quarta-feira, 8 de abril de 2020

Cenoura e Chocolate




- Filha, onde estás? Estou na cozinha a fazer o teu bolo preferido! Costumas vir sempre a correr para lamber o resto da massa. Que se passa contigo ultimamente? Não me digas que deixaste de ser gulosa! Sofiaaaaa! Estás a ouvir-me?!
- Estou aqui mãe.
- Que susto! Nem te ouvi descer as escadas…Estou a fazer o teu bolo preferido, de cenoura e chocolate. Sentes o cheiro? Lembras-te do cheiro?
- Lembro mãezinha. Sempre fizeste o melhor bolo do mundo.
- Pode não ser o melhor, mas é feito a pensar em ti. Passem os anos que passarem. Anda, chega-te aqui, espreita o forno. Ah…! não está lindo?!
- Está sim mãe, obrigada…
- Que se passa? Estás triste? Nos teus doze anos de vida nunca te vi tão pouco entusiasmada com o nosso bolo…! Preferias outro, era…? Eu faço-te outro já a seguir! Se não tiver os ingredientes necessários vou já ali à mercearia buscar!
- Não mãe, este está óptimo! Mas…acho que tens de parar de fazer tantos bolos…
- Ora essa, mas porquê? Sabes que eu gosto. Que eu preciso. Olha, toma, guardei-te a taça para rapares…Que se passa? Porque estás assim a olhar para mim, calada?
- Mãezinha…já passaram dois anos… não, não chores! Sabes que eu não gosto de te ver chorar.
- Não, não…não quero ouvir uma coisa dessas! Eu sei o que vais dizer… Vá, dá-me o salazar para aproveitarmos a massa toda…
- Tens que me ouvir. Não podes ficar para sempre assim, presa ao fogão.
- Já te disse que estou bem. Estou bem porque te tenho aqui, perto de mim. Só isso me importa meu amor. Tu sabes disso. Não preciso de mais nada!
- Mas tu sabes que já cá não …
- Filha, não…! Por favor, não digas mais nada…olha, olha como o bolo está a crescer, já viste?!
- Olha tu para mim, mãe. Olha, por favor…! Eu já cá não estou, não da maneira que tu queres…Vou-me embora mãe.
- (…)
- Tira esse avental e vai viver lá fora. Vais ver que consegues…
- Já não sei viver…
- Porque só pensas na morte. Mas está tudo bem mãe. Eu estou bem.
- E eu? Alguma vez vou ficar bem…?
- Claro que sim. Porque eu vou estar sempre contigo. Sem que precises ver-me.
Trocaram um sorriso, triste e esperançado ao mesmo tempo. Sofia foi-se tornando transparente aos olhos cansados da mãe, até desaparecer. O cheiro a bolo pairava no ar. E, de repente, percebeu que lá fora o sol brilhava, ofuscando a sua dor com a promessa de um novo dia.

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