A menina cresceu num sítio escuro e sem janelas, com alguidares de água quente e o cheiro da saudade na camisola da mãe. O mundo era um sítio triste, povoado de estranhos maliciosos, brinquedos partidos pela mão inesperada e um corpo dorido, imaginação fértil sem asas que voassem, atrofiadas e presas no seu próprio mundo. A sua evasão era um rádio a pilhas, era o cão vadio que conhecia o dono, era o carvalho que dava sombra às brincadeiras, eram os lápis e os papéis que coloriam o seu mundo interior com as linhas que formavam a estrada imaginária, a apenas três quilómetros da vida idealizada. Claro que esta nunca aconteceu, mas o importante é que as cores que povoaram os seus sonhos de menina calada afastaram a escuridão previsível, e iluminaram com tons de alegria cada momento de felicidade que estava por vir.

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