OS OLHOS DE QUEM VÊ
Era uma vez uns olhos mal amados por quem, através deles, se observava a vida. Eram ruins para ver, deficientes à nascença, míopes desde então, um deles um pouco estrábico, como se tivesse levado um susto perante a chegada ao mundo...e este era uma coisa turva, difusa, como um canal de televisão mal sintonizado. Este par de olhos viveu em esforço mas, ao mesmo tempo, vendo uma certa beleza no que o rodeava, pois a magia da indefinição é a quase ausência dos defeitos, diluídos no panorama geral.
Até que, um dia, receberam uma ajuda para aliviar esse esforço, materializada num outro par, mas de óculos, feios e, no entanto, cumprindo o seu propósito: o mundo era agora um lugar mais colorido, de formas concretas, cheio de possibilidades! Contudo, isto não lhes trouxe a felicidade esperada: os olhos passaram para segundo plano, exilados atrás de lentes grossas, forasteiros na própria casa, enquanto os óculos se foram embelezando e modernizando, sendo exibidos e valorizados pois, eles sim!, cumpriam de forma competente a missão que lhes havia sido atribuída.
E assim os anos foram passando, os olhos vendo a vida a acontecer em última fila, tornando-se progressivamente mais pequenos e resignados à sua condição míope, sem lhes ser atribuída a verdadeira beleza que tinham.
Foi então que um dia, e após os muitos dias que tinham vertido lágrimas - mais que na vida toda - os óculos foram retirados da sua frente, e os olhos ali ficaram, nus e desfocados, vendo o seu próprio reflexo fragilizado no espelho, com uma intensidade que nunca havia acontecido. Aquele era um momento de apreciação por tudo o que haviam visto até ali sobre a beleza e fealdade da vida, e dos seus dias feitos também das noites, de chuva e céu azul, de terra e mar, de tristezas e alegrias...culminando naquele momento inigualável que era o de ver os filhos acabados de nascer, perfeitos mesmo através de uma visão sofrida. Ali, naquele reflexo, aconteceu a reconciliação com os seus próprios defeitos, sem medo da imperfeição, aceitando-a sem deixar de se amar, e sem precisar de se esconder de si ou dos outros.
Os óculos continuaram a fazer o seu trabalho, inertes no rosto, ferramenta auxiliar sem emoções, mas os olhos...! esses agora brilhavam com mais sabedoria para a vida, apesar de continuarem, ainda por vezes, sem a ver ou entender bem.

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