Falei aqui, há pouco tempo, de um casal diferente, ela perdida num mundo só dela, falando muito com si mesma mas nada dizendo a quem a rodeia. Ele, calado e quase sinistramente sisudo. Quando caminham ela vai sempre dois passos atrás, no seu monólogo incoerente, e ele calado, sempre calado, como se não a visse. Transcrevi, na altura, um poema escrito por ele, intitulado "A Ronda dos mortos", que me tocou, pois revelava a mágoa e a intensidade que não se adivinhava neste homem, que foi combatente do ultramar.
Uma vez mais surpreendeu-me, desta vez com um poema escrito no dia dos namorados: a prova que o amor é resistente às intempéries, e que a sua intensidade, quando ele é verdadeiro, não se dilui no tempo. Ganha novas formas, adapta-se e consegue renascer mesmo naquele que parece ser um solo estéril...e essa prova fica aqui transcrita, a prova também que loucos somos nós, quando não sabemos ver para além do que parece:
AINDA DE TI, MULHER NO MEU TEMPO
(Ainda mesmo agora como há sessenta anos atrás
quando começou a desabrochar em nós um icástico amor simbolizado num pequeno botão de rosa que é hoje uma flor viçosa no jardim do nosso outono)
Pelo que não sei da corrente
das águas de um rio parado
onde desliza suavemente
a forma de teu corpo acabado
qual corpo de Eva pudica
antes de trincar a maçã
e conhecer o pecado
e teus lábios
temporais cerejas apetecidas
pelos pássaros de voo ensaiado
e então de teus olhos
onde está estampada
a pureza dos cristais verdadeiros
e fará de teus seios
pequeninas colinas
onde desponta sempre a madrugada
e eu desperto em teu colo
feito para todas as batalhas.
Para ti, Mulher no meu tempo uniforme
onde não cabe nenhuma morte
por mais mortes
a que os deuses me condenem,
sujei as fontes de água pura
incendiei searas
semeei campos férteis com montanhas de granito
espalhei ventos
desencadeei tempestades
vendi a alma ao diabo!
Tudo isto só para habitar por um instante
dentro do teu tempo.
José L.
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