Já há umas semanas fui fazer compras ao talho aqui perto de casa. Enquanto esperava para ser atendida, ouço uma voz vinda da rua a perguntar se o talho estava longe; era um vizinho, que é cego. Era guiado pelo seu cão, um labrador preto lustroso. Responderam que não e ele ordena "Busca porta". Lá vieram os dois. Assim que entraram foram o centro das atenções. Por um lado, o estranho fascínio que as pessoas sentem por verem alguém diferente, especialmente quando estão à vontadinha, uma vez que o olhar não lhes é devolvido. Por outro lado, a presença daquele cão, qual herói que veio para salvar o dia! O meu vizinho já eu conheço bem, muito falador e sempre tão bem disposto que até me faz sentir um bocado envergonhada. É daquelas pessoas que, apesar de viver num mundo de escuridão, ilumina qualquer sítio onde apareça. Agora o cão nunca eu tinha visto, apenas a anterior cadela guia, que já morrera. Cheguei-me para lhe fazer uma festa, que ele aceitou com indiferença, sentado bem encostado à perna do dono, numa atitude protectora. Não fui a única deslumbrada com o cão, e ele foi um animal privilegiado com excesso de mimos durante aqueles minutos, mas manteve a postura atenta e dedicada. Este ar de indiferença suscitou a curiosidade das pessoas em quererem saber mais sobre aquele guarda-costas de quatro patas. Então o dono contou vários episódios, um deles que no Natal ele roubou um bolo rei e devorou-o em três segundos; outro que é doido pelas pernas das senhoras, porque lhe cheira ao creme hidratante e ele não resiste a lamber, já quase pondo o dono em sarilhos...afinal de contas, não deixava de ser um cão!
No meio desta conversa uma senhora passou por eles e pôs uma mão no braço do homem ...e lá se foi a postura zen do bicho! Levantou-se num ápice, mas o dono refreou o gesto com uma palavra, explicando-nos depois que o toque físico o põe em atitude de defesa e, se necessário, de ataque também. Foi dessa forma que o salvou de um assalto, certa vez, defendendo-o com o próprio corpo!
Fiquei absolutamente rendida a este animal, que emanava tanta luz quanto o seu dono, sendo capaz de o guiar e proteger sem hesitações, num amor e dedicação incondicionais, sem nada pedir em troca...vim para casa com a sensação maravilhosa de ter estado perante um anjo negro de quatro patas, que nos deu a todos, naquela manhã, a bênção da sua companhia. Por vezes há, assim, encontros felizes...

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