domingo, 2 de março de 2014

Carpe Diem

Ainda agora foi Natal e já temos aí o Carnaval. Do Natal sempre gostei, do Carnaval nem por isso, ao longo da minha vida tivemos uma relação difícil, e posso dizer que, hoje em dia, não sendo a minha época preferida, é uma época que tolero sem más disposições, ficando até grata pelo dia de descanso extra!
Em miúda ficava toda contente quando o mundo se transformava um pouco como nos nossos sonhos, em que os personagens ganhavam vida e passavam por nós na rua. O único fato de Carnaval que tive não refletia essa alegria pois, ironicamente, vestia uma fatiota de severa, representativa do fado triste, o que não condizia nada com as minhas fantasias mágicas! Mas era o que tinha, e aos meus olhos aquela saia sem graça podia ser a cauda tímida de um vestido sumptuoso, e o xaile pelas costas era uma capa mágica que me levava até onde eu quisesse...
Mais tarde, ainda na minha infância, passei por um Carnaval que me trouxe um dia de alegria, com festa e lábios pintados, culminando com um episódio de violência física, num contraste amargo de folia e lágrimas, mostrando-me prematuramente que a alegria é, muitas vezes, uma mera ilusão. Não voltei a sentir aquele entusiasmo nos anos seguintes, apesar de ter passado por momentos engraçados, pois o nosso coração tem a capacidade de se regenerar, se assim o quisermos. Até ao dia em que o meu pai morreu, em época carnavalesca. Mais uma vez o contraste da folia que me rodeava e ensurdecia o meu coração magoado...seria possível o mundo à minha volta estar em festa, enquanto o meu desabava? A irracionalidade natural de quem sofre uma perda fez-me detestar tudo o que se relacionava com confetis, samba, apitos, e afins. Até que, quatro anos depois, nasceu o meu filho: o amor tudo cura. Ele foi uma criança de muita imaginação e, ironicamente, o Carnaval com ele era todo o ano, passava mais tempo mascarado em casa que outra coisa. E eu deleitava-me com aquela alegria, e alimentei-a, voltando a ser criança de novo, ao lado do neto que o avô não chegou a conhecer. Ele hoje tem quinze anos, e não liga nenhuma ao Carnaval, embora se tenha mascarado até não há muitos anos atrás. É mais sisudo e reservado do que eu alguma vez fui, mas teve direito aos carnavais que quis, da maneira que quis. E continua a ser Carnaval quando queremos pois soltamos, a dois, a imaginação sempre que nos apetece, mascarados de mãe e filho. E eu fiz as pazes com uma época do ano que me entristecia: viver e deixar viver, carpe diem conforme te apetecer.




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