando, sabem o que são bichinhos da conta? Pois eu não sabia! Apenas sabia que gostava de pisar aquelas bolinhas cinzentas porque davam pequenos estalos engraçados. Até que um dia, a sábia voz materna me perguntou porque estava eu a matar um bichinho daqueles. A matar?! Foi avassalador para o meu pequeno coração. De tal forma que fui enterrar os restos mortais e crocantes debaixo de um grande carvalho que lá existia perto de casa,
fiz uma cruz com dois pauzinhos, e rezei um Pai-Nosso, convencida que ia parar ao inferno por ter acabado com uma vida inocente. O mais engraçado é que estes episódios/lições marcaram a minha memória, e não sei se foram eles que me fizeram ser fã de animais, mas a verdade é que nunca me foi permitido ter nenhum, excepto um periquito que viveu solitário e se masturbava nas folhas de alface que lhe pendurava na gaiola. Era um bicho inteligente e engraçado, tinha sempre a gaiola aberta e dormia em cima da porta. Até ao fatídico dia em que fez um voo picado que correu mal e caiu num balde com detergente, que tinha deixado no canto antes de sair de casa....overdose de sonasol!
Conclusão: no dia em que tive a minha casa, a bicharada começou a entrar, e assim é até hoje, fazendo parte da família. O meu filho adora animais, tem um laço especial com o seu gato Tobias Joaquim, e acredito que tornou a infância dele mais feliz. Tenho amigos que já passaram pelo desgosto de perder um animal e não querem mais nenhum, com receio de voltar a sofrer. Bem, eu já perdi uns quantos amigos de quatro patas, o primeiro estava eu grávida, e a veterinária não sabia o que fazer com as minhas lágrimas exacerbadas pelas hormonas, enquanto assistia à morte do meu primeiro gato, de seu nome Mike...e de quem tenho imensas saudades, passados 16 anos já.  Mas não tenho medo de voltar a sofrer, e vou ter sempre um animal de estimação, porque é natural que morram antes de nós (a menos que algo corra muito, muito mal!), e importa a vida que lhes proporcionamos, e as alegrias que eles nos dão a nós. Sofro muito mais ao ver animais ao abandono, ou os que são maltratados e até torturados por quem devia cuidar deles.
Existe uma expressão que diz "Mundo Cão". Mas não. "Mundo Homem"! Enquanto houver maus tratos a crianças, idosos, animais, e a todo o ser indefeso, este será sempre um Mundo Homem. E por isso gosto de me evadir até à minha infância, aos  momentos em que defini o Amor, o Respeito, e a Piedade pelo próximo, seja ser humano ou animal.












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