quinta-feira, 6 de março de 2014

O Voo da Fénix

Não há duas sem três. Mais um poema que vou partilhar de alguém de quem já aqui falei, um homem apaixonado eternamente pela esposa que perdeu o juízo no parto, tendo o filho de ambos sido entregue para adopção com poucos meses. Hoje confidenciaram-me a história contada pela boca dele. Foi-me dito que eles eram um casal lindíssimo, e que ele nunca a abandonou. Quem os vê não parecem sentir nada. Mas, olhando atentamente, para lá da aparência, conhecendo-se a história, vislumbra-se o sentimento. Hoje vi-os juntos, e ela ilumina-se a olhar para ele, sempre com um sorriso encantado, não obstante continue o seu interminável monólogo desconexo....

Quando eu estava grávida ela ficava parada a olhar para mim, muito atenta. Uma das vezes, enquanto esperava pela minha mãe à porta do prédio, onde ela também morava, chegou-se a mim e disse: "Carregas no ventre um filho varão. Vai ter nome de rei e ser guardião da riqueza". Foi a única vez que falou comigo, e nunca esqueci, pelo facto de se dirigir a mim e dizer algo tão estranho. Eu já sabia que ia ter um filho. Já tinha nome: Eduardo. O significado é, soube-o mais tarde, guardião da riqueza. Uma coincidência que me tocou na altura, especialmente porque sabia que ela tinha tido um filho, que deve ter agora perto de cinquenta anos, e certamente no meio da sua alienação, não deixava de ser mãe sofrida. Enchi-me de pena. Agora ainda mais, porque ela é tão amada e não deve ter consciência disso. Um amor tão grande não nos devia passar ao lado! E ele, que podia ter refeito a vida, seguiu o caminho mais difícil mas talvez, para ele, o único que lhe fazia sentido: estar ao lado da sua amada, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até que a morte os separe.

Porque o amor, mesmo quando a vida não é justa, merece ser partilhado:

CAMINHEIRO
(ou do voo da fénix)

Eu podia acomodar-me no meu ninho, no macio do teu regaço quente,
no cheiro das flores campestres, no pólen, no mel de frutos maduros;
colher na concha das mãos o sol junto à noite dos abetos;
adormecer na toada do rio manso que desliza a teus pés
e matar para sempre esta sede louca de beber todo o leite
que profusamente jorra de teus seios nus
para colher consequentemente todos os frutos proibidos
que pendem assaz de todas as árvores do teu jardim;
sossegar de vez este espírito vagabundo de andar seca-meca
a trilhar descalço caminhos que não levam a lado nenhum
(ou simplesmente me conduzem até ao lugar exacto onde um sol secreto brilha só para mim).
Quedar-me no que aprendi nos livros e no que a vida me ensinou...
não, não é comigo: sossegadamente envelhecer à sombra dos frutos 
do que a esmo semeei em terra árida...sabe-me a pouco;
quero exaltar ao som dos tambores que soltam vendavais;
não ter medo do rugir das tempestades;
beber o fio de punhais;
ter a coragem de pegar a vida pelos próprios cornos
e guardar avaramente todo o orvalho que se desprende das flores
quando vais, como Deusa adormecida que é urgente despertar,
a passear pelos canteiros de um jardim que só eu sei.

Subitamente sei-me uma ave mística envolta em fogo e me extingo
para depois renascer das próprias cinzas, rasgar o horizonte, partir!...

José L.

Sem comentários:

Enviar um comentário